Edição nº2501 17.11 Ver edições anteriores

Contando palitinhos

Quando era criança, na escola, havia uma brincadeira imposta a todos os novos alunos.
Coisa de veterano-mirim aplicando trotes em calouro-infantil.
A sociedade só classificaria aquela atitude como bullying trinta anos depois.
Humilhar crianças no pátio da escola não chamava a atenção de ninguém.
Então estamos lá, no primeiro dia de aula, cercando o infeliz neófito aos gritos, como índios canibais prestes a devorá-lo.
O medo do calouro estampado nos olhos.
Um ou outro pescotapa no coitado, que era para assustar.
Para nós era apenas o ritual natural de aceitação pelo grupo.
Coisa de moleque de uma outra era.
Feitas as primeiras agressões, chegávamos ao ponto alto da festa.
O momento de contar palitinho.
A atividade consistia em medir o perímetro do pátio usando apenas um palito de sorvete.
Avançando um palito por vez, quantos palitos tem o pátio?
Dependendo da cara do pobre calouro, ainda inventávamos uma dificuldade extra qualquer.
Quatro para um.
Avança quatro, volta um.
A tarefa era hercúlea pois o pátio era enorme.
O menino ajoelhava ali e começava seu martírio.
Nunca vi um único calouro terminar a medição.
Surgiam uns mais humanos pedindo para liberarmos o garoto, coitado dele.
Nós veteranos ficávamos entediados antes da metade da tarefa cumprida e partíamos para o futebol, muito
mais divertido.
O rapaz ainda ficava por ali, de cócoras mais uma meia hora, até perceber que ninguém mais se importava com ele.
A Lava Jato, meu amigo, é nossa contagem de palitinho.
Nós somos os veteranos.
Moro é o calouro.
Começou com todo mundo gritando em volta dele.
Cada preso era um pequeno avanço.
Veio a fase dos pescotapas.
Gravações clandestinas, delações, valia tudo para matar nosso gosto por sangue.
Quanto mais contávamos palitinhos, maior era o pátio.
Aos poucos começaram a chegar os deixa-disso.
Não pode isso, não pode aquilo.
Os diretores da escola interviram.
Juiz de primeira instância não pode isso, STF pode aquilo.
Alguns de nós, desanimados, foram jogar futebol em outro canto.
Essa semana soltaram o José Dirceu.
Um golpe duro em nossa contagem de palitinhos patriótica.
Decisão do STF se acata.
Mesmo Dirceu contando com apenas três votos para ser solto: Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski.
Celso de Mello e Edson Fachin, relator da Lava Jato, votaram contra.
Gilmar Mendes desempatou e de quebra criticou a Lava Jato.
A alegação é que Dirceu só foi condenado em primeira instância.
Primeira instância é uma espécie de café-com-leite da Justiça, já que estamos lembrando das brincadeiras infantis.
Não vale muita coisa, mesmo Dirceu sendo comprovadamente um dos responsáveis por criar o esquema de corrupção na Petrobras, um dos maiores da história da humanidade.
Mesmo com uma condenação de 23 anos e outra de 11 anos de cana.
É a Justiça que temos.
Uma pena que seja esse o exemplo que nos dá a Corte Suprema.
José Dirceu segue os passos do goleiro Bruno e sai da prisão.
A diferença é que nunca encontraram a vítima do Bruno.
Já as do José Dirceu estão em qualquer esquina.

Nós somos os veteranos. Moro é o calouro. Começou com todo mundo gritando em volta dele. Cada preso era um pequeno avanço


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