Com ao menos 121 mortos, a chacina policial mais letal da história do Brasil foi deflagrada na última terça-feira, 28, no Rio de Janeiro, sob o título de “Operação de Contenção”. Apesar das críticas de autoridades nacionais e internacionais, o chefe do Palácio Guanabara, Cláudio Castro (PL), contou com o apoio de governadores aliados para seguir firme na retórica do rigor policial como promoção de segurança pública – sinalizando, em último caso, o uso da pauta como moeda eleitoral.
Governadores à direita como Ronaldo Caiado (União Brasil), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ratinho Jr (PSD), Jorginho Mello (PL), Mauro Mendes (União Brasil) e Romeu Zema (Novo) se reuniram com Castro logo após o ocorrido para reafirmar a aprovação de medidas “duras” contra o crime organizado. Além disso, utilizaram a ocasião para rivalizar com o governo federal e culpar a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela criminalidade dos estados.
A um ano das eleições, a agenda da segurança pública volta a aparecer entre as preocupações dos governadores, conscientes da sensibilidade do assunto para a população. O levantamento Atlas/Intel sobre a megaoperação divulgado na sexta-feira, 31, demonstrou que 51% dos cariocas acreditam que o governo estadual é o principal responsável por cuidar da segurança pública na cidade.
A IstoÉ conversou com especialistas para, neste texto, explicar como o uso da segurança pública se tornou símbolo de campanha eleitoral de gestores à direita e a simultânea tentativa de se opor ao governo federal.
+ Como termo “narcoterrorismo” politiza segurança pública no Brasil
Faria Lima x Favela
Com exatamente dois meses de diferença, as ações mais marcantes deste ano contra o crime organizado no Sudeste revelaram abordagens quase opostas quanto às estratégias das operações policiais.
Em São Paulo, no dia 28 de agosto de 2025, agentes da Polícia e Receita Federal promoveram uma ofensiva conjunta ao PCC e, de modo quase inédito nesse tipo de investigação, mirou na relação das facções com a economia formal para além dos morros. A Faria Lima, polo comercial da capital, foi o principal alvo: ao menos 42 empresas, corretoras e fundos de investimentos – vários deles endereçados em prédios icônicos da avenida – compuseram a rede de busca da Operação Carbono Oculto. Na ocasião, nenhuma morte foi deflagrada.

Viatura na Avenina Faria Lima em São Paulo em 28 de agosto de 2025 – AFP
Já no Rio de Janeiro, em 28 de outubro também deste ano, agentes da polícia Civil e Militar promoveram a ação mais letal envolvendo policiais já vista no País, com mais de 120 mortos. A chacina se concentrou nos complexos do Alemão e da Penha – conjuntos de comunidades – e ultrapassou óbitos de casos emblemáticos considerados afrontas aos direitos humanos, como o Massacre do Carandiru.
Segundo o analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Guaracy Mingardi, a ofensiva no Rio é um exemplo concreto do crescimento da institucionalização da morte em todas as confederações policiais.
“Aquilo no Rio não foi uma operação, foi um desastre. Eles entraram, mataram e saíram.”, disse à IstoÉ.

Agentes da polícia guardam supostos criminosos presos durante a Operação Contenção na favela Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025. ( Mauro PIMENTEL / AFP)
Para Mingardi, a própria designação “Operação de Contenção” já afere um valor errôneo de como deveria ser a atuação policial – uma combinação de trabalho de inteligência e estratégia.
“Eu sempre digo que quem faz operação é médico. Polícia faz patrulha ou investiga. Eu não gosto de chamar de ‘operação’ porque aquilo depende de investigação, de inteligência – e só depois partir para as prisões, para a ação em si.”, declara o analista.
Efeito rebote: ressentimento pela polícia e crescimento de milícias
Autora do livro “A militarização da Política no Brasil Contemporâneo”, a professora de Direito e doutoranda na USP Julia Almeida explicou à reportagem que essas ações policiais acabam tendo efeito contrário: ampliam o crime organizado e tornam o confronto mais violento. Assim como o caso no Carandiru – que resultou na criação do PCC – a estatização do extermínio no Rio impulsionou milícias e facções.
Segundo Almeida, há indícios de que a recente operação no Rio tenha favorecido o avanço das milícias na disputa territorial, “o que reforça a necessidade de investigação e revela como a política de segurança baseada em extermínio aprofunda a violência que diz combater”.
Na mesma linha, o analista criminal Guaracy Mingardi lembra que, para além de uma resposta formal, a violência policial gera uma cadeia de aversão por parte da população – em especial pretos e pobres, parcela mais afetada por esse tipo de agressão.
“O garoto que viu um irmão, um amigo dele ser morto pela polícia – ou mesmo que viu um amigo levando um tapa de policiais – ele vai ser inimigo da polícia para o resto da vida. Você tá, na verdade, aos poucos, jogando gente pro campo inimigo. E antes de tudo a gente tem que pensar no criminoso como adversário, não como inimigo.”
Evidenciado que a ofensiva da Polícia do RJ não traz resultados práticos no combate contra os “peixes grandes” do tráfico, os especialistas levantam outros interesses caros ao governador Cláudio Castro, que tenta utilizar a agenda de Segurança Pública como pauta eleitoral. A um ano da eleição, diferentes mandatários – reconhecidamente à direita – procuram voltar a capitalizar a narrativa de segurança como catalisador de votos, explica a professora e doutoranda da USP.
“Castro aposta em ações midiáticas que reforçam sua narrativa, apresentando-se como defensor da ‘ordem’. A ação do governador é visivelmente eleitoreira, sustentada na mobilização do medo e da insegurança. Com índices muito baixos nas pesquisas eleitorais e de popularidade, ele busca se fortalecer para as eleições do próximo ano.”, explica ela.
Segundo os entrevistados, governistas se aproveitam da pauta da Segurança Pública por ser um assunto sensível à população. Mesmo que as infiltrações do crime organizado no País sejam profundas, os cidadãos pautam sua “sensação de segurança” em delitos menores, percebidos em roubos de celulares, assaltos e furtos.
“É um tema que incomoda todo mundo. Se você ver as estatísticas, nos anos 1990 se matava pelo menos quatro vezes mais do que se mata hoje em São Paulo. Mas esses números não saem da Secretaria de Segurança, porque a sensação de segurança da população não mudou.”, destaca Mingardi.
Criação do inimigo interno

Pessoas em motos reagem durante operação policial contra o tráfico de drogas na favela da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025. REUTERS/Aline Massuca
Apesar de apresentarem diferenças decisivas, as operações em São Paulo e Rio de Janeiro se assemelham na tentativa dos respectivos governadores de rivalizar com o governo federal.
Tarcísio de Freitas reivindicou a paternidade da Operação Carbono – opondo-se ao holofote da gestão Lula – e não enfatizou a participação da Polícia Federal, de modo a vender a ação como competência estadual. Já Castro, no Rio, criticou a falta de ajuda do governo para o combate ao crime organizado.
Segundo a professora Julia Almeida, o governador busca transferir a responsabilidade pelos problemas enfrentados no Rio ao governo federal, apresentando a chacina como uma resposta “necessária” diante da suposta omissão de Brasília.
“De modo semelhante, Tarcísio sabe que, após a Operação Carbono Oculto, articulada pelo governo federal, sua imagem ficou abalada; por isso tenta ‘surfar na onda’ da operação, embora essa tentativa seja difícil diante da questão do metanol e das denúncias de possível relação com o PCC”, comenta.
A estratégia empregada na narrativa dos governadores da ala à direita, segundo Almeida, é “populismo penal”, discurso que explora o medo e a sensação de insegurança para justificar políticas de extermínio, baseadas na ideia de que “bandido bom é bandido morto”.
“A narrativa consiste em tentar associar o campo progressista (hoje liderado por Lula) à criminalidade. Essa tática é antiga e busca deslegitimar quem defende a aplicação da lei e os direitos humanos”.
Para se sustentar, a “Guerra às Drogas” promovida no Brasil e no mundo – como a atual ofensiva do americano Donald Trump contra “narcoterroristas” – precisa da criação de um inimigo interno. No caso brasileiro, esse estereótipo se resume majoritariamente a “negros, pobres e periféricos”, explica a professora.
Clã bolsonarista e uso político da morte

Governadores de SP, GO e MG se reuniram virtualmente em apoio a Cláudio Castro
Com eleições marcadas para 2026, os atuais gestores procuram acenar quais caminhos devem ser seguidos até o momento do pleito. No âmbito estadual, um grupo coeso de mandatários à direita, aproveitando o ocorrido no Rio, voltaram a enfatizar a pauta da segurança pública como a síntese ideológica do grupo.
Diversos governadores – entre eles Ronaldo Caiado (União Brasil), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ratinho Jr (PSD), Jorginho Mello (PL), Mauro Mendes (União Brasil) – prestaram apoio a Cláudio Castro após a Operação de Contenção. Além de oferecerem ajuda policial, defenderam a aplicação de medidas duras como única solução para o crime organizado.
O membro do Fórum Brasileiro de Segurança Guaracy Mingardi volta a sinalizar que tal uso político da morte é algo comum a esse grupo, especialmente em contexto pré-eleitoral.
“A extrema-direita tem sempre aquela resposta rápida que a população pede frente à criminalidade. Quando o pavor aumenta, você quer uma resposta simples. E a resposta mais simples que o pessoal vê é essa: se matar um bandido, vai dar exemplo para os outros”, diz.
Seguindo a ideia de rivalização, a doutoranda da USP Julia Almeida explica que governistas conservadores buscam vincular a esquerda aos “bandidos”, em razão de sua defesa do devido processo legal e de sua condenação às chacinas.
Um exemplo pôde ser visto na coletiva de governadores ocorrida na quinta-feira, 30, em que aliados à direita anunciaram o “Consórcio da Paz”, com objetivo de aumentar as forças integradas contra o crime, na esteira da ofensiva no Rio de Janeiro. Na ocasião, o gestor de Goiás, Ronaldo Caiado, afirmou que o Nordeste era a região em que Lula tinha mais votos e, por acaso, a região em que “mais se matava” no País.
“Na política, mobilizar emoções – medo, ódio, ressentimento – pode ser uma estratégia para angariar votos. O populismo penal instrumentaliza esses sentimentos e os articula em campanhas eleitorais, ampliando sua influência sobre diversas pautas sociais e morais.”, finaliza Almeida.