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Como se faz um estadista

Em menos de três meses, Joe Biden derrubou os índices da pandemia. Em várias áreas, exibiu um show de gestão: de uma ajuda trilionária para a economia ao tratamento humanitário aos imigrantes

Crédito: Doug Mills/The New York Times

ESTRATÉGIA Com o novo pacote de US$ 3 bilhões, Biden planeja energia limpa nos transportes para concorrer com a China (Crédito: Doug Mills/The New York Times)

Em pouco mais de 70 dias na Presidência, Joe Biden já mostrou resultados que foram aprovados pela maioria da população. O democrata conseguiu passar no Congresso o maior pacote de estímulo econômico da história americana, no valor de US$ 1,9 trilhão. Não apenas cumpriu a promessa de campanha de vacinar 100 milhões de pessoas contra a Covid-19 nos primeiros cem dias de mandato, como dobrou a meta. Vai imunizar 200 milhões até 1º de maio. Da nova orientação humanitária para os imigrantes aos estímulos trilionários para a economia, o presidente conseguiu em tempo recorde imprimir uma nova agenda ao país, dando um show de gestão.

VACINA PARA TODOS O plano do presidente a mericano prevê vacinar pelo menos 200 milhões de pessoas até o final de abril (Crédito:Jason Redmond)

Por conta disso, já se posiciona de forma mais ambiciosa para os próximos anos. Na sua primeira coletiva, não descartou concorrer à reeleição em 2024, quando terá 81 anos. Enquanto isso, acelera as mudanças. Detalhará no decorrer de abril um novo pacote de investimentos, de até US$ 3 trilhões. A primeira parte prevê investimentos de US$ 1,6 trilhão na reconstrução da infraestrutura rodoviária, ferroviária e hidroviária americana, além de projetos na energia verde. A segunda parte será na Educação.

“Biden quer salvar a democracia americana e no mundo. Para isto, ele acalmará os descontentes”, diz Leonardo Trevisan, professor de Geoeconomia da ESPM. O especialista observa que os EUA não têm trens de alta velocidade, como os países europeus, e as rodovias, embora conservadas, são dos anos 1950. “O presidente planeja refazer a infraestrutura do país, para tornar a América compatível com a indústria 4.0 e a eletromobilidade”, explica. Já a segunda parte do pacote prevê a digitalização das pré-escolas e a universalização do acesso às universidades comunitárias e gratuitas.

Desde 21 de janeiro, o ritmo de medidas adotadas se mostrou alucinante. Entre as transformações concretizadas, Biden trouxe os EUA de volta ao Acordo de Paris, para reduzir as emissões de gases poluentes até 2030, e promete mudar a matriz energética americana nos próximos anos, dos combustíveis fósseis para a energia limpa — reforma que havia sido iniciada por Barack Obama e depois revertida por Donald Trump. Também aprovou o pacote de US$ 1,9 trilhão para custear trabalhadores diante da crise sanitária. Cada americano receberá um cheque de US$ 1,4 mil do governo, enquanto cada desempregado receberá um cheque semanal de US$ 300 até setembro.

“Nós queremos mudar o paradigma. Vamos começar a recompensar o trabalho, não apenas a riqueza na América” Joe Biden, presidente dos Estados Unidos

Essas iniciativas catapultaram o apoio da população. Pesquisa da ABC News e do Instituto Ipsos, publicada no dia 28, mostrou que 60% dos entrevistados aprovaram o pacote de auxílio de US$ 1,9 trilhão, incluídos 41% dos eleitores republicanos. A recepção também foi entusiasmada na área da saúde. A sondagem mostrou que 78% dos americanos aprovam a condução do presidente no combate à pandemia. No total, Biden conta com a aprovação de 53% dos americanos, indica outra pesquisa da Associated Press.

Economia reaquecida

Com esta rápida reação à pandemia e no combate ao desemprego e à pobreza, a projeção do FMI é que a economia americana poderá crescer 5,5% em 2021, o que reverterá a queda de 3,4% de 2020, último ano do governo Trump. As projeções indicam ainda que a taxa das pessoas que vivem na pobreza poderá ser reduzida de 13,7% para 8,7% dos 330 milhões de americanos, estima o Urban Institute. Também há desafios pela frente. Embora sob controle, a pandemia do coronavírus, que já matou 550 mil americanos, é um deles, já que há o risco de novas ondas, principalmente em função de variantes do coronavírus. A taxa de desemprego também preocupa. Mas o humor do país mudou. A promessa agora é vacinar toda a população adulta até o dia 4 de Julho, quando é comemorada a independência. Segundo Biden, a data marcará a volta do país à normalidade, ainda que com cuidados sanitários. A rápida vacinação e a reativação da economia, seus méritos, parecem ter colocado os EUA de volta no caminho da prosperidade. E, depois de quatro anos de polarização e crises em série, a população parece confiante, novamente, em ter um estadista no governo. É uma sinalização positiva, recebida com alívio em todo o mundo.