Como brigadas reduziram incêndios em terras indígenas

Como brigadas reduziram incêndios em terras indígenas

"BrigadasEm 10 anos, programa que alia ciência e saberes tradicionais reduziu em 35% focos de calor em relação a áreas sem brigadistas. Pesquisadores defendem ampliar a cobertura.Em muitos lugares do Brasil, indígenas estão ateando fogo em suas terras. Embora pareça contraditório, ajudam a reduzir incêndios florestais. Isso porque a queima prescrita, realizada no momento e local corretos, é alinhada à ciência e aos saberes tradicionais. Um artigo científico de novembro de 2025 mostrou que essa política pública tem sido eficaz na proteção dos territórios e apontou desafios para seu aprimoramento.

Publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications , o estudo avaliou os dez primeiros anos do Programa de Brigadas Federais (BRIFs) nas Terras Indígenas (TIs). Analisou as áreas com e sem brigadas em 42 territórios, englobando 25 milhões de hectares na Amazônia e no Cerrado .

Comparando com a década anterior, a pesquisa mostrou que o manejo integrado do fogo permitiu uma redução de 22,7% nos focos de calor em áreas com brigadas, contrastando com o aumento de 12,3% nos territórios sem o programa. No total, a diferença acumulada foi de 35% entre os grupos.

O programa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) completou dez anos em 2023. É coordenado pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) e conta com a parceria da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

"Em um mundo onde há tanta notícia ruim em relação à proteção ambiental e ao controle de incêndios florestais, temos uma notícia boa, uma política pública eficiente. É um programa contínuo e que está dando bons resultados a longo prazo, mesmo diante do agravamento da situação climática", pontua Rodrigo de Moraes Falleiro, primeiro autor do estudo.

"O conhecimento dos indígenas é importante, principalmente no uso do fogo. Há um respeito com a autogestão dessas comunidades, e isso é um princípio básico que deveria ser incorporado a todas as políticas de controle de incêndios florestais no mundo", afirma Falleiro, que trabalha há 24 anos com o tema e é analista ambiental da Coordenação Geral de Manejo Integrado do Fogo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Com custo anual de 1,02 dólar por hectare (R$ 5,29), o programa é apontado pelos cientistas como um modelo viável para outros países tropicais. Mas há desafios pela frente, sobretudo em um cenário de mudanças climáticas.

Os pesquisadores sugeriram a ampliação do programa, que cobria apenas 23,1% da área das TIs em 2023. Indígenas ouvidos pela DW também criticaram os contratos temporários de seis meses, que não permitem uma atuação ainda mais preventiva antes da época de incêndios.

Contratos de seis meses

No primeiro curso como brigadista, em 2016, Traiú Assalu Mehinaco ouviu do instrutor do Prevfogo que incêndios florestais poderiam levar meses para serem extintos. "Eu, novato, falei: 'Eu apago esse fogo em meia hora.'" Naquele ano, passou dois meses apagando um incêndio no Parque Indígena Xingu, no Mato Grosso.

Foi um aprendizado, disse o indígena de 30 anos. Atualmente, ele é Supervisor Estadual de Brigadas do Xingu, que conta com mais de cem profissionais. "Ser brigadista é um pouco de tudo para mim. Mas eu acho que a função precisa ser valorizada, regulamentada. Ninguém sabe que existe brigadista aqui no Brasil."

O território indígena do Xingu tem cerca de 2,6 milhões de hectares e abrange áreas do Cerrado e da Amazônia. A temporada seca ocorre entre junho e novembro, período em que são contratados os brigadistas de forma temporária. "No início do contrato, conseguimos fazer conscientização, porque a vegetação ainda está secando. Mas é muito pouco."

Lindomar Iuxi Pacuare, 38 anos, chefe da Brigada Bakairi, também no Mato Grosso, também vê os contratos temporários como insuficientes. "No ano passado ficamos sabendo que outros estados conseguiram contratos de dois anos, mas a gente não sabe porque no Mato Grosso não chegou."

Até por isso, os indígenas criaram a Associação dos Brigadistas Indígenas Kurâ Bakairi (ABIK), com o objetivo de obter recursos para atuar fora da época de seca, que costuma ser entre maio e outubro. Nos meses em que não recebe como brigadista, ele trabalha voluntariamente pela associação ou atua como diarista nas aldeias ou em fazendas próximas.

O Ibama começou a contratar brigadistas por dois anos, mas a prática ainda não atingiu todos os contratos. A DW questionou o instituto a esse respeito e sobre a área das TIs cobertas por brigadas, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

Fogo zero x manejo integrado do fogo

O Brasil, assim como outros países, está mudando sua forma de lidar com o fogo. Principalmente a partir da década de 1960, o paradigma era fogo zero. "As avaliações mostraram que essa política não estava dando certo para combater os incêndios, e também estava gerando muitos conflitos com as comunidades", explicou Falleiro.

A criação do Programa de Brigadas Federais (BRIFs), em 2013, tornou-se um marco na direção do manejo integrado do fogo. Essa abordagem de gestão territorial integra saberes tradicionais, científicos e técnicos para planejar, executar e monitorar ações relacionadas ao uso do fogo.

Falleiro explica que, durante essa mudança, pesquisas em ecologia começaram a demonstrar que muitos ecossistemas, plantas e animais dependiam do fogo, principalmente no Cerrado. Em parques nacionais, por exemplo, a supressão do seu uso causava a perda da biodiversidade e acumulava combustível, gerando grandes incêndios na época seca.

Mas ainda havia um temor em usar a queima prescrita – o uso planejado e controlado do fogo. "O que a gente fez? Entrevistou centenas de anciões indígenas, pajés, lideranças, caciques, raizeiros, pessoas que conheciam como se usava o fogo antigamente, como se fazia esse manejo tradicional", conta Falleiro. Ao colocar em prática esse conhecimento, verificaram que a técnica funcionava.

Na Amazônia, a situação é diferente: a floresta é sensível ao fogo. Mas as comunidades tradicionais usavam-no para preparar suas roças, um importante elemento para a segurança alimentar.

"Ao invés de simplesmente proibir o uso do fogo nas roças, a gente também procurou compreender melhor como eles usavam, em que época eles queimavam", explica Falleiro. "A gente procurou conversar, fazer calendários de queima de roça e colocar os brigadistas lá para ajudar ou pelo menos dar um treinamento, para que fizessem essa roça de maneira mais segura."

Essa mudança de paradigma culminou com outro marco: em 2024, foi aprovada a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), estabelecendo diretrizes para o manejo sustentável, prevenção de incêndios, reconhecimento do papel ecológico do fogo e o respeito às práticas tradicionais.

Naquele ano, o Brasil viveu incêndios recordes, que causaram um rastro de destruição em Terras Indígenas. Embora o estudo não tenha analisado os dados daquele ano, os pesquisadores citaram uma nota técnica do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) que analisou aquele cenário. A diferença no número de focos de calor entre as áreas atendidas pelo programa BRIFs e as áreas não atendidas aumentou drasticamente, chegando a 435,7%.

Fogo amigo e fogo inimigo

Quando se tornou brigadista contratado pelo Prevfogo, em 2014, Lindomar Iuxi Pacuare começou a se dar conta dos perigos do fogo. "Nos períodos críticos que tem fogo, a fumaça traz doenças , causa problemas para a respiração de crianças e idosos. É muito ruim para nossa saúde."

Para o indígena, mesmo com as dificuldades, ele se sente um defensor do meio ambiente. "É uma gratificação muito grande em participar da brigada, principalmente da nossa terra indígena. É uma maneira de contribuir com o meio ambiente, com os animais e com a saúde."

Traiú Assalu Mehinaco, da TI Xingu, também mudou sua forma de ver o fenômeno. Hoje, ele considera que o fogo pode ser um aliado. "A queima prescrita é o fogo amigo. Você controla, ele trabalha para você. A partir do momento que virou incêndio florestal, vira inimigo."