Artes Visuais

Comunicação pela raiz

Ao evocar o diálogo, exposição do artista ativista Ai Weiwei faz saudável contraponto ao ambiente de ódio que afoga a sociedade brasileira

Crédito: Ai Weiwei Studio

Retrato de Ai Weiwei em versão ex-voto (Crédito: Ai Weiwei Studio)

AI WEIWEI RAIZ / OCA – Parque Ibirapuera, SP / de 20/10 a 20/01/2019

O artista chinês Ai Weiwei é mundialmente conhecido por seu ativismo pelos direitos humanos e pela liberdade, além do uso inteligente das tecnologias de comunicação e das redes sociais. Há exatamente um ano, em outubro de 2017, quando iniciou um período de sete meses de residências artísticas no Brasil, Weiwei se juntou a protesto contra a censura à arte sob a marquise do Masp. Não deu entrevistas, mas usou sua imagem diante da câmera do celular de manifestantes para dar o seu depoimento: censura nunca mais. Um ano depois, quando a sociedade brasileira sucumbe à onda de ódio e violência, e o candidato que lidera as intenções de voto na corrida presidencial advoga pelo fim dos ativismos e da diversidade de ideias, a volta do artista chinês para inaugurar a exposição “Ai Weiwei Raiz”, na Oca, em São Paulo, é significativa e muito bem-vinda.

A mostra apresenta ao Brasil um artista que estruturou toda sua obra em torno da prática de monitorar o poder e investigar a corrupção policial e política em seu país de origem. Em 2009, devido à apuração da morte de 5.335 crianças no desabamento de escolas durante um terremoto e à denuncia em seu blog da corrupção na construção dessas escolas, Ai Weiwei levou uma surra na rua, sofreu dano cerebral e quase morreu. Em 2011, foi preso sem acusação formal e, ao sair, teve o passaporte confiscado por quatro anos. Vivendo desde 2015 em Berlim, com a mulher e o filho, o artista pesquisa hoje a crise migratória mundial. Human Flow (2017), seu filme sobre a busca de refugiados por segurança, abrigo e justiça, abriu a 41ª Mostra de Cinema de São Paulo. “Na Alemanha, esse assunto gerou uma enorme crise social. Vamos lá, a Alemanha é um estado muito poderoso, eles podem facilmente absorver essas pessoas”, diz Weiwei à Istoé. “Mas não se trata só de oferecer ajuda. A imigração beneficia a economia e a cultura alemã. A Alemanha definitivamente precisa ter mais diversidade, assim como os EUA. Eles construíram essa estrutura dura e monstruosa, e mudar isso é quase impossível. Mas a arte tem a liberdade e o direito de questionar e está na posição perfeita para fazer isso”.

A mostra “Ai Weiwei Raiz” traz a São Paulo (e a Belo Horizonte e Brasília, em 2019) uma série de obras consagradas. Entre elas, “Law of Journey” (2017), instalação inflável que flutua sobre o lago do Ibirapuera, sustentando refugiados com coletes salva-vidas. A obra ganhou uma versão em madeira talhada por artesãos de Juazeiro do Norte (CE), que colaboraram com o artista durante sua residência no Sul da Bahia. A experiência brasileira gerou cinco novas séries de trabalhos feitos com madeira, sementes, tecidos, couro e raízes de pequi-vinagreiro, árvore da Mata Atlântica baiana em risco de extinção.

Arte manual

De um artista engajado na luta contra a injustiça nos países aos quais viaja, talvez pudesse se esperar comentários mais diretamente implicados com as mazelas políticas e sociais brasileiras. Sobre isso, Weiwei responde: “Não gosto de nenhum tipo de envolvimento casual. Qualquer comentário deve ter muitas profundidades. O trabalho que fiz no Brasil relaciona-se com artesãos locais, que são elementos básicos e essenciais de qualquer sociedade. Esse é o posicionamento político que escolhi fazer, e não o comentário à situação política local”, esclarece.

Os trabalhos com artesanato brasileiro se relacionam com sua pesquisa sobre as tradições manuais chinesas que foram proibidas pela Revolução Cultural e ameaçadas de extinção pela soberania da produção industrial do país. Desta série, é apresentada no Brasil a instalação “Sunflower Seeds” (2010), composta por milhões de sementes de girassol de porcelana pintadas à mão por artesãos chineses. Outra conhecida obra que tece um comentário bombástico sobre a destruição da memória e da cultura tradicional é “Dropping a Han Dynasty Urn” (1995), fotoperformance em que o artista quebra uma urna de 2000 anos.

“A palavra-chave desta exposição é raiz”, diz o curador Marcello Dantas. “Há um poema do pai dele, Ai Qing, escrito em 1940, que fala da comunicação entre as árvores através de suas raízes. Ai Weiwei desvendou as raízes perdidas da China e agora ele vem para o Brasil e encontra uma maneira de cavar nossas raízes e fazer a comunicação entre os dois países pelo subsolo de nossas tradições culturais”.