Cultura

Cotidiano e gente humilde

“Anos de Chumbo”, estreia de Chico Buarque como contista, traz personagens da periferia carioca em narrativas curtas e repletas de ironia

Crédito: Bob Wolfenson

MÚSICO E ESCRITOR Chico Buarque: como sempre, há um toque autobiográfico (Crédito: Bob Wolfenson)

O escritor argentino Julio Cortázar definia o conto como um “ciclo de texto perfeito e implacável, que começa e termina como uma esfera”. O conceito se aplica a “Anos de Chumbo e Outros Contos”, primeira incursão de Chico Buarque pelo gênero. Em oito pequenas e perfeitas esferas, o artista narra episódios urbanos ambientados no Rio de Janeiro, onde seus personagens compartilham um micro-universo decadente e sem esperança.

LANÇAMENTO “Anos de Chumbo e Outros Contos” Chico Buarque Companhia das Letras Preço: R$ 59 (Crédito:Divulgação)

Em textos ágeis e contundentes, Chico desfila uma lingugem simples e personagens que parecem não compreender bem os casos que narram – ou, pior, acreditam que tais episódios são fatos inevitáveis da vida. “Meu Tio” apresenta uma garota prostituída pela família para agradar o tio, um miliciano que atropela pedestres e ameaça gente na praia. Em “Os Primos de Campos”, um adolescente se vê obrigado a fugir após ter familiares perseguidos, novamente, por milicianos. “Cida” conta a história de uma moradora de rua do Leblon, que dorme sobre um banco de cimento e faz suas necessidades no canal. Em “Copacabana”, um homem sonha com os tempos de ouro do bairro. “Anos de Chumbo” tem também resquícios de autoritarismo: nesse caso, o autor se vinga de repressores da ditadura militar, tema que inspirou muitas de suas canções.

Os outros contos flertam com tons autobiográficos, característica usada no romance “O Irmão Alemão”, de 2014. “O Passaporte”, em que um “grande artista” perde o documento, é inspirado em uma história real – isso aconteceu com Chico quando ele estava em cima da hora do embarque para Paris. “Para Clarice Lispector, com Candura”, sobre o encontro de um jovem poeta com a escritora, também tem traços verídicos: Chico foi entrevistado por ela nos anos 1960. Em “O Sítio”, um homem deixa o Rio de Janeiro para “escapar da peste”, o que o autor também fez no início da pandemia.

Com o novo livro, Chico mostra que é possível aliar com maestria a atividade de romancista e contista – e ainda compor. Entre “O Irmão Alemão” e “Essa Gente”, de 2019, ele lançou o elogiado álbum “Caravanas”, em 2017. Após “Anos de Chumbo”, resta saber se seu próximo lampejo criativo será musical ou literário. Em ambos os casos, sairemos ganhando.