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Como foi criada a cartilha autoritária de Jair Bolsonaro

O presidente adapta a estética do totalitarismo para mobilizar fanáticos: o nacionalismo extremado, as marchas truculentas, a simbologia militar e o culto ao seu mito. Também usa a tática de outros ditadores para minar a democracia, como aparelhar e cooptar as instituições

Crédito: Uesley Marcelino

NOVO CORTE O presidente Jair Bolsonaro em Brasília, em 27 de janeiro passado (Crédito: Uesley Marcelino)

DESFILE Mussolini em 1927. Bolsonaro imita o gesto em Brasília durante manifestação golpista, em maio de 2021 (no alto); acima, Hitler e Bolsonaro cortam o cabelo (Crédito:Divulgação)

O Brasil vive uma aula de história em câmera lenta. Ao promover um desfile com milhares de motoqueiros no Rio de Janeiro, no domingo, 23, o presidente copiou um gesto famoso do fundador do fascismo, Benito Mussolini, que se notabilizou por promover marchas truculentas de apoiadores.

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Além de mobilizar a claque, essa exibição canhestra de Bolsonaro teve motivações mais práticas. Ele prometeu aos motoqueiros isenção em novos pedágios (a conta vai para o resto da população) e teve o apoio de mil policiais militares, bem como de batedores da Polícia Rodoviária Federal, que abriram o caminho pela cidade. Foi uma demonstração de força e de intimidação, que mais uma vez desrespeitou as regras sanitárias, já que nem o presidente, nem os convidados estavam com máscaras.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro ou sua equipe reproduziram símbolos totalitários. Um ex-secretário da Cultura citou um discurso de Joseph Goebbels em um cenário copiado do antigo braço-direito de Hitler, embalado pela música de Wagner. Um assessor de assuntos internacionais com acento no Planalto fez um gesto supremacista no Congresso. No ano passado, a Secretaria de Comunicação publicou um vídeo sobre ações de combate à pandemia que citava uma das mais torpes citações nazistas, que ficava na entrada do campo de concentração de Auschwitz: “O trabalho liberta”. A peça bolsonarista dizia: “O trabalho, a união e a verdade nos libertará”. Objetivava criticar as medidas de restrição, que até hoje salvam vidas e são atacadas por Bolsonaro.

O negacionismo do brasileiro não corrompe apenas as recomendações de médicos. Bolsonaro já minimizou o drama da escravidão, ao atribuir aos próprios africanos o comércio de escravos. Ao insinuar que apenas os fracos sucumbem à Covid-19, reavivou uma tese que virou obessão para os nazistas, a eugenia. Era a prática de “purificar” a raça, eliminado os mais fracos e defeituosos e promovendo uma população de “vencedores”. O presidente também se apropriou de uma tese da infectologia, a da “imunidade de rebanho”, para defender que todos os brasileiros devem se infectar com o coronavírus. Nessa lógica adulterada pela política, os óbitos seriam apenas uma consequência inevitável. O presidente também já elogiou a ditadura militar, mandou homenagear milicianos acusados de extermínio e exaltou a tortura.

Essas ideias assustadoras podem prosperar no Brasil? Até o momento, é quase consenso entre cientistas políticos que a democracia já está suficientemente amadurecida e que as instituições democráticas e de controle, Congresso e STF à frente, estão contendo o ímpeto autoritário do presidente e as frequentes ameaças dos seus apoiadores. Eles também avaliam que as condições históricas não favorecem um putsch. Mas o trumpismo nos EUA, que continua forte, é um alerta de que as democracias liberais estão sob ataque. A história mostra que diversos golpes se concretizaram mesmo em condições de aparente normalidade institucional. O caso mais próximo é a Venezuela, onde o chavismo chegou ao poder por meio de eleições para depois esmagar o Parlamento, aparelhar a Justiça, sufocar a imprensa, criar milícias paramilitares e politizar as Forças Armadas. Apesar da atual tendência de vários historiadores buscarem novas chaves concentuais que expliquem o nascimento e a morte das democracias, essa experiência latino-americana é quase um caso clássico, parecida com a de cem anos atrás. Mussolini também começou elegendo-se ao parlamento, antes de organizar as próprias marchas truculentas para impor sua escolha à chefia do governo. Daí, foi um passo para esmagar a oposição. Hitler também ascendeu ao poder pelo voto, para em seguida estabelecer um regime de terror.

SUPREMACISTA O assessor do Planalto Filipe Martins faz gesto racista no Senado (Crédito:Divulgação)

“Fascismo eterno”

A infâmia nazista, que horrorizou o mundo ao inventar o genocídio industrializado, é um caso extremo. Mas a repugnância que causa não provoca nenhuma preocupação nos novos radicais. O totalitarismo que varreu o mundo no entreguerras serve de guia e é copiado sem constrangimento por autocratas contemporâneos, inclusive o presidente brasileiro. O escritor italiano Umberto Eco sintetizou o fenômeno no livro O Fascismo Eterno. Apontou características que não se resumem ao “padrão” estabelecido pelo fascismo, nazismo e stalinismo. Entre elas, o nacionalismo extremo, o desprezo pelo Parlamento, a rejeição a qualquer crítica, a obsessão com teorias conspiratórias, o culto a mitos e a desconfiança em relação à ciência e ao mundo intelectual. Sem contar a militarização e a exaltação de símbolos de força.

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Tudo reproduzido pelos fanáticos seguidores do ex-capitão brasileiro. A “marcha do Rio” foi uma exibição chauvinista de força que reproduz esse imaginário. O presidente fica eufórico toda vez que é chamado de “Mito”. Quem criou esse signo foi Goebbels, para Hitler, que usava o epíteto “Der Fuhrer”, assim como Mussolini era aclamado como “Il Duce” (nos dois casos o significado é de “o guia”). Mensagens como essas são simples e poderosas para cativar as massas e apelam à emoção, como ensinou a máquina de propaganda nazista, desenvolvida por Goebbels. Os nazistas criaram o conceito moderno de propaganda ideológica e doutrinação política por meio das novas tecnologias (rádio, cinema), usando a liturgia militar. Seus signos são copiados pelos movimentos extremistas nos EUA, onde os supremacistas defendem a superioridade da raça branca e promovem desfiles (adotam o gesto que o assessor de Bolsonaro, Filipe Martins, fez no Congresso). Parte desse repertório já tinha sido usado no Brasil nos anos 1930, quando os integralistas inventaram uma suástica nacional e até uma saudação (“anauê”, versão de “Heil Hitler”). E também por Getúlio Vargas, cujo populismo (assim como o peronismo na Argentina) também era fundado no culto ao líder. Vargas criou um departamento de censura e propaganda seguindo o modelo de Goebbels e escreveu a Constituição de 1937 inspirada no fascismo. Assim como Bolsonaro, Vargas também rejeitava “as elites”. Bolsonaro também é um populista que pretende governar nos braços da povo, ignorando o Congresso. Tenta adaptar a estética totalitária para os tempos modernos e a realidade brasileira. É uma cópia bisonha.

GOEBBELS CAIPIRA O ex-secretário de Cultura Roberto Alvim copiou trechos de um discurso do chefe da propaganda nazista e até encenou a leitura seguindo a estética do assessor de Hitler (Crédito:Divulgação)

Princípio do medo

O recrutamento de ressentidos e supersticiosos, que não conseguem ser bem-sucedidos por meio das regras sociais, é outra características dos movimentos totalitários. Os autocratas manipulam as massas, substituindo os partidos políticos, e agem pelo princípio do medo, que anula a esfera política. Aproveitam momentos de instabilidade política e convulsão social, como a Primeira Guerra Mundial. Não é coincidência que a nova direita radical (“alt right”) tenha ascendido nos EUA após a crise financeira global de 2008, que frustrou a confiança da democracia representativa e as promessas de prosperidade que prevaleceram desde a Segunda Guerra. No Brasil, ainda há o cansaço com as promessas não realizadas pela democracia após o colapso do longo governo petista e de mais uma década perdida na economia, a segunda desde o fim do regime militar. Hannah Arendt, no clássico Origens do Totalitarismo, descreve como as ideologias totalitárias viraram dominantes e passaram a ser aceitas pela população. É um quadro distante do brasileiro. Bolsonaro não se filia a nenhuma ideologia, apenas extrai cacos de correntes de pensamento de forma oportunista. O “liberalismo” (que nunca defendeu) e “defesa das liberdades individuais” (cópia mal-ajambrada da Constituição americana) caminham ao lado da defesa da tortura e do populismo econômico que já fracassou há meio século.

Um bom exemplo desse bestiário ideológico foi dado pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que está no cargo para “apagar” a memória negra. Em posts recentes, diz que todos os comunistas são racistas e textos de Carlos Marighella “são como os escritos de Hitler”. Outro exemplo é o caótico discurso antiglobalização do ex-chanceler Ernesto Araújo, inspirado no ex-astrólogo Olavo de Carvalho. Representam um populismo tosco e contraditório que bebe nos movimentos radicais de direita e dificilmente vai se perpetuar no imaginário popular, mesmo que Bolsonaro consiga uma transformação econômica de fôlego que não está no horizonte por sua própria incompetência.

No momento, as pesquisas de opinião cravam o apoio de um terço do eleitorado para Bolsonaro. No Congresso, é predominante a opinião de que ele está em seu pior momento, com a crise da pandemia e a CPI da Covid. Mas isso não impedirá sua ascensão, se a marcha autoritária não for contida. Ele já dá as cartas em órgãos que deveriam se manter independentes, como a PF e a Procuradoria-Geral da República. Cresce a influência bolsonarista sobre as PMs. O presidente elegeu aliados para a cúpula da Câmara e do Senado, mesmo sem ter maioria parlamentar. A facilidade com que ele tem superado os obstáculos institucionais e avançado entre as brechas generosas da democracia, para atacá-la por dentro, é surpreendente. A história acontece como tragédia e se repete como farsa, já escreveu Marx. Quem vê os novos extremistas como ecos de um passado distante não deveria ignorar que estão presentes atualmente em várias partes do mundo.

É necessário abordar esse risco. Na CPI da Covid, o relator Renan Calheiros comparou as vítimas da pandemia ao genocídio nazista e causou indignação à base governista. A Confederação Israelita do Brasil disse repudiar “comparações completamente indevidas do momento atual”. Mas o historiador Michel Gherman, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ, pensa diferente. “O bolsonarismo está cheio de estética do nazismo. Desde a década de 90 Bolsonaro mostra que tem Adolf Hitler como uma referência fundamentadora da sua ideologia. O famoso discurso dos ‘30 mil que têm que morrer’, quando chega a dizer que mataria Fernando Henrique, veio numa onda de defesa do direito dos estudantes homenagearem em prova de vestibular o ditador nazista”, diz. Gherman também lembra uma entrevista de 2012, em que Bolsonaro cita muitas vezes o escritor britânico David Irving, um dos mais famosos negacionistas do Holocausto. “Bolsonaro usa o mesmo tipo de discurso. Ainda diz que Hitler é um excelente general. Diz que o admira.” O historiador ressalta que Bolsonaro usa a narrativa negacionista com frequência ao tratar da Covid. “Usa o mesmo discurso. Volta e meia copia e muda o objeto. Diz: vão aos hospitais e vejam que não há mortos. Cria imagens fortes com gente invadindo hospitais e tirando fotos para transmitir medo.”

Mentira normalizada

O que preocupa é a aceitação crescente do autoritarismo. Bolsonaro já normalizou a mentira na CPI, transformada até em política de Estado. O Exército aos poucos cede à cooptação de generais, como se viu na última transgressão de Pazuello. Está armando a população. Em sua mais recente investida, avisou que não aceitará o resultado eleitoral de 2022, a menos que seja adotado o voto impresso, por “medo de fraudes”. É uma falácia. Não há nenhuma dúvida razoável sobre o processo eletrônico. Trata-se apenas de uma forma de deslegitimar um pleito que Bolsonaro vê cada vez mais desfavorável à sua reeleição. O Congresso parece ceder a esse discurso ameaçador para “pacificar” o ambiente, mas o risco é justamente alimentar a escalada antidemocrática. “Se concedermos, não haverá Judiciário amanhã”, alertou o ministro Edson Fachin.

O livro Eichmann em Jerusalém foi citado por Alessandro Vieira na CPI, ao falar da atitude de obediência cega do ex-ministro Eduardo Pazuello às ordens de Bolsonaro. Nessa obra vital, Hanna Arendt mostra que a máquina de extermínio nazista não era formada por “monstros”. A burocracia era composta por seres ordinários e ignorantes, que tinham vidas prosaicas e se orgulhavam de cumprir com diligência as ordens do líder, por mais horripilantes e desumanas que elas fossem. É a banalização do mal. O senador acerta, portanto, ao comparar o “um manda, o outro obedece” do general a ações que podem ter causado a morte de milhares de pessoas. Nessa obra, a filósofa política alemã também demonstra que as comunidades europeias que foram mais reverentes e aceitaram as regras impostas pelos nazistas acabaram sofrendo os maiores extermínios. São exemplos duros do passado. No Brasil, a história ainda está sendo escrita, mas o País parece legitimar a impostura de Bolsonaro, que já em 1999 declarou com todas as letras que daria um golpe de Estado se virasse presidente. Ninguém ouviu. Ele está conseguindo?

Colaborou Eudes Lima