Como Tarcísio e Lula agiram para capitalizar a operação contra o PCC

Marcelo Camargo/Agência Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Possíveis adversários eleitorais em 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputam pelo crédito da megaoperação contra o crime organizado deflagrada nesta quinta-feira, 28.

Foram duas operações na esfera federal e uma na estadual, considerada a maior ação feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País. Ao todo, 1.400 agentes estão cumprindo 200 mandados de busca e apreensão em dez Estados. A ação mira 350 alvos envolvidos no domínio de toda a cadeia produtiva de combustíveis, parte dela capturada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Apesar de abranger diferentes regiões, um dos escopos de destaque foi a Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, onde policiais federais e membros da Receita Federal localizaram 42 dos alvos (empresas, corretoras e fundos de investimentos) em cinco endereços, incluindo alguns edifícios icônicos da região.

Nesse sentido, a execução da força-tarefa se deu em uma colaboração entre agentes federais e estaduais – Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Ministério Público Federal e polícias Federal, Civil e Militar, além da Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A união fez com que Lula e Tarcísio corressem para atrair a narrativa da operação aos seus respectivos mandatos, rendendo postagens e entrevistas simultâneas.

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Corrida inicia nas redes sociais

Tarcísio de Freitas reagiu à “Operação Carbono Oculto” ainda pela manhã e parabenizou o trabalho da Gaeco. Em postagem no X, ele descreve que o combate ao crime em SP foi “ampliado” ao resto do País. Sem diretamente mencionar participação federal, o governador atribuiu a origem da ação ao estado paulista.

“Trabalho do GAECO com as Polícias de São Paulo que se expandiu para todo o o Brasil, colocando o dedo na ferida e enfrentando com coragem grupos que ninguém teve coragem de enfrentar […]. A mensagem é clara: em São Paulo, o crime organizado não terá vez!”, escreveu

Já o presidente Lula foi às redes posteriormente, enfatizando a megaoperação como uma resposta do Poder Executivo ao crime organizado. A postagem menciona colaboração de diferentes “Ministérios Públicos Estaduais”, sem nomear o Governo de São Paulo.

“A população em todo o país assistiu hoje à maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história até aqui. […] O trabalho integrado — iniciado com a criação, no Ministério da Justiça, do Núcleo de Combate ao Crime Organizado – permitiu acompanhar toda a cadeia e atingir o núcleo financeiro que sustenta essas práticas”, disse na plataforma X.

Mais tarde, Tarcísio voltou às redes para falar da operação mais uma vez. Ele veiculou um trecho da coletiva de imprensa dada nesta quinta-feira, em que coloca São Paulo como protagonista da força-tarefa.

“Não há crime em São Paulo que o Governo do Estado não esteja disposto a enfrentar”.

Coletivas simultâneas

Autoridades do governo federal e do governo de São Paulo comentaram sobre a operação em coletivas de imprensa em Brasília e São Paulo, respectivamente. Além de marcarem as entrevistas para o mesmo dia, ambas as gestões escolheram o mesmo horário de início (11h).

Brasília

Em Brasília, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ressaltaram a importância da deflagração do sistema criminal. O petista enfatizou a necessidade de sofisticação das instituições diante da complexidade crescente do crime, defendendo a articulação conjunta entre órgãos de investigação, Receita Federal e sistema financeiro.

A coletiva mostrou a tentativa do governo federal em associar o êxito da megaoperação à própria articulação institucional. Tanto Lewandowski quanto Haddad ressaltaram o protagonismo da Polícia Federal, da Receita e de outros órgãos da União, citando colaboração com administrações estaduais.

Aproveitando a visibilidade, Lewandowski também fez referência direta à Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública, atualmente parada no Congresso. O ministro defendeu a aprovação da medida como forma de consolidar a coordenação entre forças federais e estaduais, argumentando a necessidade de meios legais de enfrentamento do crime.

São Paulo

Já em São Paulo, no edifício sede do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), Tarcísio exaltou a Operação Carbono Oculto como um “dia histórico” no combate ao crime organizado.

Ao lado de autoridades estaduais e do Ministério Público, o governador enfatizou o papel das forças paulistas de inteligência na deflagração da operação e sublinhou a importância da integração com órgãos federais, sem deixar de valorizar a iniciativa de seu governo.

Tarcísio apresentou o resultado como prova da capacidade de São Paulo em liderar o enfrentamento a organizações criminosas e reforçou o discurso de que sua gestão tem dado prioridade absoluta ao desmantelamento das estruturas financeiras que sustentam facções.

Questionados sobre a simultaneidade das entrevistas, o Ministério da Justiça e a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) não retornaram até o momento de publicação.

Prenúncio de 2026?

Apesar de ainda não existir cenário definitivo para a próxima disputa presidencial em 2026, o afastamento de Jair Bolsonaro (PL) deixou uma vaga disponível para um novo candidato da direita. Tarcísio de Freitas é especulado como um possível sucessor do eleitorado bolsonarista.

A possibilidade instiga um embate paralelo entre Lula – que já confirmou intenção de disputar reeleição – e o governador de São Paulo. Em outro episódio de discordância, ambos também lutam pela paternidade do túnel Santos-Guarujá. A guerra, porém, ainda é velada – em público, os dois trocam elogios e celebram a parceria entre governo federal e estadual para viabilizar uma obra prometida há décadas.

Em uma conjuntura em que ambos despontam como possíveis protagonistas de 2026, a operação funcionou como ensaio do embate que pode marcar a sucessão presidencial.