Comédia do cotidiano

Comédia do cotidiano

Daniel Schenker Foto Divulgação Silvio Guindane acumula as funções de autor e diretor em Quanto Tempo da Vida eu Levo pra ser Feliz, texto em que procura traçar um retrato comportamental a partir do panorama descortinado por duas famílias interligadas pelo namoro dos jovens. Nessas famílias sobressaem as mães, mulheres estagnadas ? uma pela acomodação num casamento sem perspectivas, a outra pela eterna espera do marido que desapareceu anos antes. Em determinado momento, as jornadas delas são agitadas por um acontecimento que faz com que pelo menos uma desperte de um estado de torpor. Mas a dramaturgia de Silvio Guindane carece de solidez, tanto no que se refere à construção dos personagens (principalmente, a figura do pai) quanto ao levantamento de questões por parte dos jovens, numa reedição algo batida do contraste entre alienação e engajamento e também do descompasso entre discurso e atitude. Os problemas da peça afetam o espetáculo. Na direção, Guindane entrelaça no espaço os cotidianos das duas famílias e, em dado instante, se vale de projeções que causam uma interrupção no fluxo das cenas. Os atores procuram dar credibilidade a um texto de evidente fragilidade. Ana Lucia Torre revela apreciável domínio do humor em toda a sequência em que se esforça para escrever uma carta. Denise Weinberg busca dotar sua personagem de reações menos previsiveis, em especial nos embates com o filho. Isabel Guéron e Fernando Dolabella sucumbem diante da pouca veracidade de algumas passagens, como a da catarse provocada pelo consumo de drogas. Luiz Carlos de Moraes não tem muito o que fazer com as transições pouco críveis do pai. (14 anos) Cotação: ** Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil ? R. Primeiro de Março, 66, Rio, tel. (21) 3808-2020. Até 3/4.