Como a oposição a Trump se organiza nos Estados Unidos

AFP
Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders energizam oposição de Trump Foto: AFP

Não é de hoje que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acumula desafetos na vida política. Seja no âmbito internacional ou interno, as deliberações radicais do republicano ressoam negativamente sobre as relações americanas — com taxações mútuas e queda no índice de aprovação.

Apesar disso, desde que Trump voltou ao comando executivo do país, a oposição permaneceu adormecida e os democratas não articularam grandes movimentações contra suas medidas.

Enquanto os primeiros momentos do mandato registraram pouca contraposição, os meses seguintes projetam um novo fôlego para os críticos de Donald Trump. Representada por figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, a oposição se organiza mais uma vez e já reúne milhares de apoiadores em diferentes estados dos EUA.

Tropas nas ruas

Desde que retornou à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump tem reforçado uma estratégia que ficou conhecida como “dominar a narrativa”. Anúncios, promessas e excessos do presidente americano pautam o noticiário, os aliados e a oposição a seu governo desde o discurso de posse, em 20 de janeiro. No Capitólio, Trump subiu ao púlpito para reproduzir as promessas mais radicais de campanha – do reconhecimento de apenas dois gêneros à deportação em massa de imigrantes ilegais —, agora como compromissos de mandato.

Nas semanas seguintes, o presidente assinou dezenas de decretos presidenciais que retiraram os EUA de acordos multilaterais e instituições globais, reduziu investimentos públicos em áreas como saúde e educação e implementou uma dura política tarifária para se impor sobre outras nações na guerra comercial.

Como a oposição a Trump se organiza nos Estados Unidos

O presidente dos EUA, Donald Trump, segura decreto das tarifas na Casa Branca em Washington, D.C., EUA

A estratégia reduziu os espaços da oposição. Derrotada por Trump nas eleições de 2024, a ex-vice-presidente Kamala Harris evita falar. No Legislativo, a maioria barulhenta republicana dá aval ao Executivo, enquanto políticos da ala tradicional da legenda — pouco simpática ao presidente — praticamente desapareceram. O único foco de resistência aos arroubos do político foi protagonizado pelo Judiciário. O cenário desenhado dava a Trump um mandato com menos resistências do que seu primeiro, entre 2017 e 2020.

Sinais de virada

Apesar de uma oposição inicialmente ociosa no âmbito parlamentar, uma grande parcela da população americana acumula insatisfação em relação às medidas radicais de Donald Trump. As posições polêmicas do republicano, especialmente no atual mandato, têm criado desavenças econômicas por meio de guerras tarifárias e protecionismo excessivo.

Esse cenário de desconforto monetário foi capaz de afastar não apenas os parceiros internacionais, mas também os internos. Mesmo com uma fração significativa de cidadãos à extrema direita, eleitores mais moderados e independentes têm encarado com desconfiança as novas providências do presidente. Um levantamento da Reuters/Ipsos publicado na última quarta-feira, 2, mostrou que o índice de aprovação do governo Trump caiu para 43% – o mais baixo desde seu retorno ao cargo.

Em resposta estratégica ao cenário desenhado, o senador do estado de Vermont Bernie Sanders e a congressista de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez começaram a oficializar as mobilizações, criando a turnê “Contra a Oligarquia” (Fighting Oligarchy, no original) – iniciada em março de 2025.

Na jornada, os dois políticos focaram em estados-chave, como Colorado, Arizona, Iowa e Wisconsin, locais em que a extrema-direita consolidou vitórias apertadas, com um bom número de eleitores pendulares.

Como resultado, os comícios de Ocasio-Cortez e Sanders atraíram milhares de apoiadores para as ruas. O senador de Vermont já é um rosto conhecido da política americana e, apesar de ser independente no quesito partidário, sempre foi associado à esquerda do país.

“Este movimento não é sobre rótulos partidários ou testes de pureza. É sobre solidariedade de classe”, disse Ocasio-Cortez em um dos eventos.

Na passagem por Denver, eles reuniram mais de 30 mil espectadores e discursaram sobre pautas já defendidas anteriormente: Medicare para todos, redução dos preços de medicamentos, taxação dos ricos, faculdade pública gratuita, aumento do salário mínimo.

Como a oposição a Trump se organiza nos Estados Unidos

Senador norte-americano Bernie Sanders

“Não, não aceitaremos uma forma oligárquica de sociedade em que um punhado de bilionários comanda o governo”, declarou Bernie Sanders durante o comício de North Las Vegas.

Novo fôlego

As agitações da oposição têm mostrado resultado também dentro do Poder Legislativo. Na última terça, 1º, o senador democrata Cory Booker passou 25 horas ininterruptas discursando contra as “ações inconstitucionais” do presidente.

A maratona de Booker não impede o Partido Republicano, que tem maioria no Senado, de realizar votações. Mas, assim como os comícios de Sanders e Ocasio-Cortez, estimula os democratas a adotarem posturas mais fortes.

Por meio dessas manifestações, os democratas retomam, aos poucos, seu lugar de oposição e apresentam uma possibilidade aos eleitores que se sentem abandonados. Analistas internacionais enxergam o novo fôlego tomado pela ala progressista como um movimento de “reenergização”.