[Coluna] Roblox prova: crianças devem ficar longe das redes

[Coluna] Roblox prova: crianças devem ficar longe das redes

"CriançasEm meia hora no Roblox, já fui parar em salas com músicas com conteúdo sexual explícito, apologia ao uso de drogas e armas jogadas em cima de mesas de "festas"."Ela quer sentar, desde o tempo da escola ela quer sentar." Essa era uma das trilhas sonoras de uma das "salas" da plataforma de jogos Roblox na última segunda-feira, meio-dia do Brasil. O nome do jogo: "Baile das Patroas". Personagens seminuas dançavam, e o avatar que criei para entrar na plataforma logo estava com uma escopeta na mão. Em seguida, entrei em outro "jogo" ainda mais "radical". A trilha do chamado "Baile dos Crias" dizia: "F**** na onda fumando maconha". Em cima da mesa do tal baile, havia armas em meio aos copos, com toda naturalidade. Classificação etária para entrar nos dois "jogos": 13 anos.

Não entendo nada de videogames, mas criei uma conta no Roblox, a popular plataforma de jogos, para entender as denúncias contra ela. Resultado: após meia hora lá, já tinha percebido que, de fato, trata-se de uma ferramenta que não é adequada para menores de idade. Se eu tivesse uma filha de 13 anos (ou mais velha), tentaria proibí-la de entrar no Roblox.

Se você, como eu, é dinossaura da Internet, explico: o Roblox não é exatamente um jogo, mas uma plataforma com milhares de jogos e "universos" onde usuários podem criar seus próprios jogos. Há também chats de interação entre os usuários, transformando o Roblox em uma espécie de rede social. O jogo é extremamente popular entre crianças.

Tudo parece inocente à primeira vista e há muitos jogos simples e infantis. Mas, como cada um pode criar seu jogo e não há regulação suficiente, acontece o que eu vi: adolescentes, ou mesmo crianças, podem ser expostas a conteúdos inadequados. Ou, ainda pior, crianças podem ser aliciadas por criminosos, principalmente as meninas.

Aliciamento de menores

A plataforma está sendo investigada pelas autoridades brasileiras e mundo afora, e o que preocupa é o fato do Roblox ser usado para aliciamento de menores.

De acordo com investigadores, o jogo serve para "cooptar" menores de idade. Da plataforma, eles mudam para outro aplicativo, onde pode haver troca de fotos íntimas e depois possíveis chantagens. Foi o que aconteceu com uma menina de 11 anos de idade de Curitiba. Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, a mãe da menina disse que checava os aplicativos da filha, mas que um dia pegou o celular dela e viu mensagens ameaçando matá-la se ela não mandasse fotos íntimas. Os criminosos, inclusive, davam dicas para a criança de como burlar o controle dos pais. "O que aconteceu com minha filha foi um estupro virtual de vulnerável", disse a mãe.

Ela não é a única e o perigo não é novo. Em outubro de 2022, os pais de uma menor de idade da Califórnia, nos Estados Unidos, processaram a empresa, junto com outras plataformas, afirmando que a menina tinha sido vítima de exploração sexual e financeira.

O que fazer?

Em janeiro, depois de muita pressão, a plataforma alterou as regras de entrada nos chats que acontecem durante os jogos. Desde então, os usuários precisam comprovar a sua idade. Agora, teoricamente, só é possível falar com quem tem a mesma idade que você.

Mas o controle parece uma brincadeira. Quando me cadastrei (muito rápido), disse minha data de nascimento. Para entrar nos chats, tive que comprovar minha idade através de um reconhecimento facial feito pela plataforma que confirmou que eu tinha mais que 21 anos. Mas o reconhecimento também pode ser feito por carteira de identidade. Ou seja, se o menor pegar "emprestado" um documento dos pais, está liberado para conversar com adultos. De acordo com as novas diretrizes, crianças só podem conversar com outras da mesma idade etc. Mas como saber se a pessoa com quem a criança conversa não é um adulto que forjou ser menor?

E agora? Em alguns países, como o Egito, a plataforma foi banida. No momento, além de ser investigada no Brasil, o Roblox é investigado também nos Estados Unidos e na Holanda, onde a autoridade reguladora de defesa do consumidor apura se a plataforma tem falhado em cumprir regras para proteger crianças e adolescentes de conteúdo violento e sexual e se segue as diretrizes da Lei de Serviços Digitais (DSA) da União Europeia.

Em muitos países, há um debate sobre proibir o uso de redes sociais, Roblox incluído, para menores de idade. Na Austrália, as redes sociais foram banidas para menores de 16 anos em dezembro de 2025. Na França, um projeto de lei que proíbe a utilização de redes sociais para menores de 15 anos avançou no parlamento em janeiro.

Por mais que leis possam parecer radicais, alguma medida forte precisa ser tomada pelas autoridades dos países para coibir esses crimes. Não é justo que toda a responsabilidade de "monitorar celulares dos filhos" seja colocada em cima dos pais (na verdade, sabemos que sobra mesmo é para as mães). Sem ajuda do Estado,é praticamente impossível fazer com que um menor navegue com segurança nessas plataformas cujos donos agem como se não existissem leis…

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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo "02 Neurônio". Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.