Desde que retornou à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump equilibra a condução da política externa da Casa Branca entre o embate com nações de maior fluxo migratório para os EUA e movimentos arriscados por um projeto expansionista.
Para chegar aos dois objetivos, o republicano aposta na força internacional da própria nação e em uma dura política tarifária contra as demais — acumulando desafetos no percurso. Nesta encruzilhada, as respostas de México, Canadá e França aos arroubos do americano fortaleceram os chefes de Estado desses países interna e externamente. Neste texto, a IstoÉ explica como isso ocorreu.
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Fronteira a fronteira
Já no discurso de posse, em 20 de janeiro, o republicano elegeu o México como alvo. Prometeu enviar tropas e “declarar emergência nacional” na fronteira ao Sul para impedir “invasões” — cerca de cinco milhões de mexicanos vivem nos EUA sem autorização, conforme dados do Censo americano. A punição veio em forma de um anúncio de tarifas de 25% sobre produtos de origem mexicana.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, reagiu rapidamente. “Quando negociamos com outras nações, sempre o fazemos de cabeça erguida, nunca de cabeça baixa”, afirmou, antes de anunciar uma retaliação comercial. A Casa Branca suspendeu a tributação dos produtos mexicanos e Trump “baixou o tom” em relação à chefe de Estado vizinha. A resposta deu a Sheinbaum controle sobre uma narrativa de soberania e proteção dos interesses nacionais, com efeitos internos claros: sua aprovação popular chegou a 85%.
Coisa parecida ocorreu quanto ao Canadá, o vizinho de cima, a quem Trump responsabiliza pela entrada do opióide fentanil nos EUA e chama, pejorativamente, de “51º estado americano”. O governo impôs tarifas de 25% sobre produtos e 10% para a importação de energia canadense e não negou o uso de força militar para anexar a nação ao território americano.
Como Sheinbaum, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, respondeu. Afirmou não haver “a menor chance” de anexação, apelou às comunidades trabalhadoras dos dois países e anunciou tarifas de 25% sobre os produtos americanos, até que Trump recuasse na guerra comercial.
João Estevam dos Santos, professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi e pesquisador do Isape (Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia) explicou à IstoÉ que tanto o México quanto o Canadá têm interesse em manter relações comerciais saudáveis com os EUA, uma vez que assinalam grande integração econômica com a potência vizinha.
“A abordagem adotada pelos governos mexicano e canadense tem sido direcionada, até o momento, pelo duplo objetivo de encontrar uma saída negociada para o impasse do aumento das tarifas ao mesmo tempo em que se pretende preservar a USMCA (sigla em inglês para o Acordo Estados Unidos-México-Canadá) dada a importância do bloco para a economia dois dois países”, ressalta.
Essa movimentação internacional surge em um contexto de consolidação do multilateralismo, com organizações como a OMC (Organização Mundial do Comércio) tomando maior espaço – algo que não agrada Trump.

Justin Trudeau, ex-primeiro-ministro canadense: crise política superada com oposição a Trump
No âmbito interno, o embate contra as ações do republicano fez Trudeau superar uma crise política que, em janeiro, o levou a renunciar ao cargo de premiê — sob pressão parlamentar, falta de apoio popular e sem perspectivas de eleger um sucessor.
No final das contas, o presidente dos EUA deu um palanque involuntário a Trudeau, que viu seu Partido Liberal reverter uma ampla vantagem dos Conservadores e eleger Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá, para sucedê-lo no cargo. Em artigo publicado após a eleição canadense, a rede NBC News afirmou que Trump está “tornando os moderados populares novamente”.
Além do continente
Cruzando o Oceano, o chefe da Casa Branca se opôs ao alinhamento europeu em torno da defesa incondicional da Ucrânia na guerra contra a Rússia. Ao contrário do antecessor no cargo, Joe Biden, que concedia ajudas bilionárias e autorizou as tropas ucranianas a usarem mísseis de longo alcance, Trump impôs condições para manter o apoio e sugeriu ao presidente Volodymyr Zelensky uma troca por terras raras e minerais essenciais de seu território. Os dois chegaram a discutir no Salão Oval.
Some tense exchange between #Trump Vance & Ukrainian President Zelenskyy pic.twitter.com/hqVBmTit9i
— Susan Li (@SusanLiTV) February 28, 2025
Tomaz Paoliello, coordenador do mestrado em governança global e formulação de políticas internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), disse à IstoÉ que “ainda que sejam independentes nas demais áreas, os europeus são condicionados pelos EUA em termos estratégicos e militares”, o que prenunciou a reação tímida do continente à mudança de postura americana.
Neste cenário, Emmanuel Macron, presidente da França — único país europeu com poder nuclear — reiterou o respaldo europeu a Zelensky, discursou pelo fortalecimento militar europeu e corrigiu Trump sobre os termos do apoio financeiro concedido à Ucrânia.
O movimento o alçou a uma posição de liderança na União Europeia, em contraste com a fragilidade enfrentada em território francês — em janeiro, Macron atingiu seu menor índice de popularidade desde o início do mandato, com 21% de aprovação.
“Ele parecia mais fraco do que nunca desde que dissolveu o Parlamento [em junho de 2024] e mergulhou em uma crise sem precedentes. Mas mudou seu foco para a política externa”, relatou a agência de notícias Associated Press. Além da condição de poder na UE, a mudança deu um respiro interno ao liberal, que registrou 27% de aprovação popular em pesquisas divulgadas em março.
Segundo Alberto Pfeifer, coordenador do grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP (Universidade de São Paulo), a criação da “rivalidade pública” é um artifício historicamente utilizado por líderes políticos a favor do engajamento popular. “A ideia do ‘inimigo externo’ sempre atrai a atenção da opinião pública doméstica, galvanizando os interesses nacionais em torno de uma ameaça estrangeira”, explica
No caso do Canadá e, em particular, México, a relação com os Estados Unidos sempre foi marcada por uma assimetria conflituosa – porém, a postura de Macron parece embalar em uma oportunidade de “combustível” político.
“Macron estava em uma crise, havia convocado eleições, não conseguiu aprovar o orçamento para o ano – enfim, um governo enfraquecido e com reversão em função do país enfrentar uma ameaça externa. A questão é por quanto tempo o embate com Trump servirá de combustível para o fortalecimento de Macron, bem como dos líderes que passam por situações análogas”, pondera Alberto.

Emmanuel Macron e Donald Trump: encontro cordial contrasta com oposição diplomática
A artilharia tarifária de Trump também atingiu o Brasil. O republicano anunciou taxas de 25% para todos os automóveis estrangeiros e taxou as exportações de aço e alumínio brasileiras, como já havia feito no primeiro mandato.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que “não dá para ficar quieto” diante das medidas e o Senado aprovou um projeto de lei que permite respostas efetivas ao “tarifaço” americano, a exemplo do que fizeram Canadá e México, com menções claras de seus autores aos EUA.
O presidente brasileiro também enfrenta uma crise interna, mas as relações do país com a Casa Branca — segundo maior parceiro comercial do Brasil — se sobrepõem à viabilidade de explorar politicamente um embate com Trump.
De acordo com Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ainda que o Brasil possa colocar um “tarifaço” a Trump, “isso não é do interesse das elites econômicas do Brasil” – que preferem manter boas relações com os EUA.
A professora ressalta que Lula tende a seguir o ritmo de outras potências, atuando mais em parcerias do que em reações unilaterais, de fato. Porém, as ações brasileiras ainda serão acompanhadas de muito esforço diplomático, já que não há intenção de romper politicamente com o país norte-americano.
“Não há dúvida de que a diplomacia brasileira vai tentar uma negociação, vai tentar agir com muita cautela, observando o que os outros países estão fazendo para atuar muito em parceria”, completa.