Comportamento

Como as vítimas do Vesúvio morreram

Vinte e um séculos após a erupção do mais temido vulcão da Europa, estudos inéditos revelam que o calor extremo vitrificou o cérebro de pelo menos uma vítima e gerou “estufas humanas” em Herculano

Crédito: Gianni Cipriano/The New York Times/Fotoarena)

PESQUISAS Ossadas de habitantes da cidade italiana de Herculano: mortes aconteceram pelo calor extremo e por asfixia (Crédito: Gianni Cipriano/The New York Times/Fotoarena))

Poucas catástrofes naturais marcaram tanto a história da civilização Ocidental e a arqueologia moderna como a erupção do vulcão Vesúvio, no sul da Itália. Na noite de 24 de agosto do ano 79, duas cidades – Pompeia e Herculano – foram totalmente destruídas, e seus habitantes, dizimados por fumaça tóxica a uma temperatura que oscilou entre 300oC e 700oC. Estima-se que 16 mil pessoas sucumbiram e restaram, de algumas dels, as estátuas moldadas em gesso de corpos contorcidos e rostos com expressões desesperadas. Desde que começaram as escavações na região, já foram encontrados restos mortais de mais de mil pessoas. O Vesúvio expeliu seus gases letais a uma altura de 30 Km e as duas cidades foram consumidas pelos fluxos piroclásticos, nuvens de rochas, cinzas e fumaça densa e quente que se seguem à erupção e destroem tudo por onde passam. Pompeia, a 25 Km de distância, recebeu dois desses fluxos, que queimaram e mataram seus habitantes por asfixia. Herculano, a 10 Km, sofreu mais e foi soterrada por uma cinza fina e por outros resíduos piroclásticos. Discute-se como exatamente as pessoas morreram, se morreram mais ou menos rápido e porque seus corpos ficaram como ficaram. Por que algumas vítimas tiveram o corpo encapsulado?

Novos estudos acadêmicos avançam nessas indagações e levantam hipóteses sobre outras conseqüências da catástrofe. Uma das pesquisas foi desenvolvida pela Universidade Federico II, em Nápoles, e analisou fragmentos de um material negro e envidraçado encontrado no crânio de um corpo mumificado. De acordo com o trabalho, o rápido aquecimento do encéfalo causou a vitrificação do cérebro de um homem que estima-se que deveria ter à época 20 anos de idade. O antropólogo Píer Paolo Petrone, coordenador do estudo, afirma que “é a primeira vez que encontramos restos de cérebro humano vitrificados pelo calor”. Foi detectado material envidraçado e resíduos de ácidos graxos na cabeça da vítima.

Implacável destino

Outro trabalho, esse da Universidade de Teesside, na Inglaterra, questiona a hipótese de vaporização vulcânica como causa da morte dos habitantes de Herculano. Expelida a lava, cerca de 300 pessoas conseguiram abrigo em casas de pedra, conhecidas como “fornici”. Ao analisar os restos mortais dos cadáveres, os cientistas concluíram que eles não foram expostos a temperaturas tão altas e que as mortes, na verdade, ocorreram devido à fumaça do fluxo piroclástico. Testes mediram as microestruturas de cristal e a quantidade de colágeno nos ossos de 152 corpos. Os padrões esqueléticos não correspondem aos parâmetros esperados de temperaturas entre 300oC e 500oC. O cientista Tim Thompson crê que as casas de pedra protegeram os habitantes. Ao mesmo tempo, no entanto, os abrigos se tornaram “estufas humanas”, já que o fluxo piroclástico fechou a saída das casas. Ou seja: a todos, aos que tentaram fugir e aos que se abrigaram, o Vesúvio definiu um implacável destino.