O pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) tem dado acenos que fogem do comportamento típico de políticos de direita e, principalmente, da conduta clássica da família Bolsonaro. Nos últimos dias, o senador defendeu causas relacionadas à luta antirracista, à pauta LGBTQIAP+ e enalteceu a comemoração do Carnaval – discursos comumente associados ao campo progressista.
Nesta sexta-feira, 20, Flávio adicionou mais uma camada a essa ‘nova persona’. Em suas redes sociais, enalteceu o trabalho da pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ, e defendeu investimentos em ciência e tecnologia para o avanço da polilamina — substância promissora no tratamento de lesões medulares.
Uma brasileira fez o que o mundo dizia ser impossível.
25 anos de pesquisa. Recursos escassos. E mesmo assim, a Dra. Tatiana Sampaio criou a polilaminina o primeiro tratamento capaz de regenerar a medula espinhal.
O Brasil não precisa importar milagre. O milagre é nosso.
O que… pic.twitter.com/c1p7n8ROyg— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) February 20, 2026
A estratégia de distanciamento, que tem se intensificado, não é assim tão nova. Em dezembro, Flávio já havia admitdo ter tomado duas doses da vacina contra a Covid-19, diferentemente de seu pai, que fez da recusa ao imunizante uma de suas bandeiras de honra.
Assim que foi anunciado que seria o candidato da oposição nas eleições de 2026, Flávio apresentou-se como um nome capaz de dar continuidade ao legado do pai e, ao mesmo tempo, conquistar eleitorados mais amplos do que a bolha de Jair Bolsonaro (PL). Segundo explicou o cientista político da Universidade Mackenzie Rodrigo Prando à IstoÉ, o “filho 01” sempre foi considerado uma “figura mais moderada dentro da família, com bom trânsito político em inúmeras alas e inúmeros partidos do espectro ideológico”.
Apesar do esforço de reposicionamento, o sobrenome Bolsonaro segue sendo seu maior ativo e, simultaneamente, seu principal teto. Para o eleitorado independente — aquele que não reza pela cartilha da polarização —, a figura de Flávio ainda aparece indissociável das bandeiras mais radicais do pai e do núcleo duro do bolsonarismo.
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Flávio e as ‘pautas progressistas’
Carnaval
Após a realização do Carnaval, Flávio fez publicações em homenagem à festa e enalteceu a cultura brasileira. Em vídeo, ele mencionou a Marquês de Sapucaí no Rio, o sambódromo do Anhembi em São Paulo, o Galo da Madrugada em Recife (PE) e os blocos de rua da Bahia, Minas Gerais e de “tantos outros lugares tomadas de gente”.
Na legenda, o senador escreveu que tem “muito orgulho do Brasil, da nossa força criativa e da nossa fé! Vivemos em um País maravilhoso e abençoado por Deus!”.
Eu tenho muito orgulho do Brasil, da nossa força criativa e da nossa fé! Vivemos em um País maravilhoso e abençoado por Deus! pic.twitter.com/z3freY0iCO
— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) February 18, 2026
Em outro post, Flávio usou o tema do Carnaval para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – que foi homenageado pela escola Acadêmicos de Niterói. Ele disse que a festividade é “cultura, é tradição e merece respeito. O que não dá para aceitar é usar dinheiro público para atacar a fé de milhões de brasileiros enquanto políticos aplaudem de camarote”.
Antirracismo
Na quarta-feira, 18, Flávio comentou o caso de racismo sofrido pelo jogador Vinícius Jr. Na ocasião, o atleta foi chamado de “macaco” por um adversário, o que causou revolta na comunidade esportiva e levou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se manifestar em apoio ao brasileiro.
O senador usou a publicação da CBF para defender Vini jr. e condenar atitudes racistas. “Não podemos nos calar e deixar o racismo silenciar um dos maiores talentos do nosso futebol. Vini, você tem todo o nosso apoio. O Brasil está do seu lado!”, escreveu.
Não é de hoje que @vinijr tem sofrido ataques desse tipo, tanto nos gramados quanto fora dele. Não podemos nos calar e deixar o racismo silenciar um dos maiores talentos do nosso futebol. Vini, você tem todo o nosso apoio. O Brasil está do seu lado! https://t.co/uUUKf5nyrU
— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) February 18, 2026
Comunidade LGBTQIAP+
Em um aceno quase inédito por parte do clã Bolsonaro, Flávio endossou a defesa à comunidade LGBTQIAP+. A sinalização aconteceu a partir de uma publicação feita pelo pré-candidato a deputado federal Joãozinho da Baixada, que se apresenta como um “gay de direita”.
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O post veicula uma imagem gerada por inteligência artificial de João dando um beijo no rosto de Flávio, indicando que o senador “apoia a liberdade de todos”. “Vocês já ouviram alguma fala homofóbica de Flávio?”, questiona. Em apoio à publicação, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL) marcou os irmãos Carlos, Jair Renan e Flávio.
Flávio, por sua vez, endossou os comentários de Eduardo curtindo as publicações em que foi mencionado.
🌈@bolsonaro__jr pic.twitter.com/YEWFxnzHEJ
— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) February 19, 2026
Conquista do eleitorado ‘indeciso’
Com a prisão de Jair, o grupo perdeu força, e agora luta para recuperar parte da credibilidade que ficou pelo caminho. O comportamento de Flávio tem surpreendido até parte da direita, que, pelo menos em um primeiro momento, se vê optando pelo cálculo estratégico em detrimento do fervor ideológico para definir seu futuro nas urnas
Flávio é visto como um nome menos carismático, porém mais moderado do que o pai. O cientista político Rodrigo Prando lembra que “a vitória do Lula foi muito apertada”, decidida principalmente pelos eleitores independentes e chamados “indecisos”. Dessa forma, o especialista acredita que os recentes acenos progressistas do pré-candidato sejam “uma estratégia eleitoral muito clara”, uma vez que durante sua carreira política, Flávio nunca havia feito “uma discussão ou até mesmo uma defesa dessas pautas.”
“Me parece que a estratégia – aquilo que no marketing político chama-se de ‘vacina’ – é se apresentar como alguém distante do bolsonarismo radical.”, finalizou Prando.