Em Cartaz

Como Clarice plagiava a si mesma

Volume reúne todas as crônicas da autora e mostra que ela reaproveitava seus textos, da cópia à adaptação

Crédito: Folhapress

CRONISTA Clarice Lispector em 1975, no lançamento da coletânea de crônicas “Brasília: Esplendor”: infidelidade ao gênero (Crédito: Folhapress)

Todas as Crônicas” (editora Rocco) reúne pela primeira vez todas as crônicas de Clarice Lispector (1920-1977), publicadas em jornais e revistas entre 1946 e duas semanas antes de morrer. São 525 textos, 120 inéditos em livro, estabelecidos pelo editor Pedro Karp Vasquez. Vasquez afirma que o trabalho foi desafiador. “Tudo o que se refere a Clarice foge ao normal”, diz. Como tudo que escreveu, suas crônicas são imprevisíveis. Costumava transformá-las em contos e vice-versa, num processo infinito de reciclagem. Aproveitava trechos de crônicas para contos e passagens de romances. Também trocava os títulos do mesmo texto para publicá-los em épocas e veículos diferentes. Muitas vezes plagiava a si mesma, e reciclava um conto em crônica. “Seus temas não seguiam a fórmula da descrição do cotidiano criada por Rubem Braga, fundador da crônica moderna, a quem considerava seu mestre”, diz Vasquez. Ela preferia mergulhar nos sentimentos e no inconsciente e o resultado eram narrativas que não se enquadravam em um gênero. “O desrespeito às regras é que tornam perenes as crônicas de Clarice”, afirma Vasquez. “Eles nunca são o que parecem.”