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Como o Dream Team do Barcelona construiu a dinastia em solo nacional que mudou história do clube

Treinado por Johan Cruyff, time venceu o Campeonato Espanhol quatro vezes consecutivas no início da década de 90. L! relembra e explica o período

Como o Dream Team do Barcelona construiu a dinastia em solo nacional que mudou história do clube

o Barcelona foi campeão da Liga dos Campeões da UEFA pela primeira vez em sua história

Primeiro de setembro de 1990. Começava mais uma edição do Campeonato Espanhol. Nos cinco anos anteriores, não teve para ninguém: o Real Madrid abocanhou, de forma consecutiva, cinco troféus. Recheado de jogadores da base, o Real se exibiu nos gramados hispânicos com um futebol leve, atraente e ofensivo, no qual ficou conhecido como “La Quinta Del Buitre”, em referência ao “líder” do grupo, Emílio Butragueño.

Ao norte, Espanyol e Barcelona abriam a temporada 1990/91 com o dérbi da Catalunha. Deu Barça, com gol de Hristo Stoichkov, maior reforço culé no verão europeu. Um pequeno passo para o contra-ataque barcelonista à hegemonia madridista. Iniciava a arrancada culé que culminaria em um histórico tetracampeonato nacional e o primeiro título da Liga dos Campeões.

Se, atualmente, o clima é de incerteza para um Barcelona que corre atrás do eterno rival, há 30 anos a expectativa era no mínimo de esperança. Por um lado, embora o fim da campanha 1989/90 tenha sentenciado o pentacampeonato de La Liga do Real Madrid, na Copa do Rei a história foi diferente.

Contudo, a final entre os antagônicos foi, também, uma prova de recuperação para Johan Cruyff. Campeão espanhol como jogador em 1974, o holandês retornou como treinador em 1988 para tentar recolocar o filho pródigo da Catalunha nos trilhos de novo. No entanto, os dois primeiros anos foram delicados e só um título na competição copeira evitaria a demissão.

A decisão em Valencia, no Mestalla, é considerada por muitos como uma espécie de “passagem de bastão”. Com a espinha-dorsal do time que viria a dominar a Espanha nos anos seguintes, o emergente Barcelona venceu por 2 a 0, para a fúria do técnico galês John Toshack, do Real Madrid, que não resistiu e foi desligado do cargo. No âmbito moral, anímico e místico, o Superclássico ganhava um novo e crucial capítulo.

– O legado de Cruyff é essencial para a história do Barcelona. O holandês fomentou uma filosofia e criou possibilidades para o desenvolvimento de um DNA de futebol que seguirá no Camp Nou. O clube, inclusive, colheu frutos em importantes conquistas recentes. A partir das ideias de Cruyff, o Barça passou a ser reconhecido pelo futebol ofensivo, criativo e vistoso. Moldar todos esses elementos, portanto, coloca o holandês como um notável. Não consigo dissociar a imagem blaugrana a de Johan. Ele é a história culé. Lionel Messi, sem dúvidas, é o melhor jogador que já vestiu as cores do Barcelona. Cruyff é a mente. A visão. Sem ele, nada seria possível – afirma Aigor Ojêda, editor do LANCE!.

Em tempos onde a mercantilização no futebol não era tão feroz, antes da Lei Bosman e com restrição na inscrição de jogadores estrangeiros nas competições, o Barcelona necessitaria de mais astúcia na hora de escolher jogadores no mercado. Sobretudo porque, para Cruyff, o clube teria que selecionar de forma específica os atletas que encaixariam na sua proposta de jogo. Ou seja, era uma demanda que rogava maior atenção. Foi dessa forma que o pequeno José Mari Bakero, de 1,70, que fez história na Real Sociedad bi-campeã espanhola em 1981 e 1982, acertou em 1988 com o Barça, onde viria a ser fundamental.

Barcelona 1990/1994

Em âmbito nacional, o tetracampeonato barcelonista representou a recuperação do protagonismo do clube (Twitter/Barcelona)

A cada ano, um pilar chegava à Catalunha. Dos mais conhecidos, em 1989 foram as vezes de Michael Laudrup e Ronald Koeman; em 1990, Hristo Stoichkov; em 1993, Romário. Se os nomes eram escolhidos meticulosamente por Cruyff e a comissão técnica, visão diferente compartilhava a diretoria, do presidente Josep Lluís Núñez, até hoje o que mais ficou à frente do cargo (de 1978 a 2000). Persona non grata no Camp Nou, Núñez não repartia da melhor relação com Cruyff.

– O Nuñez ficou 30 anos como presidente do Barcelona e sempre foi mais adepto de ideias futebolísticas diferentes do Cruyff. O Cruyff não foi contratado porque o Nuñez acreditava que ele ganharia a Champions League e seria a salvação. Não. A pressão dos sócios que era muito grande. Os sócios e a torcida no geral defendiam a contratação do Cruyff pela inspiração no jeito de jogar que deu frutos ao Ajax e porque acreditavam que o holandês, já tendo sido jogador do Barça, seria uma luz no fim de túnel para o clube ganhar notoriedade em meio a uma rivalidade onde o Real Madrid não parava de ganhar títulos – explica Gabriela Tomaseto, responsável pelo ‘Canal Barça’, perfil feito por e para torcedores do clube no Brasil.

Para alcançar as glórias foram precisos mudanças estruturais. Sob a baliza de Cruyff e do auxiliar-técnico Carles Rexach, as divisões de base, hoje famosamente conhecida como “La Masía”, nome dado às instalações de treinamento e à academia que abrigava as promessas até 2011, teriam importância indeclinável. De acordo com o livro “Barça: a construção e a trajetória do melhor FC Barcelona de todos os tempos”, escrito por Graham Hunter e publicado no Brasil pela editora Grande Área, Cruyff enxergou a necessidade dos treinadores da base jogarem no mesmo esquema tático (4-3-3) com o mesmo estilo de jogo para facilitar a transição à equipe profissional.

Outras ortodoxias dos princípios do holandês envolviam a obrigação das melhores promessas sempre estarem treinando com jogadores mais velhos e a “promoção acelerada”, que o fornecimento de um jovem ao plantel principal. Para Rexach, “eles estavam decididos a instaurar o futebol que nos inspiravam, o de Rinus Michels”, creditado como inventor do “Futebol Total”, famoso pela Holanda de 1974 e o Ajax campeão europeu.

– Antes do Cruyff assumir o Barcelona como treinador, já havia uma semente implantada no clube por nomes como Vic Buckingham, Rinus Michels e Laureano Ruiz. Esses caras têm um nome muito forte na história do Barcelona. Por que eles não são tão falados? Porque eles não tiveram pro futebol o tamanho de um Cruyff. Mas pensando no estilo barcelonista (ou o estilo cruyffista), eles foram muito importantes. Acontece que essa filosofia só começa a ganhar voz quando o Barça ganha sua primeira Liga dos Campeões, em 92, com o Dream Team do Cruyff. Antes disso era só uma “ideia” que ficou “vaga” no ar – diz Gabriela.

Romário - Barcelona

Romário foi campeão, artilheiro e melhor jogador do Campeonato Espanhol de 1993/94 (Foto: Reprodução de internet)

Dado os primeiros passos, era hora de transformar a teoria na prática. Mas não foi algo fácil. O Barcelona era como um urso em hibernação, cujo estado letárgico já durava anos suficientes para colocá-lo em descrédito. Para se traçar um paralelo comparativo, do bi-campeonato de 1958/59 e 1959/60 até o título supracitado da Copa do Rei em 1990, os Blaugranas venceram apenas duas La Liga (em 1973/74 e 1984/85). No período, o Real levantou a taça 18 vezes, o Atlético de Madrid mais quatro, enquanto Real Sociedad e Athletic Bilbao duas vezes cada, e o Valencia uma única vez.

Dos quatro títulos seguidos na década de 90, três saíram no sopro do apito. E, nos três, o Barcelona chegou à última rodada dependendo de um tropeço do rival direto. E, nos três, os rivais colaboraram. A exceção foi o primeiro ano. Com o time categoricamente ajeitado, o arranque no primeiro turno serviu para criar uma gordura diante de um segundo turno mais instável. Resultado: triunfo com três rodadas de antecedência. Ironia do destino, no dia da confirmação do troféu, o Barcelona foi goleado pelo Cádiz por 4 a 0, mas uma derrota do Atlético de Madrid para a Real Sociedad finalizou matematicamente o campeonato.

Se contou com uma ajuda à moda basca para voltar a ser campeão, o que dizer do quão solícito foi o Tenerife, pequeno clube representante da maior das sete ilhas das Canárias? Nos dois títulos seguintes, o Real Madrid chegou à jornada final precisando de uma vitória simples, mas, em ambas ocasiões, foi retumbantemente surpreendido pelos insulares, que venceram em 1992 por 2 a 0 e em 1993 por 3 a 2.

Semelhanças foram encontradas no roteiro da temporada 1993/1994. No melhor ano da carreira de Romário, o Barça encarou o último jogo tendo que fazer a lição de casa e secar um rival direto, no caso o Deportivo La Coruña, que liderava com 55 pontos, contra 53 dos culés. E o raio caiu no mesmo lugar pela terceira vez. Em casa, o Depor não passou de um empate com o Valencia por 0 a 0, desperdiçando um pênalti aos 45 minutos, enquanto que no Camp Nou o Barcelona derrotou o Sevilla por 5 a 2 e fechou o quarto título.

2011 - Josep Guardiola (Barcelona)

Como treinador do Barcelona, Guardiola foi campeão da Liga dos Campeões duas vezes repetindo as ideias de jogo de Cruyff (Foto: GLYN KIRK / AFP)

– São quatro grandes momentos do Barcelona em sua história: quando surge; depois com o Kubala, que é responsável pela mudança de estádio para o Camp Nou; e aí vem o Cruyff, que é um grande marco, porque os outros dois momentos são ligados a ele. Ele traz uma mudança gigantesca no clube, quanto à filosofia, categorias de base e modelo de jogo. Anos depois, vem o Ronaldinho, já com o Laporta, com toda uma ideia que tem o Cruyff como presidente honorário, como um conselheiro importante do clube. O Messi chega porque a filosofia do Cruyff está lá. É bem provável que, se não tivesse, o Messi não seria contratado. Ou o Guardiola não seria um jogador do Barcelona, por não ter sido tão forte fisicamente. O Messi é o maior jogador, mas o Cruyff é mais importante num contexto geral. Então é possível falar que Johan é o maior nome da história do Barcelona – salienta o jornalista Gabriel Corrêa, da Rádio Bandeirantes e do site “Footure”.

Mais do que a dinastia nacional e a conquista do primeiro título europeu, em 1991/92, quando derrotou a Sampdoria em Wembley por 1 a 0, é inevitável não falar de legado deixado por Cruyff e seu entorno. Desde então, com a ressalva do inglês Bobby Robson em 1997, todos os treinadores campeões com o Barcelona foram holandeses (Louis Van Gaal e Frank Rijkaard) ou espanhóis que atuaram com Johan (Pep Guardiola, Luis Enrique e Ernesto Valverde).

Agora, trinta anos depois do início da longa caminhada que resultou em um dos períodos mais vitoriosos do futebol espanhol, o Barça, novamente com um holandês no comando técnico, espera curar as cicatrizes abertas pela desastrosa temporada 2019/2020. O pontapé inicial será neste domingo, às 16h, contra o Villarreal.

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