A emergência climática está silenciosamente remodelando os caminhos de prevenção e tratamento ao vírus da imunodeficiência humana, o HIV. Um estudo recente, publicado na revista Current Opinions in Infectious Diseases, sugere que a ocorrência de eventos climáticos extremos tem aumentado a vulnerabilidade da população ao patógeno causador da aids e agravado as condições de saúde de quem já convive com o vírus.
A partir da revisão de 22 pesquisas conduzidas entre 2022 e 2024, os autores, vinculados a diferentes instituições no Canadá, observaram que a seca prolongada e a escassez de água destacam-se entre os fenômenos de maior impacto na prevenção à infecção pelo HIV. Em diversas regiões dos Estados Unidos e do continente africano, houve diminuição na testagem para o vírus e aumento nos comportamentos de risco, como o sexo transacional (troca de sexo por dinheiro, favores ou bens materiais) e as relações sexuais sem preservativo.
O trabalho também conclui que chuvas intensas e enchentes ampliam os riscos de um indivíduo se infectar. “Isso ocorre porque a destruição de uma região gera maior dificuldade de acesso às estruturas de saúde para tratamento e diagnóstico”, analisa a infectologista Fernanda Pedrosa Torres, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Além disso, existe um desvio de força para estratégias de manejo da tragédia que, por vezes, deixa de lado as medidas de prevenção.”
Embora o impacto desses fenômenos possa ser mais sentido em países subdesenvolvidos, eles também ocorrem em regiões consideradas em desenvolvimento ou já desenvolvidas. “No Brasil, existem alguns trabalhos que associam o aumento na notificação do HIV à seca na região Nordeste e às inundações no Rio Grande do Sul, por exemplo”, pontua Torres.
Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado em junho na Revista Gaúcha de Enfermagem, aponta que as chuvas de 2024 em Porto Alegre impactaram a continuidade do uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV. Enquanto certos usuários recorreram a estratégias improvisadas, como comprar PrEP em farmácias comerciais ou receber doações, outros simplesmente suspenderam o tratamento por não conseguirem chegar aos serviços de saúde.
Efeitos individuais e coletivos
As consequências da crise climática são tanto individuais quanto estruturais. Danos a unidades de saúde, falta de transporte, deslocamentos forçados e esgotamento das equipes médicas configuram um ciclo de vulnerabilidade que enfraquece o cuidado contínuo.
A pesquisa canadense relaciona a seca a uma menor adesão ao tratamento antirretroviral (TARV), além de interrupções no acompanhamento clínico e piora nos indicadores de saúde — sobretudo na carga viral e na contagem de CD4, glóbulos brancos que indicam imunossupressão. A falta de água e comida dificulta tomar remédios corretamente, aumenta quadros de desidratação, amplia a janela para o desenvolvimento de infecções oportunistas e provoca migrações que dificultam visitas regulares aos serviços de saúde.
No caso de desastres súbitos, como furacões, tempestades severas e incêndios florestais, pode haver interrupções abruptas em serviços, fechamento de clínicas, perda de estoques de medicamentos e falhas nas cadeias de distribuição. Além disso, há riscos adicionais de estresse pós-traumático, depressão e medo de revelar o status sorológico durante deslocamentos e abrigamentos emergenciais.
“Quando o paciente interrompe o uso de medicação ou perde acesso às clínicas médicas, ele pode ter prejuízos em seu tratamento”, frisa a infectologista. “Na prática, isso significa que uma pessoa que estava com uma carga viral indetectável pode começar a apresentar crescimento na quantidade do vírus em seu sangue e, com isso, sofrer com a destruição dos seus linfócitos, levando a um maior risco de desenvolvimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (aids).”
Perda global de recursos
O cenário de emergência climática pode ser agravado por fatores financeiros, segundo alerta um relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Unaids) lançado em novembro. A preocupação se deve à suspensão do Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o alívio da Aids (PEPFAR) anunciada no início de 2025 pelo governo de Donald Trump. O programa era responsável por 75% do financiamento global ao combate à epidemia de HIV.
O problema é que muitos países que dependem dessa ajuda externa enfrentam desafios agravados pelos impactos climáticos. Estima-se que só a adaptação aos efeitos das alterações climáticas deverá custar cerca de US$ 387 bilhões por ano aos cofres mundiais, reduzindo drasticamente o espaço fiscal alocado para a saúde e colocando a resposta ao HIV em risco direto.
No curto prazo, a falta desses recursos já levou ao fechamento de clínicas, à dispensa de centenas de milhares de profissionais de saúde, à ruptura de cadeias de suprimento e à escassez de medicamentos essenciais na África Subsaariana, em países como Quênia, Zâmbia, Uganda, República Democrática do Congo e Etiópia. A suspensão afetou também a capacidade de monitorar a epidemia, já que muitas equipes de gestão de dados dependiam do financiamento para atuar.
Esses efeitos foram igualmente devastadores para organizações comunitárias e serviços de prevenção. Programas para populações vulneráveis perderam quase todo o financiamento, levando a demissões, redução de atividades e encerramento de espaços de apoio. Aproximadamente 2,5 milhões de pessoas perderam acesso à PrEP no mundo, e países como Uganda, Vietnã, Ruanda, Camarões e África do Sul registraram quedas drásticas na cobertura de prevenção, incluindo entre gestantes vivendo com HIV.
Apesar disso, o relatório destaca esforços de resiliência, sobretudo no continente africano, onde os governos têm tentado aumentar o financiamento doméstico e fortalecer a produção regional de medicamentos. “Os serviços para HIV funcionam porque as comunidades lideram. Com as interrupções no financiamento internacional, em adição às mudanças climáticas, às desigualdades sociais e ao preconceito, vimos a lacuna de acesso ser ampliada”, relata Andrea Lilian Boccardi Vidarte, diretora e representante do Unaids no Brasil, em nota à Agência Einstein. “As pessoas mais vulneráveis ficaram para trás e existe o risco de haver 3,9 milhões de novas infecções por HIV se a solidariedade e o compromisso político não aumentarem nos países de baixa e média renda.”
Planejamento como resposta
Para a médica do Einstein Goiânia, a chave para frear o crescimento do HIV associado à crise climática está no planejamento de políticas públicas de saúde. “Já existem manuais de emergência voltados para algumas doenças agudas tipicamente relacionadas a eventos extremos, como a leptospirose, em situações de enchentes e inundações. No entanto, vale termos também grupos pensando em como manter as medidas de controle para infecções crônicas e sexualmente transmissíveis, como o HIV”, sugere Fernanda Torres.
Os autores do estudo canadense chegam à mesma conclusão. O artigo recomenda que o setor de saúde focado no HIV incorpore urgentemente o fator climático em suas estratégias. “Deve-se adotar estratégias que exijam menor necessidade de deslocamento das pessoas, como a telemedicina, as clínicas móveis e a descentralização dos postos de dispensação dos remédios”, exemplifica a infectologista.
Novos medicamentos também prometem não só melhorar a prevenção, mas ajudar em casos climáticos extremos. Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou o uso do cabotegravir como PrEP de administração bimestral. O método já pode ser encontrado no setor privado, mas ainda está em fase de avaliação para ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2025, foi anunciado o lenacapavir, outra PrEP injetável que prevê apenas duas aplicações ao ano, a cada seis meses. Esse segue sob análise de regulação pela Anvisa.
Fonte: Agência Einstein
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