Brasil

Convertidos na marra

Para ser ministro de Jair Bolsonaro é indispensável abandonar a razão, politizar questões técnicas e defender ideias negacionistas, ultrarreligiosas, messiânicas ou simplesmente absurdas, alinhadas aos desvarios do presidente

Crédito: Ilustração: Nilson cardoso

Nenhum funcionário de perfil técnico, que insista em usar a lógica ou a ciência, sobrevive ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Para ser seu ministro é preciso abandonar a razão, desvalorizar o pensamento científico e cometer erros crassos. É o caso do ministro da Saúde, o médico Marcelo Queiroga, que insiste em lançar suspiros negacionistas em relação à vacina Coronavac, ao passaporte Covid e ao próprio uso de máscaras. O titular da Economia, Paulo Guedes, também jogou no lixo sua cartilha neoliberal da Escola de Chicago, que já não era lá grande coisa, para se alinhar de maneira vergonhosa com as idéias populistas e contraproducentes do presidente.

O próprio ministro da Infraestrutura, Tarcisio de Freitas, da ala militar do governo, que está sendo processado por improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal (MPF) por ter participado da inauguração de uma obra em Sergipe sem máscara, revela-se um sujeito ultrarreligioso que faz orações antes dos eventos no Ministério e considera Bolsonaro um ser superior. Como se vê, para seguir no primeiro escalão do governo é preciso adotar novos princípios e vender a alma.

Queiroga, por exemplo, encasquetou com o passaporte Covid, que começa a ser exigido em São Paulo e também será adotado no Rio de Janeiro para as pessoas comprovarem a vacinação e poderem frequentar espaços públicos. Para o ministro, a medida é inútil, embora só afete realmente quem não quer se vacinar, e Queiroga está em permanente confronto com ela, em um claro esforço para se alinhar a Bolsonaro e relaxar no controle da doença. “Já falei diversas vezes: concordo inteiramente com a fala do presidente da República. São passaportes inúteis”, declarou. Outra objeção permanente do ministro é em relação à Coronavac, vacina chinesa produzida no Instituto Butantan, de São Paulo. Diante da rivalidade política entre Bolsonaro e o governador paulista João Doria, Queiroga, sempre que tem oportunidade, diminui a importância do Coronavac e elogia outros imunizantes, como o da Pfizer e da AstraZeneca. Por incrível que pareça, o ministro também trata de esvaziar a vontade coletiva de proteção e questiona o uso de máscaras.

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, promove sessões de reza entre os servidores, não usa máscara e está de olho na disputa pelo governo de São Paulo no ano que vem

Tarcisio de Freitas, que até há pouco tempo parecia um sujeito racional, revelou sua verdadeira face na Conferência Política Conservadora (CPAC), realizada sábado, 4, em Brasília. Sem qualquer constrangimento, o ministro da Infraestrutura declarou que Bolsonaro é um sujeito iluminado, que recebeu um toque divino. Para o ministro da Infraestrutura, o atual governo chegou para se impor em um cenário de “degradação moral e valores cristãos”, que ele percebia até 2019, ano da posse do chefe. Segundo ele, “dentro desse cenário de desesperança aparece uma aliança de liberais e conservadores que elegeu Jair Bolsonaro”. E foi mais longe, dizendo que o presidente é “sem dúvida nenhuma um escolhido”. “Se não fosse, não teria sobrevivido ao atentado. E se ele escapou por um milagre, ele tinha uma obra a fazer. Deus tocou aquele homem. Ninguém suportaria a pressão que ele suporta se ele não fosse um escolhido. Não conheci na minha vida alguém tão corajoso”, afirmou em tom de desvario.

O caso de Paulo Guedes também é chocante. Não que se esperasse algum feito notável do ministro da Economia, mas seu desempenho na pasta tem sido pífio. Entre os seus desatinos está negar o descontrole da inflação, fruto de sua própria incapacidade de combatê-la, e a tentativa de dar calote no pagamento de precatórios da União, dívidas reconhecidas pela Justiça, que totalizam R$ 89 bilhões, para injetar dinheiro na campanha de 2022. Para Guedes, a inflação, um problema imediato, é só um desafio para o ano que vem. O que se vê é um ministro aturdido, que fraqueja no projeto de austeridade nas contas públicas.

Um dos motivos que leva a essa conversão destrambelhada de ministros é a vontade de contribuir para o projeto autoritário do presidente. Mas há também planos políticos pessoais. Guedes não tem intenção de se candidatar, mas Queiroga e Freitas irão disputar algum cargo. Queiroga pode sair candidato ao governo da Paraíba ou ao Senado e Freitas pretende disputar o governo de São Paulo. Não por acaso, ele estava ao lado do presidente na manifestação de Sete de Setembro. Foi, inclusive, multado por dispensar o uso de máscara.