O Brasil registra aumento de conflitos agrários, mas uma queda no número de assassinatos no campo durante o primeiro semestre de 2026, de acordo com relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta quarta-feira, 2 de agosto. A entidade aponta que a intensificação da mercantilização e da financeirização da terra no país são as principais causas para a persistência da violência.
Os conflitos agrários no campo brasileiro subiram para 841 no primeiro semestre de 2026, contra 798 no mesmo período do ano anterior.
- Apesar do aumento nos conflitos, o número de assassinatos diminuiu drasticamente, de 27 em 2025 para 6 em 2026.
- A CPT alerta para a crescente mercantilização e financeirização da terra como vetores da violência e instabilidade fundiária.
Nos primeiros seis meses de 2026, a CPT contabilizou seis assassinatos no campo, uma redução significativa em comparação aos 27 registrados de janeiro a junho de 2025. Por outro lado, o número total de conflitos agrários cresceu de 798 para 841 no mesmo comparativo.
O Maranhão mantém a liderança como o estado com maior número de conflitos registrados, totalizando 156 casos no primeiro semestre de 2026. Em seguida, aparecem Pará (90), Bahia (85), Rondônia (63) e Amazonas (63).
Os dados atuais servirão como base para avaliar as tendências dos conflitos fundiários e serão incorporados ao relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, previsto para lançamento em 2027.
A coleta de informações da CPT é abrangente, utilizando fontes de seus próprios agentes, notícias da imprensa, divulgações de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.
“O campo brasileiro está distante do que chamamos de um lugar de paz, onde as pessoas não precisam sempre resistir para a permanência na terra”, afirmou Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, em entrevista à Agência Brasil.
Apesar da queda nos assassinatos, a CPT observa a continuidade dos massacres, situações onde mais de uma pessoa é morta, como uma característica da violência no campo. Para Cecília Gomes, a mercantilização e a financeirização da terra se acentuam, com a atuação de fundos de pensão e o interesse em terras raras, frequentemente localizadas em comunidades tradicionais e camponesas.
“Toda essa corrida pela terra e pelo que tem na terra acontece cada vez mais no território brasileiro, no sentido da financeirização da terra”, denunciou a coordenadora.
Quais são os tipos de conflitos mais frequentes?
Os conflitos registrados em 2026 são predominantemente por terra, somando 711 casos. Conflitos por água representam 100 ocorrências, e casos de trabalho escravo rural totalizam 30.
Os 711 conflitos por terra incluem violência e resistência envolvendo ocupações e acampamentos. Enquanto os atos de violência aumentaram de 584 para 663, as ações de resistência seguiram a tendência de queda dos últimos 10 anos, caindo de 66 para 48 casos.
O Maranhão (153) também concentra a maior parte dos conflitos por terra, seguido pela Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54). O Amazonas teve um aumento expressivo de 140% nesse tipo de ocorrência, passando de 37 para 52 casos em comparação com o mesmo período de 2025.
A contaminação por agrotóxicos se destacou como a forma de violência mais frequente nos conflitos por terra, com um aumento de 98 para 169 casos. Outras violências comuns incluem invasão aos territórios (de 96 para 109), desmatamento ilegal (de 67 para 107) e ameaça de despejo (de 63 para 70). A CPT atribui esses tipos de violência à expansão do agronegócio, com ênfase no estado do Maranhão.
Cecília Gomes alertou para a gravidade da violência por agrotóxicos, descrevendo-a como uma “arma química” que “não vai matar no momento inicial, mas vai matando o sujeito aos poucos”.
Conflitos pela água e trabalho escravo
Conflitos pela água foram identificados em 20 estados, apresentando uma expansão significativa de 47 para 100 registros em relação ao primeiro semestre de 2025. O Pará lidera com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10).
No Pará, a CPT destacou a luta dos povos indígenas contra a privatização dos rios e a ação de garimpeiros, além dos ribeirinhos contra as mineradoras. A comissão lembrou que a pressão indígena resultou na revogação do Decreto nº 12.600/2025, que incluía hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.
As ocorrências de trabalho escravo rural registraram queda no primeiro semestre de 2026, com 30 casos contra 101 no mesmo período de 2025. O número de trabalhadores resgatados também diminuiu de 842 para 355. Em 2023, o pico de resgates foi de 1.395 pessoas.
São Paulo se destacou nesse cenário, com os maiores números de trabalhadores resgatados (148) e de casos registrados (cinco). Em três dessas ocorrências paulistas, os resgates ocorreram em atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar.
Violência contra a pessoa e manifestações
Entre os seis assassinatos registrados até junho de 2026, inclui-se o massacre de três posseiras em Lábrea (AM), dois indígenas em Roraima e Mato Grosso do Sul, e um trabalhador rural sem-terra. As vítimas tinham idades entre 14 e 45 anos.
A CPT também informou que os números gerais de casos e de vítimas da violência aumentaram, passando de 418 para 588 e de 308 para 497, respectivamente. A contaminação por minérios foi a violência com maior incidência (195 casos), sem registros no primeiro semestre de 2025.
Todos os registros de contaminação por minérios ocorreram em Jacareacanga, no Pará, decorrentes do garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós e afetando a Terra Indígena Munduruku. Outras formas de violência em destaque são a contaminação por agrotóxicos (132 casos em 2026 contra 10 em 2025), a criminalização (51 contra 46) e os ferimentos (42 contra 26).
As principais vítimas da violência são povos indígenas, trabalhadores sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.
As manifestações, embora não integrem o cálculo dos conflitos, são uma importante forma de resistência e denúncia. No primeiro semestre de 2026, foram 284 manifestações, um aumento em relação às 253 de 2025. Incluem atos públicos, marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias e ocupações de prédios públicos.
As principais reivindicações são pela demarcação de terras indígenas, contra agrotóxicos, contra mineração, contra a privatização de águas e por melhores condições de trabalho. Cecília Gomes reiterou que a CPT atua não só na denúncia, mas também no auxílio às comunidades em suas lutas.
“Ela colabora e está junto das comunidades nesses enfrentamentos. A CPT não só documenta. Ela está lá auxiliando nas vivências com esses povos e comunidades na resistência”, disse Cecília. A entidade também busca influenciar a construção de políticas públicas para o campo, utilizando seus levantamentos para essa finalidade.