Como a Coreia do Norte tenta erradicar igrejas clandestinas

Como a Coreia do Norte tenta erradicar igrejas clandestinas

"ExisteCom punições severas, regime clama vitória em "guerra" contra religião. Mas desertores e ativistas afirmam que o culto secreto persiste.A Coreia do Norte avança na repressão a igrejas clandestinas, acreditando tê-las "praticamente exterminado", segundo reportou o veículo de mídia dissidente DailyNK, com sede em Seul, a capital sul-coreana. Segundo o jornal, as autoridades do regime de Kim Jong-un, líder supremo do Norte, vêm se congratulando por colocar a religião sob seu controle.

No entanto, desertores e ativistas de direitos humanos disseram à DW que acreditam que ainda existem pequenos grupos e indivíduos que permanecem secretamente fiéis à sua fé.

"Eles têm sido alvo do regime, e muitas pessoas foram detidas, mas sabemos que ainda existem cristãos fervorosos que praticam sua fé em pequenos grupos ou individualmente", disse Song Young-Chae, ativista da Coalizão Mundial para Acabar com o Genocídio na Coreia do Norte, afirmando se basear nos depoimentos de pessoas que cruzaram neste ano a fronteira do Norte para o Sul.

Focos de resistência religiosa

Não há dúvida, entretanto, que os focos de resistência estejam sendo perseguidos.

O Artigo 68 da Constituição da Coreia do Norte garante a liberdade de crença religiosa. Mas, na verdade, o regime controla rigorosamente todas as atividades ligadas a igrejas, que enxerga como ameaças ao seu poder.

As crianças são ensinadas desde cedo a venerar as três gerações da família Kim, que governa a nação desde a sua fundação, em 1948.

Os cristãos são alvo de repressão devido à percepção de que estão ligados a influências ocidentais. Qualquer pessoa flagrada com uma Bíblia, rezando ou envolvida em qualquer forma de culto ilícito está sujeita a punições severas.

Fé tida como "antiestatal"

Uma pessoa religiosa é classificada como membro da "classe hostil", o que resulta em discriminação nas atribuições de trabalho, oportunidades educacionais, locais de moradia, entre outros.

A repressão à religião se intensificou desde a promulgação, em setembro de 2021, da Lei de Garantia da Educação da Juventude, que incluiu atividades religiosas na lista de ações totalmente proibidas para jovens.

"Não existe um departamento específico dedicado à repressão religiosa, mas os departamentos de contraespionagem classificam a atividade religiosa como um 'crime antiestatal' e a investigam por conta própria", afirmou uma fonte na Coreia do Norte citada pelo DailyNK. "Agências de segurança provinciais, municipais e distritais realizam repressões autônomas e, em particular, nas regiões de fronteira, por onde frequentemente entram informações externas."

Expostos ao mundo exterior

Há escrutínio adicional sobre pessoas que estudaram e trabalharam no exterior ou que tentaram fugir, mas foram repatriadas à força, disse a fonte. "Se forem flagradas praticando atividades religiosas após retornarem para casa, são imediatamente presas", com protestantes e católicos sendo enviados para campos de prisioneiros.

As alegações coincidem com relatórios de organizações beneficentes, como a cristã Christian Solidarity Worldwide, e de governos sobre direitos humanos. Em 2025, a Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional identificou a Coreia do Norte como "país de particular preocupação".

Descrevendo a Coreia do Norte como "um dos países que mais violam a liberdade religiosa no mundo em 2024", o relatório anual da comissão afirma que o regime de Pyongyang "trata a religião como ameaça existencial ao país", com os cristãos sendo vistos como "colaboradores das forças imperialistas e inimigos da nação e da revolução".

"Simplesmente possuir uma Bíblia, interagir com missionários cristãos ou participar de cultos religiosos pode levar a punições severas, incluindo tortura, trabalhos forçados, prisão e execução", diz o relatório.

Desafio silencioso

Eunju Kim fugiu do Norte com sua mãe na década de 1990 e agora é ativista da organização de reassentamento de refugiados HanVoice, em Seul. "Há uma igreja em Pyongyang, mas ela está lá apenas para que seja possível alegar (falsamente) que as pessoas são livres para praticar sua religião."

Mas ainda há quem opte por desafiar o regime silenciosamente. "Pessoas que vivenciaram a igreja e o cristianismo na China antes de serem repatriadas para a Coreia do Norte podem manter sua fé e crença em Deus, e algumas delas continuarão a praticar seus cultos. Elas farão isso em silêncio, sem que ninguém ao redor saiba", segundo Kim.

Em 2024, três missionários sul-coreanos capturados no Norte ainda estavam detidos após pelo menos uma década atrás das grades, segundo a comissão dos EUA.