Bashar al Assad, Nicolás Maduro e agora Ali Khamenei. Em menos de um ano e meio, Vladimir Putin perdeu vários aliados internacionais de importância sem que o Kremlin, mergulhado em sua guerra na Ucrânia, possa fazer grande coisa.
O presidente russo limitou-se, neste domingo (1º), a publicar uma carta para expressar suas condolências após o assassinato do líder supremo iraniano, “um homem de Estado fora do comum que ofereceu uma contribuição pessoal imensa ao desenvolvimento das relações de amizade entre Rússia e Irã”.
Embora tenha denunciado um ato de “violação cínico” da “moralidade e do direito internacional”, nem Putin nem as autoridades russas anunciaram oficialmente uma ajuda concreta a Teerã diante dos bombardeios americanos e israelenses em curso.
Em junho de 2025, ao responder a uma pergunta da AFP em uma coletiva de imprensa, Putin declarou que nem sequer queria “discutir” a possibilidade do assassinato de Khamenei.
No sábado, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, tomou a iniciativa, segundo Moscou, de telefonar a seu colega russo Sergei Lavrov, quando começaram os bombardeios.
– O ‘salvador’ fracassou –
Para o especialista russo Alexander Baunov, membro do centro Carnegie, a morte de Khamenei coloca o presidente russo em uma “situação difícil”.
Desde a reeleição de Donald Trump, Putin busca apaziguar o polêmico bilionário para conquistar o apoio dos Estados Unidos nas negociações sobre a guerra desencadeada na Ucrânia pelo ataque russo de 2022.
No início de janeiro, a captura americana do então presidente venezuelano Nicolás Maduro representou a perda de outro apoio importante da Rússia. E, naquela ocasião, o Kremlin também não pôde fazer nada.
“Duas vezes em dois meses Putin fracassou em cumprir seu papel de salvador”, ressaltou Baunov em sua conta no aplicativo de mensagens Telegram. Além disso, no caso de Khamenei, “o assassino é seu amigo Trump”, acrescentou o especialista.
Antes disso, o chefe do Kremlin pelo menos conseguiu proporcionar refúgio ao ex-dirigente ucraniano Viktor Yanukovich na Rússia, após a revolta europeísta de 2014. Dez anos depois, o sírio Bashar al Assad e sua família também fugiram para a Rússia após sua deposição na Síria.
– ‘Esfera de influência’ –
Ao contrário do caso de Maduro, a morte de Khamenei ocorreu em uma parte do mundo que a Rússia considera como seu “hemisfério”, estima Baunov.
O especialista compara este assassinato ao do líbio Muammar Kadafi, também aliado de Moscou, em 2011. Esse acontecimento marcou, segundo Baunov, “uma mudança na política russa” e um dos argumentos de Putin para “romper com o Ocidente”.
O Irã seguiu como um dos apoios e aliados mais próximos da Rússia ao longo da ofensiva lançada em 2022 pelo Kremlin na Ucrânia.
Kiev e os países do Ocidente acusam Teerã de abastecer a Rússia com armas e tecnologia militar, como drones Shahed, de concepção iraniana, que a Rússia produz agora maciçamente e utiliza diariamente para bombardear a Ucrânia.
Em 2025, Rússia e Irã também firmaram um tratado de associação estratégica para fortalecer suas relações, inclusive no campo militar.
Além da perda de um importante aliado como Khamenei, as consequências do conflito atual no Irã para a Rússia ainda são difíceis de avaliar.
O deputado russo Anatoly Wasserman, questionado pelo jornal MK.ru, considerou que, no curto prazo, a guerra poderia beneficiar Moscou se levar a um aumento dos preços do petróleo e, consequentemente, a um aumento das receitas para seu país.
No mais longo prazo, prevê “grandes problemas” para os Estados Unidos e Israel se as autoridades iranianas “resistirem” à campanha de bombardeios.
Por sua vez, a Ucrânia, compreensivelmente, saudou o assassinato do líder iraniano.
Para o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, sua morte mostra que a Rússia não é um “parceiro confiável, inclusive para quem conta muito” com Moscou, que perde influência por causa de sua “guerra insensata contra a Ucrânia”.
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