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Coronavírus: ameaça e oportunidade para populistas

SÃO PAULO, 25 MAR (ANSA) – Por Lucas Rizzi – A pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), que já contaminou mais de 450 mil pessoas em todo o mundo e deixou um saldo de mais de 20 mil vítimas, também colocou em dificuldade governos populistas que, em meio a um problema complexo e de difíceis soluções, encontram-se diante de suas maiores crises.   

É o caso específico de dois líderes que vão na contramão do mundo e das autoridades sanitárias ao defender com ênfase e em pronunciamentos em rede nacional o fim das medidas de isolamento contra a pandemia: Donald Trump e Jair Bolsonaro – Boris Johnson também ameaçara adotar uma postura mais branda, porém já recuou.   

Segundo o coordenador do MBA em relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, o novo coronavírus, por ser um desafio “bastante técnico” e que requer apoio de especialistas, “coloca de maneira muito evidente a fragilidade de governos populistas no poder ao redor do mundo”.   

“Tanto no Brasil quanto nos EUA isso tem um potencial de enfraquecer de maneira inédita esses dois governos. Tanto Trump quanto Bolsonaro encaram suas maiores crises até agora”, diz o professor. Apesar de todos os alertas de que a pandemia pode durar vários meses, os dois presidentes defendem o fim das medidas de confinamento em seus países, tomadas sempre pelas administrações estaduais, à revelia do governo nacional.   

Além disso, Bolsonaro tem seguido a reboque de Trump em seus pronunciamentos sobre a pandemia: assim como o presidente americano, primeiro tentou minimizar, depois anunciou com pompa e circunstância que a cloroquina, remédio usado contra malária e lúpus, poderia ser a cura contra o coronavírus e agora adota o discurso de priorizar a economia.   

Nesse meio-tempo, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro, ainda comprou uma briga com a China ao culpá-la pela pandemia, na mesma época em que Trump apostava no termo “vírus chinês” para dar nacionalidade a um micro-organismo que já matou mais de 20 mil pessoas no mundo todo.   

“Uma coisa interessante é que eles produzem crises que depois podem resolver; iniciar uma briga com a China, depois resolver, falar mal da Argentina, depois resolver. Mas esse problema não pode ser controlado dessa maneira. Essa estratégia de criar espetáculo não funciona e mostra a baixíssima capacidade desses governos”, diz Stuenkel.   

Segundo o especialista, governos populistas costumam propor soluções “mágicas”, tática que não funciona em meio a uma pandemia na qual a estratégia tem sido a de contenção de danos.   

“Todas as economias vão sofrer, e todas as decisões têm custos, envolve abrir mão de coisas, não tem solução mágica. A essência do apelo dos populistas é que seu eleitor acredita que não precisa abrir mão de nada, são sempre os outros”, acrescenta.   

Desde a semana passada, Bolsonaro tem sido alvo de panelaços nas principais cidades do país, manifestação que voltou a se repetir na noite desta terça-feira (24), quando o presidente foi à TV para dizer que as pessoas deveriam voltar às ruas para evitar uma pane na economia.   

“Há um risco de o apoio [aos populistas] desinflar rapidamente.   

As expectativas criadas pelos próprios governos populistas se mostram inalcançáveis”, afirma Stuenkel Oportunidade – Ao mesmo tempo em que representa uma ameaça, a pandemia de coronavírus também abre uma janela de oportunidades para populistas ansiosos por uma deriva autoritária.   

Em Israel, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, já denunciado por corrupção, reduziu as atividades do Parlamento e da Justiça e determinou o rastreamento de cidadãos pelos celulares. Na Hungria, o premiê Viktor Orbán chegou a propor um estado de emergência sem prazo definido, o que lhe permitiria governar por decreto.   

A estratégia é usar a gravidade da pandemia para justificar medidas autoritárias. “A pandemia tende a produzir uma demanda por maior centralização do poder para se tomar decisões de maneira eficaz. Isso pode ser usado para atropelar processos democráticos”, alerta Stuenkel. (ANSA)