Corrida de rua cresce no Brasil: já são 15 milhões de praticantes, a maioria mulheres

Número de provas dispara 85% em um ano. Confira o calendário com alguns eventos de 2026, incluindo a Maratona do Rio, cotada para ser a primeira 'major' da América do Sul

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Maratona do Rio, patrocinada pela Adidas, pode integrar a lista das majors, onde estão as seis maiores do mundo Foto: Divulgação

O Brasil é a terra do futebol, mas também da corrida de rua, uma atividade cada vez mais popular. Um estudo da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo), divulgado recentemente, mostra uma forte expansão da prática em território nacional: em um ano, o crescimento das provas foi de 85%. Em 2025, foram organizadas 5.241, contra 2.827 em 2024. Esses dados se referem aos eventos regulamentados com uma autorização (permit) emitida pelas federações de atletismo dos Estados e pela Confederação Brasileira de Atletismo.

Entre eles estão os capazes de atrair gente de todos os cantos do país e do exterior, como a Maratona do Rio e a São Silvestre. Também entram na lista as provas atrelados a marcas e experiências ou as que foram criadas para atender perfis específicos de público, como as competições só para mulheres ou para torcidas de um time de futebol. Ou seja, há oportunidades para qualquer pessoa que deseje se aventurar por esse universo.

Confira no final da reportagem um calendário de provas 

Novo perfil dos corredores

Guilherme Chelso, presidente da Abraceo, destaca que a corrida se tornou uma atividade mais feminina e mais jovem. No ano passado, elas superaram os homens nas inscrições em provas, como revela a entidade. Na verdade, retomaram a posição. Em 2017 e 2018, as mulheres representavam 53% dos participantes. A partir de 2019, porém, eles assumiram a dianteira, chegando a 55% em 2022. Desde então, as corredoras foram crescendo a presença nos eventos pelas ruas do Brasil até que, em 2025, chegaram a 52,4% desse público. Os dados são de um levantamento da Ticket Sports, plataforma de venda de inscrições para eventos esportivos realizados na América Latina, e eles balizam as análises nacionais da Abraceo.

Em relação à idade, a média ficou em 38 anos. Em 2024, esse valor era um ano acima. A Geração Y (29 a 44 anos) é a prevalente, com 49,4% da participação, seguida da Geração X (45 a 60 anos), com 23,3%. A turma mais jovem, formada pelas Gerações Z (13 a 28) e Alfa (até 12 anos,) teve um avanço importante nos últimos anos – o que contribuiu para esse ligeiro rejuvenescimento da base de corredores brasileiros. Eles saíram de 17,1% em 2023 para 21,4% no total de inscritos no ano passado.

“Mudou bastante o cenário em comparação ao que era antes da pandemia. Está entrando, de maneira intensa, uma nova leva de corredores. Há uma preocupação maior com a saúde. Antes, o corredor era alguém de 45 anos que, depois de formar família, começava a dar mais atenção para esse lado. Hoje, o cuidado vem mais cedo”, diz Chelso.

Ele também comenta outro fenômeno dos novos tempos: existe uma quantidade grande de influenciadores de corrida surgindo nas redes, o que até virou uma fonte de monetização. O presidente da Abraceo conta que uma comediante trocou o foco do seu conteúdo no Instagram porque ser da corrida rendia mais para ela do que fazer humor.

Mercado bilionário

A Ticket Sports dimensionou, no ano passado, quanto movimenta esse mercado: R$ 1,1 bilhão. O cálculo se baseou no total de inscrições projetadas para 2025, a partir da base da plataforma e também de concorrentes.

Esse montante inclui eventos realizados sem o permit, o documento liberado pelas federações de atletismo. Isso significa mais de 11 mil provas espalhadas pelo país. As entidades esportivas batalham para que mais competições sejam organizadas com a certificação, que assegura a disponibilidade de atendimento médico e a montagem de um percurso com segurança, entre outros benefícios.

Quantos são os corredores no Brasil

No ano passado, o país contabilizava 13 milhões de praticantes de corrida de rua, de acordo com um estudo encomendado pela Olympikus para a consultoria Box 1824. A segunda edição desse trabalho foi apresentada na quinta-feira, 29, e atualizou o número: são 15 milhões, um aumento de 15%. É um contingente equivalente à reunião das populações da Dinamarca (9 milhões) e da Áustria (6 milhões).

Para esses brasileiros, a atividade se encaixa em diferentes propósitos. “A corrida era antes algo mais para o atletismo do que para o coletivo. Hoje, tem a pessoa que busca performance e a que busca algo mais social. Com as redes, tornou-se um momento que você compartilha. Então, ela também é de todos. E há outro fenômeno se formando, o das crews [grupos de pessoas unidas por um interesse], em que se corre por uma causa, por um grupo. A corrida é, assim, um ambiente de encontro de comunidades; é manifesto”, avalia Marcio Callage, CMO (Chief Marketing Officer) da Vulcabras, grupo que produz a Olympikus e licencia as marcas internacionais Under Armour e Mizuno no Brasil.

Não à toa, a Olympikus – que completou 50 anos em 2025 e comemorou o feito com o patrocínio de 50 corridas – decidiu apoiar algumas crews, como as Chapadinhas por Endorfina, uma comunidade criada por e para mulheres. No calendário de provas apoiadas pela marca, há um treinão (que não chega a ser uma prova, mas uma atividade com distâncias variadas) com as Chapadinhas, em abril, que será realizado em Belo Horizonte. Essas comunidades e o fato de as provas estarem mais seguras permitiram que mais mulheres aderissem ao esporte, ressalta Calllage.

Bota Pra Correr, da Olympikus, aconteceu em Cumbuco (CE); próxima edição será na Chapada dos Guimarães (MT).

Bota Pra Correr: esporte e turismo juntos

A Olympikus tem um evento proprietário, que chega à 12ª edição neste ano, o Bota Pra Correr (BPC). Trata-se de um circuito criado em 2019 com a proposta de levar gente para conhecer o Brasil correndo. A prova já levou milhares de pessoas a destinos como Jalapão, Pantanal, Alter do Chão, Chapada dos Veadeiros e São Miguel dos Milagres. Normalmente, ocorre em duas etapas no ano. Em 2025, a última prova foi em Cumbuco (CE).

Mas desta vez, por ser ano de eleição, só haverá uma corrida e o local escolhido é a Chapada dos Guimarães (MT), nos arredores do parque nacional. O formato mistura esporte, música, cultura local, integração com comunidades, sustentabilidade, gastronomia regional, talks e ativações. As inscrições abrem neste mês.

Maior vendedora de tênis do país, com 15 milhões de pares comercializados por ano – e a linha de corrida respondendo por 20% do faturamento –, a Olympikus está integrada ao calendário das principais provas brasileiras. Patrocina a Maratona Internacional de São Paulo, em abril, e assumiu neste ano o naming rights da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre em maio. A expectativa em relação ao evento gaúcho é um aumento excepcional de participação, pulando de 20 mil corredores para 30 mil.

“O interesse cresce porque essa é uma prova de velocidade, rápida mesmo. A temperatura é amena e o percurso bem plano. Para quem quer fazer performance, essa é a escolha. É a Boston do Brasil”, diz Callage, referindo-se a uma das majors do esporte, cobiçadíssima entre os corredores brasileiros de alto desempenho. As maratonas mais prestigiadas do mundo, com nível técnico elevado e duro de alcançar, compõem a World Marathon Majors. São seis: Boston, Nova York, Londres, Berlim, Chicago e Tóquio.

Maratona do Rio, uma major no Brasil?

Uma das estrelas do calendário nacional é exatamente uma prova cotada para ser a major da América do Sul, a Maratona do Rio, que será disputada em junho. “No ano passado, disseram que ela está tentando obter o certificado de major. É a nossa maior candidata. Uma major está muito ligada ao apelo turístico”, pondera Chelso, da Abraceo.

A Dream Factory, uma das organizadoras da Maratona do Rio, junto com a Spiridon, conta que, em 2025, foi batido um recorde: 60 mil corredores inscritos, 33% a mais do que no ano anterior (45 mil). As distâncias disponíveis (as mesmas da edição passada) são 5 km, 10 km, meio-maratona de 21 km, maratona de 42 km e o Desafio 21+42 km.

Neste ano, o modelo de inscrição seguiu o padrão das majors: sistema de sorteio gratuito (via Loteria Federal) para fazer inscrições, no caso para as provas de 21k, 42k e Desafio. A Dream Factory explica que a razão foi a alta demanda. Desse modo, pretenderam garantir igualdade de chances para obtenção de inscrição. A diferença em relação às gigantes internacionais é que a participação no sorteio não teve custo.

Dois dados chamam atenção sobre a edição 2025 – e sobem o sarrafo para a prova deste ano. O impacto total do evento na economia do Rio, de acordo com estudo da FGV, foi de R$ 587,4 milhões, aumento de 65% sobre 2023, quando foi realizada a pesquisa anterior. É bom acrescentar um “detalhe”: 85% dos inscritos são de fora da cidade (segundo a pesquisa da Abraceo, em 2025, 52% dos participantes de provas viajaram para correr). Outro recorde do ano passado: 42 marcas se envolveram com a prova, que os organizadores classificam de festival. Foram mais de 30 produtos licenciados.

Adidas: corrida está entre as principais categorias da empresa

Patrocinadora esportiva da Maratona do Rio, a Adidas afirma que o evento é sua principal plataforma de running no país e “um dos projetos mais estratégicos da marca na América Latina”, como ressalta Bárbara Ikari, gerente sênior de marketing da empresa no Brasil. A corrida está entre as três principais categorias da companhia, juntamente com futebol e training. Segundo Bárbara, a parceria com a maratona, que está em seu quinto ano, permite “entregar, em escala, tudo aquilo em que a Adidas acredita: inovação em produto, democratização e incentivo à prática esportiva”. Dentre as majors, ela patrocina a de Berlim.

Nesta edição, a Adidas terá um portfólio de produtos exclusivos para a prova, maior do que o do ano passado, além de ativações de marca já no período de preparação. Mas ela não dá spoilers.

São Silvestre teve sorteio para aquisição de inscrição pela primeira vez no ano passado.

São Silvestre, prova democrática

Outra corrida emblemática do Brasil é a São Silvestre, que em 2025 realizou sua 100ª edição, que teve problemas na distribuição de camisetas e medalhas, com gente burlando o sistema de números de peito, falsificando a participação. Organizadora da prova no ano passado, junto com a Fundação Casper Líbero, dona da marca, a Vega Sports argumenta que essa é uma das provas mais democráticas do mundo, com corredor de 95 anos e de 18.

Marcos Yano, CEO da Vega, diz que, por ser muito desejada, é tomada por grupos “que surgem para atrapalhar”. Para atender quem ficou sem seu kit, eles estão utilizando IA para identificar quem pegou as medalhas alheias. Por outro lado, Yano garante que até o fim do mês todos os inscritos que ficaram sem os itens vão recebê-los em casa.

Na 100ª edição, as inscrições se esgotaram em horas. Depois, houve fase de sorteio. A Vega está estudando o formato para a próxima prova – que já estão planejando. Incluindo a São Silvestre, a empresa calcula que terá de 45 a 50 eventos em 2026: 30 já estão confirmados. No ano passado, foram 24. “Se pegarmos como base o ano de 2024, vamos ter um aumento de cerca de 180% de provas para 2026. Só isso já mostra como o mercado de corrida tem crescido e tem um potencial enorme ainda”, salienta Yano. Entre as provas deste ano estão as duas etapas da Golden Run, circuito da Asics que completará 15 edições. A marca patrocinou a São Silvestre.

SP City Marathon, que completa dez anos, agora é patrocinada pela Nike

Nike SP City Marathon

Dentre as grandes marcas esportivas, a Nike terá como sua principal iniciativa em 2026 o patrocínio à SP City Marathon, que chega a seu 10º ano. Para Renato Aguiar, diretor de marketing da Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil, essa é uma das maratonas mais relevantes do calendário nacional. “Queremos fortalecer a experiência dos corredores ao longo de toda a jornada e consolidar o evento como um dos grandes símbolos da corrida de rua no país”, afirma.

A Iguana Sports é a responsável pela organização da SP City Marathon. “Nesta edição comemorativa, o evento terá limite de 35 mil corredores”, revela Eliane Verderio, CEO da empresa, focada em São Paulo. Ela antecipa que a maratona terá muitas ativações no período pré-prova, assim como atrações ao longo do percurso e “uma largada pensada para ser inesquecível”.

Patrocinadora da major de Chicago, a Nike entende que inovação na corrida passa cada vez mais pela combinação de como a marca se conecta com quem corre e pela oferta de produtos mais adequados às necessidades de quem coloca o pé no asfalto. “Temos olhado para a jornada de ponta a ponta, entendendo como a corrida aparece no dia a dia das pessoas – na rua do bairro, nos parques, nas crews locais, nas grandes provas – e oferecendo produtos e fomentando iniciativas que aproximem a marca desses diferentes momentos”, explica Aguiar.

A Nike apoia crews como City Runners, em São Paulo, e Calma Clima Crew, em Belo Horizonte. “Esses coletivos criam ambientes de acolhimento, pertencimento e progressão para corredores de vários níveis”.

No universo da corrida, tem sempre gente com experiência e iniciantes. Especializada em fotos de corridas, a Fotop está nas ruas desde 2015 e tem obtido 100% de crescimento ano a ano, de acordo com o CEO André Chaco. Ele pontua que os eventos têm impulsionado provas menores e treinos e isso também entrou no radar da Fotop, que lembra que as redes sociais também movimentam esse mundo. Hoje, é possível ver os fotógrafos com os coletes da empresa em grandes avenidas ou locais onde os corredores costumam treinar, além de estar nas mais variadas provas brasileiras.

O interesse das marcas de fora do setor de esportes

Na esteira do avanço do esporte, também cresce o interesse por consultorias, acionadas especialmente por marcas que não fazem parte do meio esportivo. Para o consultor Felipe Campos, que orienta os investimentos de uma companhia de energia em corridas de rua, os diferentes perfis de participantes possibilitam que as empresas tenham interações diretas com seu público-alvo. O patrocínio de uma corrida ajuda a estimular a saúde física e mental dos colaboradores, a promover seus produtos ou serviços e a rejuvenescer a marca. E os corredores costumam gostar das ações que circundam as provas.

Bancos como Itaú e Santander entenderam que a corrida é um ponto de conexão importante”, comenta Márcio Callage, que completa: “O segmento precisa de recursos com o boom de eventos. É legal esse movimento de marcas porque, em geral, no esporte quem recebe financiamento são os clubes. Na corrida, o recurso beneficia o coletivo”.

Calendário 2026 – Desafios para todos os gostos

Confira algumas provas distribuídas pelo Brasil, em diferentes percursos:

Fla Run – 1/3 – Rio de Janeiro (RJ) – Percursos: 10 km, 5 km e 3 km. Organização – Vega Sports

Meia de Curita 2026 – 8/3 – Curitiba (PR) – Percurso: 21 km, 10 km e 5 km. Organização – Olympikus

Athenas Run Faster – 15/3 – São Paulo (SP) – Percursos: 21,1 km; 15 km; 10 km; e 5 km. Organização – Iguana Sports e Nubank

Corrida Folha 105 Anos – 29/03 – São Paulo (SP) – Percursos: 10 km, 5 km e 3 km. Organização – Vega Sports e Folha de S. Paulo

Treinão do Corre – 09/4 – São Paulo (SP) – Organização – Olympikus

Corrida das Nações 2026 –11/4 – São Paulo (SP) – Percurso: 5 km. Organização – Yescom e Olympikus.

Maratona Int. de SP 2026 – 11/4 e 12/4 – São Paulo (SP) – Percurso: 42 km, 21 km, 10 km e 7 km. Organização – Yescom e Olympikus

Seven Run – 26/4 – São Paulo (SP) – 28 km, 21,1 km, 14 km e 7 km. Organização – Iguana Sports. Organização – Iguana Sports e Nubank

Treinão do Corre com Chapadinhas de Endorfina – 26/4 – Belo Horizonte (MG). Organização – Olympikus

Ayrton Senna Racing Day – 1/5 – São Paulo (SP) – Percursos: 12,5 km; 8,3 km e 4,1 km – Organização – Vega Sports

Corrida do Samba – 3/5 – Rio de Janeiro (RJ). Percurso: 21 km e 10 km. Organização – Olympikus

Asics Golden Run – 17/5 – São Paulo (SP) – Percursos: 21 km e 10 km. Organização – Vega Sports e Asics

10k SP Challenge – 31/5 – São Paulo (SP) – Organização – Iguana Sports e Nubank

Maratona Internacional de Porto Alegre Olympikus – 30 e 31/5 – Porto Alegre (RS) – 42 km, 21 km, 10 km e 5 km. Organização – Olympikus

Maratona do Rio – 6 e 7/6 – Rio de Janeiro (RJ) – Percursos: 42 km, 42 km + 21 km, 21 km, 10 km e 5 km – Organização – Dream Factory, Spiridon e Adidas

Athenas Run Stronger – 21/6 – São Paulo (SP) – Percursos: 25 km, 18 km, 12 km e 6 km. Organização – Iguana Sports e Nubank

Asics Golden Run – 12/7 – Rio de Janeiro (RJ) – Percursos: 21 km e 10 km. Organização – Vega Sports e Asics

Nike SP City Marathon – 26/7 – São Paulo (SP) – Percursos: 42 km e 21 km. Organização – Iguana Sports, Nike e Nubank

Run The Bridge – 30/8 – São Paulo (SP) – Percursos: 30 km, 15 km, 10 km e 5 km. Organização – Iguana Sports e Nubank.

Bota Pra Correr Chapada dos Guimarães – 5 e 6/9 – Mato Grosso. Organização – Olympikus

Athenas Run Longer – 18/10 – São Paulo (SP) – 28 km; 21,1 km; 14 km e 7 km. Organização – Iguana Sports e Nubank

Venus Women’s Half Marathon – 29/11 – São Paulo (SP) – 21,1 km; 15 km, 10 km e 5 km. Organização – Iguana Sports e Nubank

Volta Internacional da Pampulha – 6/12 – Belo Horizonte (MG) – Percurso: 18 km. Organização – Yescom

101ª São Silvestre – 31/12 – São Paulo (SP) – Percurso: 15 km. Realização – Vega Sports