Com Petrobras, Ibovespa resiste à geopolítica e sobe 0,28%, a 189,3 mil pontos

Pela exposição da B3 ao setor de energia, em especial às ações de Petrobras (ON +4,63%, PN +4,58%), o Ibovespa resistiu bem ao sacolejo geopolítico decorrente da aguda ação de EUA e Israel contra o Irã em que o objetivo declarado é derrubar o regime dos aiatolás e obliterar as capacidades nucleares e de mísseis do país – uma atuação militar direta que, segundo o presidente Donald Trump, pode durar quatro ou cinco semanas, e em que não se descarta, ainda, o recurso a “botas no terreno”, forças militares terrestres, o que certamente alongaria o conflito.

O efeito mais visível nesta segunda-feira, 2, se deu nos preços do petróleo, em alta acentuada desde a sessão asiática, ainda na noite de domingo no Hemisfério Ocidental – no fechamento de Londres e Nova York, os contratos futuros do Brent e do WTI mais líquidos mostravam, pela ordem, alta de 6,68% e 6,28%.

Na B3, o Ibovespa reagiu à tarde e lutou a princípio por leve ganho e, depois, acompanhando também a melhora em Nova York, chegou a mostrar um avanço mais consistente, de 0,70% na máxima do dia, no fim da tarde. Mas, muito correlacionado a Nova York ao longo da sessão, perdeu dinamismo no fechamento, em alta moderada a 0,28%, aos 189.307,02 pontos. O giro foi a R$ 31,7 bilhões.

Entre a mínima e a máxima, oscilou dos 186.637,98 até os 190.110,43 pontos, tendo saído de abertura aos 188.786,34 pontos. No ano, o índice da B3 sobe 17,49%. Em Nova York, no fechamento, Dow Jones -0,15%, S&P 500 +0,04% e Nasdaq +0,36%.

“A dinâmica segue o manual clássico de choque geopolítico. A intensificação dos ataques e o risco de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz elevaram fortemente os preços da commodity, pressionando expectativas de inflação global, reacendendo preocupações sobre a trajetória dos juros nas economias centrais”, diz João Duarte, sócio da ONE Investimentos. “No Brasil, a alta do dólar foi acompanhada pela abertura da curva de juros futuros e, a princípio também mas não no fechamento por queda do Ibovespa, ainda que ações ligadas ao petróleo tenham limitado as perdas do índice mesmo nos piores momentos.”

Dessa forma, na ponta ganhadora do Ibovespa, à exceção de B3 (+3,30%), destaque para as ações do setor de energia para além de Petrobras, com nomes como Prio (+5,12%), PetroReconcavo (+3,33%) e Brava (+2,84%), bem como para Raízen (+3,17%).

No lado oposto, Braskem (-3,55%), Multiplan (-3,10%), Marcopolo (-2,91%) e Usiminas (-2,40%). Entre as blue chips, Vale ON mostrava baixa de 0,35% no fechamento. Entre os maiores nomes do setor financeiro, destaque para a queda de 1,80% em Itaú PN, principal papel do segmento. No encerramento, Bradesco PN (+0,38%) e Santander (Unit +0,06%) conseguiram se descolar da correção dos maiores bancos, em fechamento neutro para Banco do Brasil ON, sem variação, e de leve perda para BTG (Unit -0,28%).

“No médio prazo, os riscos fiscais trazidos pelo conflito à economia americana, que já se encontra bastante endividada, tendem a reforçar a tese mais estrutural de debasement depreciação do dólar. Tudo, é claro, a depender da profundidade e duração do conflito”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos. O enfraquecimento da moeda americana tem sido, por sinal, um dos alicerces da rotação global de ativos, que favorece emergentes como o Brasil.

“No curto prazo, o comportamento do câmbio seguirá sensível a dois vetores principais: a evolução do conflito no Oriente Médio e a reação dos rendimentos dos Treasuries. Se o petróleo sustentar patamares elevados, o movimento pode deixar de ser apenas tático e ganhar contornos mais persistentes”, avalia Duarte, da ONE. No fechamento desta segunda, o dólar à vista mostrava alta de 0,62%, a R$ 5,1659.

“Em geral, períodos de guerra tendem a trazer inflação mais alta, crescimento mais fraco e forte imprevisibilidade, o que representa um desafio para bancos centrais que possuem mandatos duplos – como o Federal Reserve – ou balanceados entre atividade e inflação, como ocorre mais recentemente no caso brasileiro”, observa Pedro Cutolo, estrategista da ONE Wealth Management.

A extensão e duração do conflito, de fato, é a principal variável de incerteza no momento – nem as autoridades americanas parecem muito seguras de quanto tempo será necessário para alcançar o objetivo a que se propuseram. “Não quero que o conflito se prolongue por muito tempo. Sempre achei que seriam quatro semanas, e estamos um pouco adiantados em relação ao cronograma”, afirmou Trump em entrevista telefônica à CNN. “Ainda nem começamos a atingi-los com força. A grande onda ainda nem chegou. A grande onda está chegando em breve.”

Conforme o New York Post, Trump não descarta o envio de tropas ao Irã, “se necessário”. E disse acreditar que fez “a coisa certa” em relação ao ataque iniciado no sábado, que deveria ter sido feito “há muito tempo”. Mais cedo, em entrevista coletiva no Pentágono, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que os ataques não se resolverão “da noite para o dia”, uma vez que o campo de batalha é extenso. Ele acrescentou que o prazo de quatro a cinco semanas de ofensiva, fixado pelo presidente Donald Trump, pode mudar.

Em testemunho ao Parlamento britânico nesta segunda-feira, Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido – país que é o mais tradicional aliado dos EUA na Europa -, afirmou que a morte do Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, tende a tornar o regime persa ainda mais “implacável”, com chance de “ataques amplos no Oriente Médio, sem preocupação com mortes de civis”. Por sua vez, a maior instância de poder do Irã, a Guarda Revolucionária, afirmou nesta segunda que os Estados Unidos “não estarão a salvo em nenhum lugar do mundo, nem mesmo em seus próprios lares.”