Comportamento

Confusão na Maçonaria

O Grande Oriente do Brasil (GOB), maior organização maçônica do País está em crise. Em pleno ano de eleição, seus dois principais líderes foram denunciados ao Supremo Tribunal Federal Maçônico e sofrem com a repercussão dos escândalos administrativos

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DENÚNCIA Acusado de irregularidades, Ademir Cândido deveria ter renunciado: conflitos internos (Crédito: Divulgação)

Envolta por mistérios há séculos, a maçonaria não é mais tão secreta assim. Seus segredos estão se revelando. A organização, fundada na Inglaterra e difundida na França, no século XVIII, para se espalhar sigilosamente pelo mundo e crescer como uma rede repleta de ramificações, está em crise. Recentemente, polêmicas envolvendo os líderes do Grande Oriente do Brasil (GOB), maior entidade maçônica do País e, provavelmente, da América Latina, chamaram atenção. A dúvida é simples: o que há de errado no reino dos maçons?

LIDERANÇA Múcio Bonifácio (de pé) comanda a organização até segunda ordem: eleições à vista (Crédito:Divulgação)

O grão-mestre, Múcio Bonifácio, e o grão-mestre geral adjunto, Ademir Cândido, foram alvos de denúncias do deputado federal do GOB Rodrigo dos Santos, que os acusa de tomar decisões à frente da organização sem poderes legais. Seja na esfera maçônica ou administrativo-financeira, portanto, podem sofrer penas cíveis, tributárias, criminais e administrativas. De acordo com Santos, em 31 de agosto de 2020, durante uma reunião da Assembleia Federal, os gestores protocolaram seus pedidos de renúncia dos cargos e tinham 48 horas para deixar os postos.

Porém, no mesmo dia, participaram de uma reunião interna e, incentivados a abdicar da decisão, alteraram o documento para manter suas funções. Como tinham protocolado o documento, a não renúncia violou condutas internas. Diante disso, Rodrigo solicitou a exclusão de ambos do GOB ao Supremo Tribunal Federal Maçônico (STFM). Em entrevista à ISTOÉ, uma fonte comentou que o Grande Oriente do Brasil está em processo eleitoral, o que explica o burburinho nos bastidores. A informação contraria as declarações de Arlindo Batista Chapetta, Secretário Nacional do Grande Oriente do Brasil. “Essa solicitação é uma questão irrelevante e não é como saiu na mídia. Nossa organização está tranquila”, diz. Múcio Bonifácio e Ademir Cândido não quiseram falar com a reportagem.

Criada no dia 18 de junho de 1822, a entidade é a segunda instituição privada mais antiga do País, só não mais que a Casa da Moeda, fundada em 1694. Ou seja, faz parte de nossa história. Baseada em ideais como progressismo, igualdade e democracia, formou personalidades como o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva, peça fundamental no movimento pela Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822. Além dele, lendas como Eusébio de Queiroz, Ministro da Justiça e autor da lei que reprimia o tráfico negreiro no País e Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, também eram maçons. “Nossa administração tem a mesma formação da República. A maçonaria não é secreta, é discreta”, reforça Chapetta.

TRADIÇÃO O vice-presidente Hamilton Mourão é membro
da maçonaria: sinal de prestígio (Crédito:Divulgação)

Teoria da conspiração

Para Lidice Meyer Ribeiro, doutora em Antropologia na Universidade Lusófona de Lisboa, a crise dos maçons não é atual. Ela relembra que em 2018, ano da posse de Múcio Bonifácio, por questões políticas dentro da organização, as eleições foram adiadas e posteriormente suspensas temporariamente por denúncias internas. Assim sendo, ela crê que as queixas do deputado Rodrigo dos Santos possam ter relação direta com interesses políticos dentro da entidade. “Acredito que esta seja apenas mais uma crise interna dentre muitas que o GOB já passou”, diz Lidice. “Existem muitas questões políticas. Isso mexeu com o brio de vários membros e alterou a organização”.

Para se ter uma ideia, dentro do GOB, Múcio Bonifácio tem a mesma relevância que Jair Bolsonaro na política brasileira. Exerce o cargo máximo. Ao todo, a instituição possui mais de 3400 lojas no País. São mais de 80 mil membros divididos pelos 27 estados brasileiros — comandados por um Grão Mestre regional, semelhante a um governador. Por mais que, legalmente, não esteja atrelada com a política, ela tem membros no governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão. Historicamente, as teorias da conspiração pregam que os maçons atuam em diferentes esferas sociais, sobretudo na política e, unidos, “ditam os rumos do mundo”.

Só entra na maçonaria quem é convidado e ainda precisa ser aprovado em várias assembleias. É por isso que, obviamente, quem faz parte refuta as teorias conspiratórias, mas quem viu a organização por dentro e se afastou, revela que ser maçon não é pra qualquer um. “A intenção deles é interessante, mas eles pensam muito em dinheiro”, conta um ex-maçon. “É uma hierarquia muito grande, as questões internas são bem complicadas. Não era o que imaginei”. Por enquanto, resta aguardar os desdobramentos das denúncias de Rodrigo dos Santos, isso se qualquer informação for divulgada. O mais provável é que a situação se resolva em segredo.