[Coluna Tropiconomia] Os motivos por trás do repentino cortejo de Trump a Lula

[Coluna Tropiconomia] Os motivos por trás do repentino cortejo de Trump a Lula

"AproximaçãoPrimeiro, Trump atacou o Brasil; de repente, passou a poupá-lo. A abundância de minerais críticos brasileiros é uma das razões. Aproximação é oportunidade geopolítica para o país.Em julho do ano passado, o presidente americano Donald Trump impôs tarifas recordes a produtos brasileiros. Taxas de mais de 60% passaram a incidir sobre uma gama de setores. Com isso, Trump procurava punir a maneira como a Justiça brasileira julgou o ex-presidente Jair Bolsonaro por crimes contra a democracia. Pouco depois, ele sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky.

Desde então, grande parte das tarifas punitivas, assim como as sanções, foram suspensas. Trump conversa regularmente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele parece se dar bem com o ex-líder sindical de esquerda.

A mudança de postura de Trump em relação ao Brasil, porém, provavelmente não se deve a simpatias pessoais. Muito mais relevante parece ser outro fator: o Brasil é uma potência global da mineração, dono de algumas das maiores reservas mundiais de matérias-primas estratégicas. Especialmente no caso das terras raras e de minerais críticos, o maior país da América Latina possui um potencial enorme.

Terras raras são 17 elementos químicos encontrados no mundo apenas em baixas concentrações exploráveis economicamente. A China mantém um virtual monopólio sobre sua produção e, com isso, consegue pressionar parceiros comerciais. O desabastecimento de alguns quilos de um desses compostos pode paralisar fábricas na Europa e nos EUA.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, mas ainda produz muito pouco. No que diz respeito a minerais críticos, porém, está mais avançado, e tornou-se um importante fornecedor mundial de nióbio, níquel, bauxita e grafite. A produção de cobre e lítio também cresceu rapidamente nos últimos anos.

Um mineral é considerado "crítico" quando é economicamente importante – para a indústria ou a transição energética – e seu abastecimento é incerto. É o caso, por exemplo, quando ele é extraído apenas por alguns países ou quando existe um monopólio.

Devido às crescentes disputas entre China e EUA, os minerais críticos brasileiros deram status de ator-chave ao país no mercado global. Hoje, inúmeras empresas, países e até blocos econômicos competem pelos insumos brasileiros.

Mesmo enquanto Trump criticava o STF, representantes dos Estados Unidos já começavam, nos bastidores, a preparar alianças com empresas brasileiras e a investir massivamente no setor. Japão, França e Canadá também prepararam acordos com o Brasil. A União Europeia (UE) anunciará em 24 de março compromissos de investimento para cinco projetos na área de minerais críticos.

As vantagens do Brasil

O Brasil tem algumas vantagens em relação a outras regiões mineradoras do mundo. O país possui uma tradição própria no setor, como no caso do minério de ferro, e conta, portanto, com mão de obra especializada, infraestrutura e experiência industrial. Ao mesmo tempo, não impõe restrições ao capital estrangeiro. Empresas internacionais podem controlar a maior parte das operações de mineração.

Além disso, o próprio mercado doméstico é relevante para o consumo de produtos minerais — especialmente se, no futuro, o país passar a produzir baterias para veículos ou sistemas de armazenamento para centros de dados. O Brasil também gera grande parte de sua energia de forma sustentável, por meio de eletricidade proveniente de fontes eólicas, hídricas ou solares.

O interesse estrangeiro pelos recursos brasileiros pode ser uma grande oportunidade para a indústria nacional. O país, de fato, possui enormes reservas, mas, apesar do entusiasmo, até agora é apenas um pequeno produtor. O Brasil está reagindo tardiamente à alta demanda por minerais críticos e terras raras – e está mal preparado. A Agência Nacional de Mineração (ANM) enfrenta falta crônica de pessoal, orçamento reduzido e é alvo de investigações de corrupção.

Uma nova lei para uma política nacional sobre minerais críticos e estratégicos está em tramitação no Congresso desde 2024. No entanto, sua aprovação vem sendo adiada repetidamente.

O interesse de investidores estrangeiros e a grande demanda por minerais críticos podem, portanto, provocar uma virada na mineração brasileira, semelhante à que já ocorre na agricultura há 30 anos. É uma chance para o Brasil aumentar seu peso geopolítico no mundo.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.