Conheça a maior coleção de arte renascentista do mundo

Crédito: Reprodução

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“Supporta, cuore” (Aguenta, coração!). Repito essa frase todas as vezes antes de entrar na Galleria degli Uffizi, um palácio maravilhoso que é um dos mais antigos museus italianos, detentor da maior e mais importante coleção de arte renascentista do planeta.

A ideia do prédio surgiu em meados do século XVI, quando o duque Cosmo I de Médici decide chamar o famoso arquiteto Giorgio Vasari para preparar um projeto que reunisse todos os escritórios públicos de Firenze. Vasari fez um sensacional projeto em U, com três andares.

Para quem não conhece Vasari (1511-1574), vale a explicação. Ele foi pintor, arquiteto e biógrafo italiano, ganhando fama como o grande escritor dos artistas da Renascença italiana. Seus afrescos estão em tetos e paredes do Palácio Vecchio (Florença), no Palazzo dela Cancelleria (Roma), na Villa Giulia (hoje, Museo Nazionale Etrusco) e em uma infinidade de locais na Itália.

Em 1769, depois do fim da era dos Médici, Leopoldo de Lorena-Habsburgo instala novas obras, traz peças de várias regiões da Itália, ajuda na organização do acervo seguindo os critérios do  iluminismo e abre o local para visitas do público em geral.

Há alguns anos, a Galleria degli Uffizi decidiu se organizar melhor, com a venda prévia de ingressos e a oferta de aparelhos de áudio aos visitantes, fundamentais para ajudar no entendimento de seu acervo. Possui mais de 60 salas com obras dos século XIII ao XX, batizadas com nomes de diversos mestres do Renascimento como, por exemplo,  Leonardo da VinciRafaelMichelangeloTicianoAlbrecht DürerPeter Paul RubensSandro Botticelli. Certamente, cada um desses artistas merece uma coluna especial e os hiperlinks acima ajudam na visualização de suas obras.

Mas, hoje, o destaque será para a pintura “O Nascimento de Vênus” (Nascita di Venere), uma obra de arte maravilhosa e que mudou a referência de beleza da humanidade. Foi criada por Sandro Botticelli, apelido de Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, com o acréscimo da palavra ‘barrilzinho’ (Botticelli, em italiano). O conjunto de sua obra é espetacular: “A Primavera”, “Retrato de Dante Alighieri”, “O Inferno de Dante”, “A Tentação de Cristo”, “O Banquete de Casamento”, “A Coroação da Virgem”, “Santo Agostinho no Quarto”, “A Calúnia de Apeles”,  “A Adoração dos Magos”, “A Virgem com o Menino e São João Batista Criança” e “O Castigo dos Rebeldes” (afresco da Capela Sistina, instalado com demais desenhos de seu amigo Michelangelo, que ele adorava e descrevia sua arte como “divina”).

Talvez a musa da obra seja Simonetta Vespúcio (1453 – 1476), por quem ele estava apaixonado e pediu, mais tarde, para ser enterrado a seus pés, na Igreja de Ognissanti, em Florença. Ela era uma nobre italiana, prima distante do navegador Américo Vespúcio. Era casada com Marco Vespucci e amante de Juliano de Médici, irmão mais novo de Lourenço de Médici. Era a rainha do Renascimento e seu rosto foi eternizado em várias obras de Botticelli, memso tendo morrido com apenas 23 anos de idade de tuberculose.

Dizem que “O Nascimento de Vênus” foi encomendado por Lorenzo di Pierfrancesco de Médici para ser instalado na Villa Medicea di Castello, mas há dúvidas se realmente ele encomendou essa obra. Também há questionamentos sobre sua inspiração. Alguns historiadores defendem a inspiração veio de Antonio Canova, escultor do século XVIII e que gostava de registrar formas similares em suas estátuas de mármore. Outros comentam que não é nada disso: a base foi “Vênus de Medici“, uma escultura de mármore da coleção dos Médici e que Botticelli teve oportunidade de estudar.

Independente de toda essa especulação, “O Nascimento de Vênus” mostra a deusa clássica Vênus emergindo das águas em uma concha, sendo empurrada para a margem pelo vento oeste (Zéfiro), que simboliza paixões. Recebe de uma Deusa das Estações (conhecidas como Hora) um lindo manto bordado de flores. Mas as interpretações vão além disso. A obra talvez não recrie o nascimento de Vênus, mas sim a chegada da Deusa às costas da Ilha de Citera, exatamente como escreveu o poeta Angelo Poliziano. Vênus, nascida da espuma do mar, emerge de dentro das ondas sobre uma concha, como encarnação da beleza perfeita. As divindades do vento, Céfiro e Aura, a levam para a terra firme e segura, onde a Deusa da Primavera a espera para cobri-la com um manto florido.

A pintura foi um enorme escândalo para a época, dominada por produções artísticas baseadas em temas católicos. Para nossa sorte, escapou das fogueiras que destruíram milhares de obras pagãs. É uma obra-prima pela forma e por eternizar sua personagem, transformando-a em como símbolo de beleza e de sedução, além de uma das mulheres mais sedutoras da história da arte. Seu erotismo é enorme e sua postura é desavergonhada. Isso era algo impensável para a época, mas sempre inspirador para artistas de todas as fases, como Manet, Sarah Lucas e Tracey Emin.

Sua beleza e dimensões impressionam (172,5 cm de altura por 278,5 cm de largura). Tem detalhes impressionantes, dobras de tecidos, flores flutuantes e uma composição artística perfeita, que lotava de administradores as salas da Galleria degli Uffizi antes do COVID-19. A pintura chama a atenção também porque não segue um modelo perfeito: o pescoço é longo de mais e o ombro esquerdo não tem um ângulo anatômico. Talvez sua genialidade venha desses detalhes, que fizeram parte da licença artística de Botticelli.

A arte muda os rumos da humanidade, nossas referências e o entendimento do que é belo. Prova disso, é a repercussão que continua tendo, mesmo depois de centenas de anos da data que foi produzida. A pintura inspirou muitas produções cinematográficas como “A Excêntrica Família de Antônia” (1996), “As Aventuras do Barão Munchausen” (1988), com Uma Thurman no papel de Vênus, e “007 Contra O Satânico Dr. No” (1962), com Ursula Andress saindo do mar em sua plenitude. Até Homer Simposon transformou um colega de trabalho em sua Vênus, no desenho “A Última Tentação de Homer”.

Outras manifestações artísticas também foram inspiradas na obra de Botticelli. Está no terceiro álbum de Lady Gaga, batizado de “ArtPop” (2012-2013) e feito com colaboração de Jeff Koons, um dos artistas mais valorizados da atualidade. Na imagem, a cantora aparece como Vênus, sentada, nua e cobrindo os seios com a mãos. A cantora Azealia Banks, que fez uma releitura da pintura,  acusou Lady Gaga de roubar seu visual de sereia baseado em Botticelli.

Faça como a artista brasileira Renata Lauer, que indica essa pintura como a sua preferida. Escreva para sugerir um tema ou para contar algo sobre seu artista preferido. Adoro boas histórias! (Instagram Keka Consiglio).

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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