Coronel nega ter matado esposa e acusa família dela: ‘Precisam achar um culpado’

A soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana foi encontrada morta em seu apartamento com um tiro na cabeça

Gisele Alves Santana
Gisele Alves Santana Foto: Reprodução/TV Globo

*Alertas: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, marido da soldado Gisele Alves Santana, negou ter matado a companheira com tiro na cabeça e acusou a família dela de criar uma narrativa na tentativa de “achar um culpado”. O militar ainda falou sobre a intenção de se divorciar da mulher em três ocasiões.

Durante entrevista concedida ao programa “Domingo Espetacular”, da TV Record, o tenente disse que, apesar de “perfeito” e “maravilhoso”, o relacionamento dele com Gisele tinha momentos de discussões. Geraldo revelou que ambos não dormiam no mesmo quarto desde julho de 2025 e viviam como estranhos há cerca de sete meses antes do ocorrido.

+ PM morta em casa não tinha ideações suicidas e queria a separação, diz ex-marido à polícia

“Nunca teve briga. Usar ‘briga’ é um termo errado. Havia discussão. Briga sugere agressão. E nunca houve agressão. Havia discussões por ciúmes”, pontuou.

“Eu falei para ela que a gente precisava terminar o relacionamento. Eu agendei o divórcio por três vezes (setembro, outubro e novembro). Por três vezes ela não foi. Ela não queria se separar”, afirmou.

Segundo o tenente-coronel, Gisele foi encontrada morta minutos depois de ele pedir a separação novamente. “Eu entrei no quarto, dei bom dia e falei ‘olha, amor, eu acho que é melhor a gente se separar mesmo’. Ela se levantou da cama e me empurrou para fora do quarto com muita força. Eu saí e entrei no banho”, relembrou.

“Aí, quando eu estava no banho, ouvi um barulho. Abri o box, abri a porta e a vi caída no chão. Nem desliguei o chuveiro, vesti a bermuda e peguei o meu celular. Deixei a porta do apartamento aberta para que tivesse transparência e todos vissem o que estava acontecendo”, disse.

O laudo pericial apontou lesões compatíveis com estigmas digitais (ponta dos dedos) e estigma ungueal (unha). De acordo com os peritos, esses ferimentos estavam nas regiões da face inferior de Gisele “em transição com mandíbula e em pescoço na lateralidade direita”.

Indagado, Geraldo afirmou não saber quem fez aquelas marcas na soldado, apenas garantiu que não foi ele, pois “roo as unhas, nem unha tenho”, e questionou: Será que a própria Gisele não apertou o pescoço com a mão e, já conhecedora dos procedimentos policiais, (pensou) ‘eu vou fazer marcas e depois eu vou me matar para incriminá-lo’? Foi ela quem tirou a própria vida”.

Em outro trecho da entrevista, o tenente-coronel rebateu as acusações sobre possível relacionamento tóxico, e destacou que nunca proibiu a esposa de usar maquiagem. “A Gisele sempre foi uma mulher muito bonita, vaidosa. Então, tudo isso é uma narrativa mentirosa que estão (família) construindo para tentar me acusar. Eles precisam achar um culpado”, acrescentou.

Relembre o caso

O ex-marido da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada morta em seu apartamento com um tiro na cabeça, prestou depoimento à Polícia Civil. Ele era casado com a agente antes dela se relacionar e se casar com o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto.

De acordo com Miguel Silva, advogado que representa a família de Gisele, o ex-companheiro da soldado contou aos investigadores que ela não tinha ideações suicidas, uma das hipóteses para as circunstâncias da morte. Pai biológico da filha de 7 anos de Gisele, o ex-marido também disse que a criança, que vivia com a mãe e o padrasto, já indicava que o casal de policiais vivia uma relação turbulenta e marcada por brigas.

“Eu acompanhei o depoimento”, disse Miguel Silva. “Ele (ex-marido) confirmou que a filha tinha medo de voltar para a casa da mãe (Gisele), e que contava para o pai que a Gisele reclamava muito da relação com o coronel”, contou. O ex-marido passava alguns dias junto da criança. Ele teve a identidade preservada por motivos de segurança.

“Inclusive, foi uma surpresa até para mim a informação de que ele comentou que a menina estava feliz porque a Gisele já tinha decidido que elas iriam morar com os pais dela, os avós da criança. Ou seja, a separação era iminente”, acrescentou Silva.

Procurada, a defesa do tenente-coronel, que se encontra afastado das suas atividades, disse que semana que vem “vai juntar provas que desmentem” a versão da defesa da família de Gisele.

Segundo o tenente-coronel Geraldo Neto, a esposa teria tirado a própria vida dentro de casa no dia 18 de fevereiro, em um apartamento localizado no Brás, região central de São Paulo, momentos depois de uma discussão na qual ele teria proposto a separação do casal.

Na versão do tenente-coronel, ele estava no banho no início da manhã daquele dia quando ouviu o barulho de um disparo e, em seguida, encontrou Gisele já baleada no chão.

A morte chegou a ser registrada como suicídio, mas a classificação mudou após a família de Gisele afirmar que ela sofria abusos e violência por parte de Geraldo Neto. O caso passou, então, a ser tratado como morte suspeita.

Para o advogado Miguel Silva, o depoimento do ex-marido também refuta a hipótese de suicídio. “Ele, inclusive, disse à polícia que a Gisele era uma ótima mãe e que amava a filha. Não teria motivos para ela tirar a própria vida.”

Com o passar das investigações, a Polícia Civil de São Paulo viu aumento nos indícios de feminicídio na morte da soldado. Nesta semana, inclusive, a Justiça de São Paulo determinou que a polícia investigue a ocorrência como feminicídio e que o caso seja redistribuído para uma Vara do Tribunal do Júri, onde são julgados crimes contra a vida.

O processo corre em sigilo e, até as últimas atualizações, não havia mandado de prisão expedido contra o tenente-coronel Geraldo Neto. “Está demorando muito. Eu entendo que ele já deveria estar preso”, afirma Miguel Neto.

Lesões contundentes

No dia 6 de março, a Justiça já havia determinado a exumação do corpo de Gisele. De acordo com o laudo, ao qual o Estadão teve acesso, peritos constataram marcas na face e “lesões contundentes” na região cervical da vítima. “São lesões contundentes, por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal (causado por unha)”.

Fontes da polícia afirmaram ao Estadão que as investigações encontraram outras divergências em relação à versão apresentada por Geraldo Neto.

Uma delas estava no depoimento à polícia de um dos socorristas que atendeu a ocorrência, que foi divulgado pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo, 8. Ele afirmou que o tenente-coronel não parecia ter saído do banho conforme o militar chegou a alegar. Ele estaria seco e o imóvel não apresentava marcas de água.

O mesmo socorrista também disse que a arma estava bem encaixada na mão de Gisele – algo que, segundo ele, nunca havia visto em 15 anos de profissão em casos de suicídio – e que o sangue da policial já estava coagulado.

Outro indício considerado pela polícia é o tempo que o tenente-coronel teria levado para pedir socorro para a esposa após o disparo. Isso porque, segundo uma vizinha, o estampido do tiro teria sido ouvido por ela às 7h28, enquanto a primeira ligação feita pelo policial para pedir ajuda ocorreu às 7h57 – quase 30 minutos depois.

Geraldo Neto ainda teria ligado e se encontrado com um desembargador momentos depois da morte. O magistrado foi ao apartamento quando os socorristas ainda estavam no local, e o tenente-coronel ainda teria tomado banho após o corpo ser retirado – a medida chegou a ser contraindicada por outros policiais presentes, tendo em vista a possibilidade da cena da ocorrência ser alterada.

Relacionamento conturbado

Gisele era casada com o tenente-coronel e tinha uma filha de 7 anos de outro relacionamento. Em depoimento à polícia, a mãe de Gisele afirmou que a relação era conturbada e que Geraldo seria abusivo e violento, proibindo a mulher de usar batom, salto alto e perfume e cobrando a realização das tarefas domésticas de forma rigorosa.

Ainda segundo depoimento da mãe de Gisele, quando a soldado mencionou a intenção de se separar do marido, ele enviou pelo celular uma foto em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.

No boletim de ocorrência, o tenente-coronel afirma que os dois se conheceram em 2021 e se casaram em 2024. Os problemas no relacionamento teriam começado em 2025 e são atribuídos por Geraldo Neto a uma mudança de batalhão.

O tenente-coronel afirmou ter sido alvo de denúncias anônimas na Corregedoria da PM, motivadas por vingança de colegas do novo local de trabalho, com fofocas falsas de um relacionamento extraconjugal. Quando o boato chegou até Gisele, ela teria tido uma crise de ciúmes e os dois passaram a brigar com frequência e a dormir em quartos separados.

Geraldo Neto relatou que, no dia em que ela morreu, ele foi ao quarto propor a separação. Segundo o depoimento, Gisele teria se levantado exaltada, mandado que ele saísse e batido a porta. Em seguida, ele afirma que foi tomar banho e ouviu um barulho que pensou ser uma porta batendo. Ao sair do banheiro, ele teria encontrado Gisele caída no chão.

*Com informações do Estadão Conteúdo