Medicina & Bem-estar

Coração: uma ousadia brasileira

Há cinquenta anos, o cirurgião Euryclides Zerbini realizava o primeiro transplante cardíaco do País. Naquela madrugada memorável, o médico e seu time elevaram a cardiologia nacional ao primeiro mundo da medicina mundial

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HISTÓRIA Dr. Zerbini, que formou uma escola de novos cirurgiões: pioneirismo (Crédito: Divulgação)

“Euclydes, você é um m…” O palavrão não combinava com o estilo cordato do professor Euryclides de Jesus Zerbini – caçula de seis irmãos com nomes iniciados por Eu, a indicar a paixão do pai, o imigrante italiano Eugênio, pela cultura grega. Mas, 50 anos depois, o Dr. Euclydes Marques – o nome com a mesma fonética é mera coincidência – relembra a reprimenda chula de seu chefe, num misto de ironia e raiva de si mesmo, ao chegar ao Hospital das Clínicas naquela manhã do dia 4 de dezembro de 1967.

A notícia, sem dúvida, surpreendeu e frustrou todas as equipe dedicadas naquele momento à viabilização do primeiro transplante cardíaco – como o fabuloso time de Zerbini no Hospital das Clínicas de São Paulo, responsável, em primeira mão, pela maioria dos grandes avanços da cirurgia cardíaca brasileira. O africano em questão era Christiaan Barnard, um cirurgião da Cidade do Cabo, África do Sul, que os medalhões da especialidade mundial conheciam de relance de congressos internacionais– não por qualquer destaque na área. Pela lógica, o pioneiro dos transplantes deveria ter sido o americano Norman Shumway, que primeiro protocolara a técnica. Numa entrevista 20 anos mais tarde, Barnard recordaria seu próprio espanto com a fama global súbita: “Quando deixei o hospital Groote-Schuur, na manhã de 4 de dezembro, não havia um único jornalista. Só duas horas depois começaram a me procurar. Não foi fácil passar do anonimato à celebridade de um dia para outro”. Mas por que ele? “Não tenho uma razão específica, talvez tenha sido uma soma de circunstâncias. Tínhamos paciente, doador e vontade de fazer. Chegamos à frente dos americanos porque eles tinham medo do litígio ético e esperaram demais”.

Ok, mas por que a bronca de Zerbini no jovem e intrépido Dr. Euclydes? Aí entra a ironia, também rara em Zerbini, um homem que virava máquina quando queria alguma coisa e que tinha como lema o mantra “Nada resiste ao trabalho”. Todos, Zerbini incluído, sabiam que, se dependesse da “petulância” do Dr. Euclydes, encarregado de aprimorar a técnica do transplante em cães, ao lado do médico-residente Noedir Stolf, o transplante pioneiro teria sido feito no Hospital das Clínicas – e chegamos perto disso. A estreia em humanos, já viável tecnicamente, foi sendo adiada por dilemas éticos não resolvidos e pela resistência da ala mais conservadora da equipe. Na verdade, o transplante cardíaco não era, na época, uma terapia idealizada para salvar um doente – como um remédio novo. Era uma meta a ser alcançada, um passo a mais no avanço permanente da cirurgia cardíaca e no arrojo do espírito humano. Em tese, todas as principais equipes do mundo queriam saltar à frente – mas o coração dos médicos palpitava de dúvidas na hora de decidir fazer primeiro.O atrevimento de Barnard, naquele 3 de dezembro, mudou radicalmente esse cenário de protelamento estratégico. Tal como as demais escuderias de cirurgia cardíaca dos grandes centros, Zerbini e a cúpula do HC decidiram que era preciso correr atrás do tempo perdido. Como se faz isso no caso de um transplante? Encontrando, o quanto antes, um paciente e seu doador perfeito. Mas só cinco meses e 23 dias depois de o comerciante lituano LoisWashkansky, 55, receber o coração da jovem Denise Darvall, 18, no hospital Grote-Schuur, em Capetown, o mato-grossense João Ferreira da Cunha, o João Boiadeiro, recebia o órgão do alagoano Luís Fernando de Barros– atropelado em São Paulo por um fusca azul, com perda quase total de massa encefálica.O coração, músculo inquebrantável, resiste até ao maior dos traumas – daí a mágica do transplante. Naquela madrugada, o Brasil se tornava o sétimo país a transplantar um coração. E, de novo, podia ter sido talvez o segundo ou o terceiro (ambos norte-americanos). A demora, nesses quase seis meses desde a ousadia de Barnard, além de filigranas técnicas, se devia a um paradoxo: para não dar margem a comentários sobre a escolha precipitada do doador, os plantonistas do PS dedicavam a pacientes terminais um cuidado acima do protocolo. E, ironicamente, o anúncio do transplante iminente reduziu a clientela do PS. Até a infortunística foi contrariada – diminuíram os atropelamentos e os acidentes na região do HC.

Para Zerbini, uma noite divertida

Mas João e Luís tinham sido feitos um para o outro. O décimo-sétimo transplante do mundo foi concluído na manhã do dia 26 de maio, um domingo. Enquanto trocava de roupa, depois da eletrizante insônia noturna, Zerbini parecia descansado. E, segundo os assistentes, teria declarado, com sua característica voz em falsete:

– Nunca me diverti tanto.

Horas depois, enquanto a imprensa invadia o complexo do HC, o governador Abreu Sodré veio saudar os novos heróis nacionais – e garantir que uma antiga reivindicação de Zerbini seria atendida: a criação do Instituto do Coração. Os 1.270 transplantes de coração realizados no InCor até o fim de 2017 comprovam que, desta vez, não foi uma mera promessa de político. João Boiadeiro seria a pedra fundamental do Instituto do Coração.

Depois do fracasso, um novo coração

Cinquenta anos depois da noite mágica, o transplante ainda é uma terapia vital para diversas modalidades de insuficiência cardíaca terminal – aquela na qual o paciente, ligado a tubos e máquinas, não sairá vivo do hospital sem um novo coração. Mas a primeira fase dessa terapia radical, que pode ser rotulada como Era A.C (Antes da Ciclosporina), não fugiu ao velho clichê que atenua as frustrações científicas: a cirurgia foi um sucesso, mas o paciente morreu. João resistiu 28 dias até seu organismo rechaçar o segundo coração – em seus últimos dias, os cirurgiões Miguel Barbero e Sergio Almeida de Oliveira, linha de frente da equipe de Zerbini,ambos na ativa até hoje, se dedicaram dia e noite à tentativa de “rejeitar a rejeição”. Em vão. O segundo transplantado da equipe de Zerbini, o mineiro Ugo Orlandi, renovou as esperanças: vivia há 409 dias com o coração do promotor Aggeu Lopes, que se matara com um tiro na cabeça, quando acabou vencido tardiamente pela rejeição. O terceiro, o funcionário da Light Clarismundo Praça, morreria de infecção no 83º dia – e, enquanto esteve no HC, causou problemas herdados de seu coração antigo: tinha duas mulheres e era preciso escalonar o horário de visitas para evitar o stress. O fato é que a mais glamourosa e pirotécnica modalidade cirúrgica da história continha em si o germe da falência momentânea. No final dos anos 60, todos os centros cardiológicos do mundo foram desistindo de transplantar novos pacientes – ou reduzindo drasticamente o número de enxertos. A técnica estava dominada; os caprichos das defesas biológicas contra corpos estranhos, não. Os corticoides, drogas imudepressoras até então disponíveis, não davam conta da reação do organismo contra aquele músculo tonitruante que bate 24 horas por dia, até 80 vezes por minuto.

A segunda era dos transplantes é a D.C – depois da ciclosporina, substância imunodepressora isolada de fungos, em 1972, por um cientista suíço. No fim daquela década, ela começou a ser incorporada aos transplantes, dando-lhe um novo fôlego. No dia 2 de junho de 1984, o Brasil estreava na era D.C – e, curiosamente, não através do Instituto do Coração, já então o maior centro cardiológico do país, mas pelas mãos do gaúcho Ivo Nesralla. O professor Adib Jatene, sucessor da cadeira de Zerbini, jubilado em 1982 aos 70 anos, assinou pelo InCor o primeiro transplante da segunda fase, em março de 1985. Mas Zerbini, que continuava ativo no centro cirúrgico da Beneficência Portuguesa, retomou também o fluxo da história em junho desse ano, instalando um coração novo no tórax do caminhoneiro Manuel Amorim da Silva – com o pioneirismo que, aos 73 anos, era ainda sua marca registrada: foi o primeiro paciente com Mal de Chagas a ser transplantado. Os transplantes dispararam – com aprimoramentos técnicos e de gestão organizacional. O Dr. Noedir Stolf, o médico-residente que ajudava Euclydes Marques a treinar a cirurgia em cães, faria, nessa nova era, nada menos que 400 transplantes – a maior estatística individual do país. Diferenças entre os primeiros transplantes e os de hoje? Entre elas, explica Noedir, hoje Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP, a chamada técnica bicaval – em que o átrio direito, uma das câmaras do coração, é excluído do órgão para o transplante: “O coração fica mais anatômico sem esse tecido redundante e tem menos problemas de válvulas”, explica. Se Ugo Orlandi, com pouco menos de um ano, foi o campeão brasileiro em sobrevivência da primeira fase, o InCor tem hoje transplantados com mais de 20 anos de segunda vida – como o carioca Anizio Greves, transplantado em 1994.

Anizio: torcida pelo coração

Ex-jogador profissional de futebol, aos 44 anos Anizio Greves ainda batia sua bolinha quando o médico da empresa onde então trabalhava – a “51”, de Pirassununga – submeteu-o a um eletro e decretou: “Seu coração só tem 60% da capacidade”. Relembra ele: “O primeiro impacto foi chocante. Eu não sentia nada – e o médico disse que eu não podia mais bater minha bolinha”. Sofria de cardiomiopatia dilatada, doença progressiva e, no seu caso, incurável. Mas ele admite que, nesse período, foi irresponsável – não levou nada a sério porque…não sentia nada. Em um ano, a doença piorou muito. Passando mal, foi transferido para São Paulo e, já com a indicação de transplante, passou uns dois anos entre idas e vindas para controle – e um motorista da 51 de plantão para trazê-lo caso aparecesse o coração. Depois de três rebates falsos, no quarto chamado apareceu um coração que, no peito de Anizio, bateria um bolão. “Eu nunca soube quem doou”. Lembra-se de ter acordado na UTI do InCor, no limiar de sua segunda vida, assistindo à novela Tieta, coqueluche da época – e nem havia TV na UTI. Um médico um dia perguntou a Anizio se tinha ideia do que lhe aconteceu. Não, não tinha. “Você morreu, literalmente. Esta é sua segunda vida”.

Vinte quatro anos depois do delírio de Tieta, a novela real tem o mesmo enredo de antes do transplante: “Não sinto nada”. A diferença, agora, é que o coração de Anizio, 72, é um craque em saúde.

O transplante cinquentão

Nesses 50 anos, muitas novas técnicas, como os dispositivos metálicos que mantêm coronárias abertas e saudáveis por anos, além de medicamentos mais eficientes, revolucionaram a cardiologia, reduzindo os casos transplantáveis. Mas a troca de corações ainda salva – e fascina. Se Zerbininunca se divertiu tanto no primeiro, depois dos 1000 transplantes do InCor a sensação parece a mesma. “Acabei de fazer um”, diz a IstoÉ Fabio Gaioto, um dos cirurgiões do Núcleo de Transplantes do InCor. A estrela do ato era um coração que veio de Joinville até o aeroporto de Congonhas, e de lá até o heliponto do HC, nas mãos de uma equipe do InCor. Tudo bem azeitado. Dentro da maletinha, um coração parado, mas vivo. “Eu só abro o receptor quando o coração aterrissa no heliponto”, informa Gaioto. E prossegue: “Não há quem não fique tocado quando o coração volta a bater no peito do receptor. É uma cirurgia bonita, que mexe com o emocional”. Esse também é o sentimento de Fábio Jatene, vice-presidente do InCor. “Todo cirurgião gosta. É uma delícia”. Segundo ele, é uma cirurgia de média complexidade, mas com momentos críticos que nenhuma outra intervenção vivencia. A sincronização dos tempos de retirada e implante do órgão, casando doador e receptor, frequentemente demanda viagens de avião e uma corrida contra o relógio – entre retirar, voar e chegar ao InCor não podem transcorrer mais de quatro horas, o que limita geograficamente os limites desse casamento. O estudo de compatibilidade passa hoje por uma avaliação imunológica refinada. Por isso, o transplante ainda é uma grife da cirurgia cardíaca, porque exige dos centros especializados, além do domínio completo da técnica, um senso organizacional perfeito. Se nos primeiros tempos, o gelo era o conservante do novo coração durante essa viagem entre os dois polos, hoje soluções coronarianas compostas preservam o órgão com mais eficiência.

NOTÍCIA A equipe na concorrida entrevista coletiva após a cirurgia: orgulho nacional (Crédito:Estadão)

Núcleo de eficiência


São Paulo, onde tudo começou, tem oito centros onde o transplante é uma rotina – mas o InCor, berço da técnica, hoje sob a presidência do cardiologista Roberto Kalil Filho, desenvolveu um novo modelo de gestão para sua menina dos olhos. O Núcleo de Transplantes foi criado há cinco anos para reunir, num mesmo processo, todas as equipes cirúrgicas, clínicas e multiprofissionais de transplantes de coração adulto, infantil e pulmão. A dinâmica propiciada pelo Núcleo, agregada à notável eficiência do Sistema Nacional de Transplantes, que organiza filas com precisão suíça, detectando a demanda mais viável para as doações em potencial,e ao decreto de Temer colocando um avião à permanente disposição do transporte de órgãos, permitiu aumentar o número de cirurgias, reduzir a mortalidade de pacientesna espera e no pós operatório. O resultado, em números, segundo Kalil: a mortalidade caiu de 30% para 15% e 12%, respectivamente. E os 32 transplantes realizados em 2012, último ano pré-núcleo, saltaram para 69 em 2017, entre adultos e crianças. Nos primeiros quatro meses de 2018, já foram 20. Na fila de espera de um coração, hoje, 65 pacientes.

Mas, é claro, ainda há mais demanda que oferta. O InCor tinha, semana passada, sete pacientes terminais internados à espera pela chegada de um coração. É provável que um ou dois não resistam à chegada de um coração compatível. Essa é a média, num país em que a cultura da não-doação ainda mata. Nesse caso, a frustração dos médicos é enorme: da dupla de pacientes condenados à morte envolvidos na dinâmica do transplante, há sempre uma terceira vida em potencial.

Celso Arnaldo Araujo é autor do livro “Dr. Zerbini – O Operário do Coração” e duas vezes vencedor do Prêmio Esso de Informação Científica.