Edição nº2504 08.12 Ver edições anteriores

Conspiração, a teoria

Imaginem um personagem que é obcecado por teorias da conspiração e que, no final das contas, se torna vítima de uma delas. É o que acontece no filme Teoria da conspiração (1997). Aqui no Brasil estamos vivendo uma situação igual. Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, recebeu a promessa de que os irmãos Batista, da JBS, dariam a ele a cabeça do presidente Michel Temer. Era o segundo ato de uma história maluca. Correndo o risco de perderam os benefícios que tinha obtido no âmbito da Operação Greenfield, os irmãos Batista foram docemente constrangidos a produzir uma bala de prata a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). O constrangimento incluía as instruções do que seria um bom acordo de delação.

Pouco antes, o procurador Marcelo Miller seduziu e foi seduzido por propostas de trabalho no setor privado. Capturado pelo radar da JBS, fechou com um escritório que prestaria serviços à empresa. Ainda como procurador, almoçou com seu cliente, negociou honorários e reuniu-se com seus novos colegas de trabalho. Tudo nas barbas de seu chefe, Rodrigo Janot. Para ampliar a conspiração, áudios foram vazados acidentalmente. Eram diálogos altamente comprometedores que jogavam sobre o processo um balde de lama. Quando se descobre o envolvimento do procurador Miller com o acordo fechado com a PGR pelos irmãos Batista, a PGR pede a prisão de Miller. Mas, estranhamente e contra as evidências, o Supremo Tribunal Federal (STF) não autoriza. Igualmente estranho, a PGR não recorre.

No meio da confusão, outro procurador é preso por 76 dias e, também estranhamente, não é interrogado. Por que não quiseram ouvir o procurador Angelo Goulart? É o mesmo procurador que foi, no meio do imbróglio, grampeado e advertido para sair do caminho de Janot. A conspiração prossegue com uma gravação não periciada e não autorizada de um presidente da República sendo usada como prova para uma investigação. No mínimo houve precipitação do ministro Edson Fachin, do STF. Aliás, precipitação é o que mais existe nesse caso.

Imaginem também que decorreram menos de três meses desde a ameaça de cancelamento dos benefícios obtidos pela JBS no âmbito da Operação Greenfield, no final de fevereiro, a gravação de Joesley Batista com o presidente no Palácio Jaburu, no início de março, e a homologação do acordo de delação pelo ministro Edson Fachin, em 10 de maio. Muito estranho, já que existem algumas propostas de delação que se arrastam há anos. O que justificaria que um acordo tão extravagante e abrangente pudesse ser fechado em tempo recorde? Seria a tal da conspiração ou apenas precipitação? O enredo montado para ser a bala de prata que derrubaria o presidente Temer e, ao mesmo tempo, livraria a cara dos irmãos Batista de todas as suas tramoias virou uma imensa confusão.

Rodrigo Janot transformou-se em um inspetor Clouseau e de investigador pode terminar sendo investigado. Afinal, ninguém está acima da lei. Nem mesmo a PGR e seus titulares.


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