Com Du Moscovis, O Motociclista no Globo da Morte investiga a banalização da violência

Du Moscovis entra discretamente no palco e se senta em uma cadeira, surpreendendo o público que aguardava o apagar das luzes e os sinais sonoros que tradicionalmente anunciam o início da peça. Sem grande alarde, começa o monólogo O Motociclista no Globo da Morte, que chega a São Paulo, no Teatro Vivo, na sexta, 23, depois de uma temporada no Rio de Janeiro. Escrita por Leonardo Netto e dirigida por Rodrigo Portella, a peça busca entender a obscura gênese da violência.

Homem pacífico e racional, o matemático Antonio se envolve em uma espiral de violência quando almoçava no bar de sua preferência. Agora, sentado diante da plateia, ele dá sua versão sobre o ocorrido. “Antonio é um cara legal e ético, tanto que assume seu erro no primeiro momento, reforçando sua aversão a casos assim. Mas, no bar, ele acompanhava o incômodo falatório de outra pessoa até que um ato violento é o estopim de sua explosão”, conta Moscovis que, apesar do pouco entusiasmo para montar monólogos (esteve apenas em um, O Livro, em 2011), ficou empolgado com o texto de Leonardo Netto. “Era um instrumento para o que estou querendo falar atualmente.”

O dramaturgo conta que se inspirou depois de assistir inadvertidamente a um vídeo de uma situação real de extrema violência em uma rede social. “A espetacularização, a romantização e a banalização da violência, exacerbadas com a multiplicação de câmeras e da internet, talvez nos tornem mais insensíveis a ela”, acredita Netto que, à medida que escrevia, já imaginava Moscovis – com quem dividiu o palco em Corte Seco (2010) – como protagonista. Bastou uma leitura para o ator aceitar o convite, interessado especialmente no delicado tema da peça.

“As redes sociais ajudam a potencializar a violência por individualizar as ações e oferecer uma certa segurança para a pessoa ser agressiva. E o exercício de postar o tempo todo, de jogar nas redes sociais imagens do que está acontecendo, como acidentes, cenas de violência, catástrofes, faz com que tudo se torne pueril e, pior, se transforme em um espetáculo”, afirma Moscovis que, no primeiro dia de ensaio, foi questionado pelo diretor Rodrigo Portella se agiria da mesma forma que seu personagem.

Moscovis respondeu que, pelo histórico de seu trabalho e pela busca do que preza, certamente não agiria. “Mas isso não é uma garantia, o que me aproxima do personagem”, explica. “Ao estar em uma situação excepcional, posso tomar uma atitude contrária a tudo o que penso, contra tudo que critiquei. Dependendo da situação (se for um perigo iminente e envolvendo meus filhos) e do nível de estresse e de desgaste em que se está, não sei se deixaria de fazer.”

Para capturar a atenção do espectador e garantir a tensão da história ao longo do espetáculo, Portella optou por uma cena com poucos recursos, dispensando até mesmo os sinais que antecedem o início da peça. “Para mim, o espetáculo acontece na cabeça do espectador. Qualquer elemento concreto no palco seria uma distração para o mergulho para dentro da história”, afirma. “Moscovis cria uma relação profunda e íntima com o espectador o tempo inteiro, do início ao fim do espetáculo, a fim de enfatizar o aspecto comum desse acontecimento, que poderia acontecer com qualquer um de nós.”

Segundo Netto, escrever sobre a iminência de um desastre foi doloroso. “Muitas vezes, tive de parar”, conta ele, que define o título como uma metáfora àquele minuto em que a normalidade é derrubada pela tragédia. Globo da Morte é uma famosa atração circense na qual motociclistas realizam manobras radicais dentro de uma esfera metálica, desafiando a gravidade e a própria sobrevivência. “Assim como no globo da morte, nós vivemos tentando nos desviar da catástrofe o tempo inteiro.”

Ao longo da temporada carioca, Moscovis acostumou-se a conversar com espectadores após o espetáculo. “A maioria garantiu que teria a mesma reação do personagem, o que reforça a proximidade e a gravidade apresentada pela dramaturgia do nosso cotidiano”, conta o ator que, como também produtor da peça, decidiu atender a vários pedidos e acertou com a Editora Mesinha a publicação impressa de O Motociclista no Globo da Morte que, inicialmente será vendida apenas no Teatro Vivo (R$ 50) – logo o texto também estará disponível em versão online.

Moscovis alterna o monólogo com a gravação da novela Três Graças (Globo), na qual interpreta Rogério, personagem dado como morto e que reapareceu com desejos vingativos. Para o ator, o mais interessante é a ética de Rogério, incomodado com o fato de uma comunidade de poucos recursos receber medicamentos falsos. Ele também gravou Fúria, série da Netflix sobre artes marciais, e o filme Querido Mundo, de Miguel Falabella, que participou do Festival de Gramado, no ano passado.

Serviço

– Local: Teatro Vivo – Av. Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo/SP

– Temporada: de 23 de janeiro a 29 de março de 2026

– Horários: Sexta e Sábado, às 20h | Domingo, às 18h

– Classificação indicativa: 14 anos

– Duração: 60 minutos

– Capacidade: 274 lugares

– Bilheteria: (11) 3430-1524 (nos dias de peça, 2h antes da apresentação)

– Ingressos: 150,00 (inteira) | 75,00 (meia)