SÃO PAULO, 04 MAI (ANSA) – Por Renan Tanandone – A paralisação do futebol italiano em decorrência da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) terá reflexos negativos nas finanças dos clubes, tanto que muitos já anunciaram cortes salariais de jogadores e comissões técnicas para evitar prejuízos piores. Mas as equipes da Série D, que são amadoras, devem sofrer ainda mais com a crise econômica causada pela emergência sanitária.
Os clubes da quarta divisão italiana não possuem a mesma receita que as equipes das séries A, B e C, tanto que, em temporadas anteriores, alguns deles abandonaram a competição ainda em andamento por falta de verba. Agora, com a emergência da Covid-19, a situação deixou os dirigentes ainda mais preocupados.
A retomada da Série D ainda é discutida entre a Liga Nacional de Amadores (LND), organizadora da competição, e a Federação Italiana de Futebol (Figc). No entanto a volta da liga é cercada de incertezas, tanto que o comitê regional da Lombardia pediu nesta quarta-feira (29) a suspensão dos torneios amadores, incluindo a Promozione (quinta divisão) e a Eccellenza (sexta divisão).
Massimiliano Calzolari, diretor esportivo do clube Mezzolara, da Emilia-Romagna, afirmou, em entrevista à ANSA, que o coronavírus causará um “impacto muito forte” nas economias dos clubes. Além disso, o dirigente declarou ser “impossível” a retomada da Série D.
“É evidente que a pandemia terá um impacto muito forte, ainda mais para clubes como o nosso. A grave crise econômica tornará os recursos muito menores e, portanto, todo o mundo do futebol sofrerá uma forte consequência. Como se pode pensar em jogar futebol em curto prazo? Eu acho que é impossível. O certo é encerrar a temporada. Primeiramente vem a saúde de cada um de nós e de nossos entes queridos”, disse Calzolari.
O dirigente do Mezzolara ainda pediu para a LND “assumir a força e a responsabilidade de pedir ajuda e incentivos econômicos para a comunidade”.
Já para Raffaele Ferrara, diretor esportivo da Caronnese, da Lombardia, os times da Série D precisarão “revisar o orçamento econômico”. Além disso, o cartola afirmou que uma das medidas para salvar os clubes seria reduzir o número de equipes no torneio.
“Certamente todos os clubes da Série D terão de revisar seu orçamento econômico. Como porcentagem, variará de 30% a 40%. Na minha opinião, o número de equipes da Série D poderia diminuir, porque é uma categoria próspera em patrocínios que, dada a crise econômica, serão reduzidos. Teremos de trabalhar com jovens jogadores para reduzir os custos”, disse Ferrara à ANSA.
O dirigente acrescentou que a retomada do campeonato deveria acontecer somente se uma “solução definitiva” for encontrada para o coronavírus, algo, em sua visão, “bastante difícil”.
Brasileiro na Série D – O técnico gaúcho Rômulo Togni, do Mezzolara, é um dos diversos brasileiros na Série D do Campeonato Italiano. O ex-jogador do Pescara e da Spal declarou que não há “condições psicológicas” para reiniciar a temporada. “Depois de 60 dias trancado em casa, não vejo a hora de voltar ao trabalho, mas também precisamos respeitar o momento, então acredito que não há mais condições psicológicas para continuar essa temporada. Teríamos de jogar 10 partidas em um mês, não é uma coisa sensata. Mas estamos prontos para tudo, se precisar recomeçar, vamos encarar sem problemas”, disse Togni à ANSA.
Além disso, o treinador acredita que muitos clubes não vão se inscrever para a próxima edição da Série D, em uma crise que também pode respingar na terceira divisão. “Acredito que a Série C vai sofrer bastante também, porque são duas categorias que vivem de patrocinio de empresas da região onde têm suas sedes, empresas que nem sabem se conseguirão continuar a manter suas atividades. O vírus desequilibrou não só o sistema sanitário, mas, sobretudo, o econômico, e as Séries C e D pagarão um preço caro por isso. Espero que a federação tenha já um plano para ajudar essas duas categorias”, comentou Togni.
Antes da paralisação, o Mezzolara lutava no alto da tabela e sonhava com um possível acesso para a Série C. Mas a boa fase da equipe foi bruscamente freada pelo coronavírus. “Estávamos fazendo um campeonato muito bom e empolgante, em um clube onde a ideia inicial era evitar o rebaixamento. Estávamos a cinco pontos do playoff, havia uma positividade muito grande no ambiente. A chegada do vírus deixou a gente com ‘água na boca’ para ver até onde poderíamos chegar. Mas acontece, o negócio é aceitar, tentar ajudar todo mundo e se preparar para o que está por vir. Acredito que seja também um momento de reflexão”, finalizou o brasileiro. (ANSA)