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Com décadas de história, a profissão de aeromoça evoluiu, modernizou-se e ganhou outro nome: comissária de bordo. Contudo, com as exigências do trabalho, muitas mulheres ainda lutam para fugir do preconceito e do isolamento social de trabalhar nas alturas

Crédito: Keiny Andrade

SONHO A estudante Yara Santos veio do Piauí para fazer curso de comissária de bordo em São Paulo (Crédito: Keiny Andrade)

Se na década de 1960 algumas companhias aéreas faziam questão de colocar mulheres bonitas e com roupas curtas para atender aos seus passageiros, hoje as coisas são diferentes, mas poderiam ser melhores. Isso porque a carreira de comissária de bordo — antigamente conhecida como aeromoça — ainda exige, muitas vezes de forma velada, altura, magreza, maquiagem impecável e sapatos de salto. Apesar das incertezas no setor aéreo, um dos que mais sofreu com a pandemia, o trabalho a bordo de aviões comerciais mundo afora ainda exerce grande fascínio entre jovens que querem “viver viajando” e ainda adquirir independência financeira sem esperar o término de um curso universitário, por exemplo.

EXPERIÊNCIA A ex-aeromoça Ellen Schaphauser trabalhou na Emirates e visitou 70 países: nova carreira no mercado imobiliário (Crédito:Keiny Andrade)

Enquanto o nostálgico glamour do passado ficou para trás, já que raramente as companhias aéreas oferecem grandes refeições e os passageiros também abandonaram o terno e a gravata na hora da embarcar, muitos avanços aconteceram na aviação: a popularização dos serviços, que permitiu que mais pessoas andassem de avião, e a conquista de direitos trabalhistas pelas funcionárias. Longas horas de trabalho, noites passadas em hotéis e feriados longe da família e dos amigos são apenas algumas das dificuldades da profissão. Por outro lado, os salários nacionais, que dependem da quantidade de horas de voo, variam de R$ 4 mil a R$ 11 mil reais.

A questão financeira, além do estilo de vida fora do comum, é o que leva muitas mulheres a buscar a vida profissional na área. “Conheci mais de 70 países em pouco menos de três anos”, conta Ellen Schaphauser, paranaense que trabalhou como comissária da Emirates Airlines quando tinha apenas 21 anos. Hoje, aos 35, ela ocupa um dos cargos de diretoria em uma incorporadora imobiliária e diz que aprendeu muito nos anos em que morou em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Você tem contato com diferentes culturas e ganha seu próprio dinheiro. Foram os melhores anos da minha vida”, diz.

Ela conta que algumas regras do país foram bastante chocantes, como não poder comprar anticoncepcional sendo uma mulher solteira, mas que os benefícios foram sempre maiores do que as diferenças culturais. “Tem todo um fetiche com a profissão, a questão do uniforme, mas tirando algumas cantadas, nunca sofri assédio como muitas sofrem. Não sei se ainda é assim, mas quando trabalhei na empresa, não existia licença-maternidade. Quem engravidava estava fora”, diz. Ellen precisou desistir da vida como aeromoça por causa de problemas de saúde, mas relata que muitas amigas seguiram a carreira, geralmente se relacionando com pessoas que também trabalham dentro da empresa — uma saída comum para driblar a profissão.

GLAMOUR No passado recente, as aeromoças usavam roupas sensuais: as saias ficaram mais longas e discretas (Crédito:Divulgação)

Curso preparatório

A ex-comissária de bordo e hoje diretora de um curso preparatório para a carreira, Danielle Bittencourt, é um dos raros exemplos de harmonia no cargo. Ao trabalhar apenas no Brasil e na América do Sul, casou, teve uma filha e chegou até a cursar faculdade de Direito enquanto trabalhava. “É uma correria, mas não é impossível. Todos os seus horários precisam ser muito bem planejados”, conta. Nos cursos que ministra em São Paulo, ela ensina, além de etiqueta, primeiros socorros e também a como sobreviver no caso da queda de um avião no meio da selva.

Em “Anfitriãs do Céu: carreira, crise e desilusão a bordo da Varig”, livro recém-lançado pela editora Telha, a pesquisadora argentina Carolina Castellitti aborda a vida de dezesseis ex-comissárias de bordo da Varig, empresa que foi sinônimo de luxo dentro da aviação brasileira até ir à falência em meados dos anos 2000. “Percebi que essas mulheres não se identificavam como feministas, mas quando observamos suas trajetórias de vida, as atitudes eram de independência e ascensão social”, explica Carolina. As histórias de racismo, de mulheres sendo dispensadas de seletivas de emprego por causa de “uns quilinhos a mais”, fora o trauma do desmanche da Varig, são apenas um recorte, mas mostram o percurso de luta que muitas profissionais precisaram passar para que a profissão se transformasse no que é hoje.

Esse passado sombrio, porém, não assusta a estudante Yara Santos, de 21 anos, que atualmente faz um curso preparatório para ser comissária de bordo, em São Paulo. “Vim do Piauí só para isso. Foi um drama contar para a minha família que esse era o meu sonho. Tive que ir à psicóloga para lidar com essa mudança”, conta. O pai, ex-piloto, demorou a aceitar a decisão, mas após ver a vontade da filha de conquistar os céus, decidiu apoiar a causa.