Conheça a folha de papel que gerou uma das mais famosas Artes de Performance do mundo

Crédito: Tate Modern/Divulgação

(Crédito: Tate Modern/Divulgação)

Você não sabe nada de arte? Não se preocupe. Ainda há tempo para preparar seus olhos e seu coração para novas emoções. Inicie o quanto antes a viagem (acesse a coluna que escrevi: Quer Aprender a Apreciar Arte) e note que a arte funciona como estações de metrô, em uma grande rede de conexões, referências e influências.

Mas arte é também muitas vezes como rock’n’roll: moderna, divertida e barulhenta. De certa medida, tenta criar ordem a partir do caos, ou mudar por completo o status quo. Nesse contexto, há quem fique revoltado com manifestações diferentes das que estamos tradicionalmente acostumados. E isso é fascinante!

Assim como ver como a Arte de Performance causa muitas sensações. No começo, não sabemos o que pensar. Emitimos críticas imediatas e, depois, com calma, revemos a impressão que temos.

A Tate Modern é um bom exemplo desse movimento pelo novo e de como o museu do século XXI está evoluindo para um local de encontro, entrando em um novo cenário contemporâneo. Iniciou há alguns anos um movimento para incentivar a Arte de Performance e para trazer novas manifestações e tornar seu espaço um local público.

Interessante ver como a Tate encara performance como uma das muitas estratégias abertas aos artistas modernos e contemporâneos, em vez de uma categoria de arte separada ou isolada. Vale a pena navegar pelas páginas da Tate e ver “Into the Space of Art” para treinar seu olhar e ver se consegue ter uma nova compreensão do tema.

Um dos maiores ícones de Arte de Performance é a “Good Feelings in Good Times” (2007). Trata-se de uma obra incomum, criada a partir de uma folha de papel e que instrui as pessoas a criarem uma fila. Isso mesmo! O artista conceitual Roman Ondák (nascido em 1966) é simples e direto como o diz o seu verbete na Wikipedia, que o descreve em apenas uma linha. Depois de 40 minutos, a fila acaba e uma nova pode ser formada. Risos!

O papel instrui que a “fila artificial” deve ter no mínimo sete e no máximo doze pessoas em locais fechados, ou no máximo quinze pessoas em espaços externos. Os participantes da obra podem ser visitantes do museu ou atores, sem restrições de idade ou sexo. As pessoas devem agir de forma natural, vestir roupas comuns e simular como se estivessem em espera, como na vida real. A Tate pode encenar a fila quantas vezes desejar.

De acordo com um cronograma prévio de horários, a fila pode acontecer em lugares estranhos ou insignificantes, como em frente a uma parede, uma porta trancada ou perto de uma saída de incêndio. Todos os participantes devem se comportar de maneira discreta e o mais natural possível.

Genial ver que o romeno não só vendeu a instalação para a Tate, como antes disso tinha apresentado a mesma obra em Colônia (Alemanha). O artista argumentou que a fila da Tate de Londres seria diferente, pois, embora fosse uma atividade social comum, também é histórica, cultural e, em última análise, comportamental, conforme sua localidade.

Indicou que sua obra explorava a flutuação do tempo, sentimentos, desejos e a decisão de cada um estar – ou não –em uma fila. Para ele, a ideia de tempo muda: tempo pessoal (tempo real) e tempo social (tempo gasto na fila), tempo passado (memórias na fila), tempo presente (fila real), tempo da experiência vivida (estar na fila) e tempo da experiência imaginada (imaginar os efeitos das filas).

É uma ideia divertida, mas isso é arte? Os críticos, a imprensa ou os 5 milhões de visitantes ao ano que a Tate recebe em suas instalações não tiveram coragem de criticar a obra porque talvez entendam que hoje as narrativas vão além das fronteiras tradicionais com o objetivo de atingir novos limites artísticos. Esse movimento deve ajudar a Arte de Performance a ganhar cada vez mais espaço para definitivamente se institucionalizar na sociedade.

A Tate, que já faz apresentações desde o final da década de 60, detectou o aumento desse anseio há alguns anos. Respondeu rapidamente criando um time de estudos para o tema e continua estudando como a arte irá caminhar nos próximos anos. Sua meta é estar sempre na vanguarda, também nessa área, provando que a arte contemporânea não é uma piada, mas algo que pode se tornar respeitado e reverenciado em todo o mundo.

A Tate Modern tem trabalhado para impressionar o público e influenciar a sociedade. Fez a controversa apresentação de Richard Long ao lado de Monet , misturou Henri Matisse com os desenhos de Marlene Dumas (To Show or not to Show).

O MoMA de Nova, o Centro Pompidou, junto com centenas de museus e galerias de arte também reagiram exposições até então inimagináveis, como uma grande apresentação de obras inacabadas de artistas famosos. Colocaram artistas para falarem, ao invés de deixarem os curadores à frente das narrativas das obras.

Sem dúvida, a mudança de paradigma será ainda maior após o Covid-19. Teremos um mundo mais aberto para a diversidade e para diferentes modelos de arte. O desafio para os próximos anos será descobrir quais serão as novas formas de expressão que irão impressionar e ganhar nossos suspiros no mundo da arte.

Escreva para sugerir um tema ou para contar algo sobre seu artista preferido. Adoro boas histórias! (Instagram Keka Consiglio).

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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