Comportamento

Com crise política em Hong Kong, Cathay Pacific vive clima de medo

Com crise política em Hong Kong, Cathay Pacific vive clima de medo

(12 ago) Check-in vazio da Cathay Pacific no aeroporto internacional de Hong Kong - AFP

Um clima de medo se instalou na companhia aérea de Hong Kong Cathay Pacific, envolvida na semana passada na crise política sem precedentes que atinge o território semiautônomo chinês, quando o governo de Pequim pressiona as empresas suspeitas de serem simpáticas ao movimento pró-democracia.

A Cathay Pacific despertou a cólera dos nacionalistas chineses na semana passada, após alguns de seus 27 mil funcionários participarem da greve organizada pelos manifestantes pró-democracia.

Os diretores da companhia aérea procuraram tranquilizar Pequim e se afastar dos protestos, garantindo que demitiriam todos funcionários que participarem, ou apoiarem “manifestações ilegais”.

A Cathay já rescindiu o contrato de dois pilotos e suspendeu um terceiro por suposto envolvimento nos protestos.

“A Cathay Pacific confirma que dois pilotos foram demitidos de acordo com as condições e termos de seus contratos”, informou a companhia nesta quarta-feira em um comunicado.

Swire Pacific, o principal acionista da Cathay, também publicou um comunicado, no qual afirma que “apoia firmemente” o governo de Hong Kong e compartilha a visão de Pequim.

De fato, alguns funcionários denunciaram que um clima de medo se instaurou neste grupo – no qual muitos temem ser espionados por colegas que tentam descobrir suas afinidades políticas.

– ‘Nos obrigam a nos calar’ –

“Tenho a impressão de que nos obrigam a nos calar. Não podemos expressar nosso apoio (ao movimento pró-democracia), nem nas redes sociais”, lamentou à AFP uma comissária de bordo, que pediu para não ser identificada.

“Muitos companheiros garantem que algumas pessoas podem enviar listas daqueles que apoiam as manifestações ilegais à empresa”, explica esta funcionária, que reconhece que “isso está causando medo em todos nós”.

A espiral de temor foi acentuada com as enormes manifestações no aeroporto internacional de Hong Kong, um dos mais frequentados do mundo. Centenas de voos foram cancelados na segunda e na terça.

Os incidentes podem afetar os resultados deste grupo que este ano voltou a registrar prejuízos, após fechar dois anos no vermelho.

Hoje, o grupo anunciou ter alcançado, no primeiro semestre, lucro líquido de 1,63 bilhão de dólares hong-kongueses (207 milhões de dólares), após ter tido prejuízos de 263 milhões de dólares hong-kongueses (33 milhões de dólares) durante o mesmo período de 2018.

– Vulnerável ao boicote –

Esta companhia aérea também recebeu diversas críticas da imprensa estatal chinesa.

“Os quatro pecados da Cathay Pacific Airlines”, disse o Diário do Povo, órgão de imprensa do Partido Comunista Chinês, que em suas páginas citou as ações dos funcionários deste grupo em benefício dos manifestantes.

Na última sexta, a direção-geral da aviação civil chinesa exigiu da Cathay os nomes de seu pessoal de bordo nos voos para a China continental. A companhia disse que se submeterá a estas exigências, que cumpre desde domingo.

Após este anúncio, as ações do grupo caíram 4,37% na segunda-feira na Bolsa de Hong Kong, e 2,6%, na terça.

Analistas consideram que a Cathay é muito vulnerável a um possível boicote de Pequim.

“Ela tem grande dependência do mercado continental chinês”, explica Brendan Sobie, analista do Centre for Aviation, que lembra que um em cada cinco voos da companhia vem ou se dirige para o território chinês continental e que 80% de seus passageiros para outros destinos são chineses.