Comportamento

Cova América

Em meio a críticas e quase meio milhão de mortos causados pela pandemia, o presidente Jair Bolsonaro confirma o Brasil como sede da Copa América após a desistência de Colômbia e Argentina

Crédito: WILTON JUNIOR

PEGANDO CARONA Bolsonaro e os campeões de 2019: jogadores apoiaram a presença do presidente (Crédito: WILTON JUNIOR)

A insanidade acaba de marcar mais um gol contra o Brasil. Com a terceira onda se formando e ao contrário de todas as recomendações de médicos e especialistas, o País será sede da Copa América 2021. A notícia surpreende porque seguimos diante da maior crise sanitária da história e muito perto da trágica marca de meio milhão de mortos. A decisão tomada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com o aval do presidente Jair Bolsonaro torna explícito o desprezo pela vida dos brasileiros e choca os craques internacionais. “Se está complicado no Brasil, não se pode jogar”, disse o atacante Kun Aguero, da seleção argentina. “Acho que agora não é o momento indicado para jogar”, completou o meio-campista uruguaio De Arrascaeta, do Flamengo.

“Todos os meus ministros são favoráveis à Copa América no Brasil. Caso encerrado” Jair Bolsonaro, em apoio ao presidente da CBF, Rogério Caboclo (Crédito:Divulgação)

Tal qual a política do “pão e circo” popularizada por políticos romanos na antiguidade, o gesto do governo é uma clara tentativa de manipular as massas por meio do esporte para desviar a atenção da CPI da Covid e da má gestão federal no combate ao coronavírus. “No que depender de mim e de todos os ministros, inclusive o da Saúde, haverá Copa América”, declarou Bolsonaro.

Na última segunda-feira, 31, a Conmebol, entidade responsável pela gestão do futebol na América Latina, foi informada de que as sedes originais haviam desistido de promover o evento. A Colômbia enfrenta uma grave crise política e suas ruas estão tomadas por manifestantes. A Argentina encara a fase mais aguda da pandemia. Após uma negociação nos bastidores, em menos de 12 horas a CBF se ofereceu como sede. O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, ficou estarrecido. “As ofertas de vacinas mofaram em gavetas, mas o ‘ok’ para o torneio foi ágil. Escárnio”, publicou no Twitter. Ele não foi o único parlamentar a se indignar. “Bolsonaro dá mais uma demonstração de descaso e insanidade. É mais um grande absurdo desse governo”, postou o senador Humberto Costa (PT-PE). Em entrevista à ISTOÉ, o deputado federal Felipe Carreras (PSB-PE), presidente da Comissão de Esportes da Câmara, criticou Bolsonaro. “O governo só bate cabeça e deixa a população preocupada. É apenas para o presidente populista aparecer”, diz o deputado. Ele protocolou um requerimento para convocar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para esclarecer quais serão os protocolos de segurança adotados para evitar o caos sanitário.

A infectologista da UNICAMP Raquel Silveira diz que a decisão não é surpresa vindo de um “governo que não ouve a ciência” e ignora o básico. “Trazer essa competição para o País é perigoso e um desrespeito com os brasileiros”, afirma. O Brasil registra mais de 465 mil óbitos pela doença e 16,5 milhões de infectados — atrás apenas, em números absolutos, de EUA e Índia. O evento também gerou uma disputa entre a Globo e o SBT, pois a emissora de Silvio Santos é a nova detentora dos direitos de transmissão da Copa América. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, é casado com Patrícia Abravanel e genro de Silvio Santos. Segundo o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, as partidas ocorrerão no Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. Alguns estados, como Pernambuco e São Paulo, preferiram ficar de fora. “A prioridade é conter a pandemia. Concluímos que representaria uma má sinalização do arrefecimento no controle de transmissão do coronavírus”, disse o governador João Doria.

O governo se defende e alega que já há campeonatos em andamento no País. É verdade, mas isso esconde uma realidade bem mais cruel: as delegações estrangeiras vão chegar acompanhadas por dezenas de integrantes e a fiscalização das fronteiras brasileiras é praticamente inexistente. A chance de importar uma nova cepa do vírus junto com o evento esportivo vai aumentar — não é à toa que nas redes sociais o campeonato ganhou o apelido de “Cova América”.