Possíveis adversários eleitorais em 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputam pelo crédito da megaoperação contra o crime organizado deflagrada nesta quinta-feira, 28.
Foram duas operações na esfera federal e uma na estadual, considerada a maior ação feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País. Ao todo, 1.400 agentes estão cumprindo 200 mandados de busca e apreensão em dez Estados. A ação mira 350 alvos envolvidos no domínio de toda a cadeia produtiva de combustíveis, parte dela capturada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Apesar de abranger diferentes regiões, um dos escopos de destaque foi a Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, onde policiais federais e membros da Receita Federal localizaram 42 dos alvos (empresas, corretoras e fundos de investimentos) em cinco endereços, incluindo alguns edifícios icônicos da região.
Nesse sentido, a execução da força-tarefa se deu em uma colaboração entre agentes federais e estaduais – Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Ministério Público Federal e polícias Federal, Civil e Militar, além da Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A união fez com que Lula e Tarcísio corressem para atrair a narrativa da operação aos seus respectivos mandatos, rendendo postagens e entrevistas simultâneas.
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Corrida inicia nas redes sociais
Tarcísio de Freitas reagiu à “Operação Carbono Oculto” ainda pela manhã e parabenizou o trabalho da Gaeco. Em postagem no X, ele descreve que o combate ao crime em SP foi “ampliado” ao resto do País. Sem diretamente mencionar participação federal, o governador atribuiu a origem da ação ao estado paulista.
“Trabalho do GAECO com as Polícias de São Paulo que se expandiu para todo o o Brasil, colocando o dedo na ferida e enfrentando com coragem grupos que ninguém teve coragem de enfrentar […]. A mensagem é clara: em São Paulo, o crime organizado não terá vez!”, escreveu
DIA HISTÓRICO NO ENFRENTAMENTO AO CRIME ORGANIZADO
A maior operação de inteligência e combate ao crime organizado no setor de combustíveis da história, a Carbono Oculto, foi deflagrada na manhã de hoje. Trabalho do GAECO com as Polícias de São Paulo que se expandiu para todo o… pic.twitter.com/o5BCvY5b7q
— Tarcísio Gomes de Freitas (@tarcisiogdf) August 28, 2025
Já o presidente Lula foi às redes posteriormente, enfatizando a megaoperação como uma resposta do Poder Executivo ao crime organizado. A postagem menciona colaboração de diferentes “Ministérios Públicos Estaduais”, sem nomear o Governo de São Paulo.
“A população em todo o país assistiu hoje à maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história até aqui. […] O trabalho integrado — iniciado com a criação, no Ministério da Justiça, do Núcleo de Combate ao Crime Organizado – permitiu acompanhar toda a cadeia e atingir o núcleo financeiro que sustenta essas práticas”, disse na plataforma X.
A população em todo o país assistiu hoje à maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história até aqui. Em atuações coordenadas que envolveram Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos estaduais, foram deflagradas três operações simultâneas…
— Lula (@LulaOficial) August 28, 2025
Mais tarde, Tarcísio voltou às redes para falar da operação mais uma vez. Ele veiculou um trecho da coletiva de imprensa dada nesta quinta-feira, em que coloca São Paulo como protagonista da força-tarefa.
“Não há crime em São Paulo que o Governo do Estado não esteja disposto a enfrentar”.
Não há crime em São Paulo que o Governo do Estado não esteja disposto a enfrentar. Hoje, deflagramos a maior operação da história contra o crime organizado no setor de combustíveis.
Um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, que envolvia postos, distribuidoras e usinas de… pic.twitter.com/XGE3cjCmfW
— Tarcísio Gomes de Freitas (@tarcisiogdf) August 28, 2025
Coletivas simultâneas
Autoridades do governo federal e do governo de São Paulo comentaram sobre a operação em coletivas de imprensa em Brasília e São Paulo, respectivamente. Além de marcarem as entrevistas para o mesmo dia, ambas as gestões escolheram o mesmo horário de início (11h).
Brasília
Em Brasília, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ressaltaram a importância da deflagração do sistema criminal. O petista enfatizou a necessidade de sofisticação das instituições diante da complexidade crescente do crime, defendendo a articulação conjunta entre órgãos de investigação, Receita Federal e sistema financeiro.
A coletiva mostrou a tentativa do governo federal em associar o êxito da megaoperação à própria articulação institucional. Tanto Lewandowski quanto Haddad ressaltaram o protagonismo da Polícia Federal, da Receita e de outros órgãos da União, citando colaboração com administrações estaduais.
Aproveitando a visibilidade, Lewandowski também fez referência direta à Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública, atualmente parada no Congresso. O ministro defendeu a aprovação da medida como forma de consolidar a coordenação entre forças federais e estaduais, argumentando a necessidade de meios legais de enfrentamento do crime.
São Paulo
Já em São Paulo, no edifício sede do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), Tarcísio exaltou a Operação Carbono Oculto como um “dia histórico” no combate ao crime organizado.
Ao lado de autoridades estaduais e do Ministério Público, o governador enfatizou o papel das forças paulistas de inteligência na deflagração da operação e sublinhou a importância da integração com órgãos federais, sem deixar de valorizar a iniciativa de seu governo.
Tarcísio apresentou o resultado como prova da capacidade de São Paulo em liderar o enfrentamento a organizações criminosas e reforçou o discurso de que sua gestão tem dado prioridade absoluta ao desmantelamento das estruturas financeiras que sustentam facções.
Questionados sobre a simultaneidade das entrevistas, o Ministério da Justiça e a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) não retornaram até o momento de publicação.
Prenúncio de 2026?
Apesar de ainda não existir cenário definitivo para a próxima disputa presidencial em 2026, o afastamento de Jair Bolsonaro (PL) deixou uma vaga disponível para um novo candidato da direita. Tarcísio de Freitas é especulado como um possível sucessor do eleitorado bolsonarista.
A possibilidade instiga um embate paralelo entre Lula – que já confirmou intenção de disputar reeleição – e o governador de São Paulo. Em outro episódio de discordância, ambos também lutam pela paternidade do túnel Santos-Guarujá. A guerra, porém, ainda é velada – em público, os dois trocam elogios e celebram a parceria entre governo federal e estadual para viabilizar uma obra prometida há décadas.
Em uma conjuntura em que ambos despontam como possíveis protagonistas de 2026, a operação funcionou como ensaio do embate que pode marcar a sucessão presidencial.