[Coluna] Pardo e o X da questão

[Coluna] Pardo e o X da questão

""SeQualquer debate sobre a questão do pardo que rejeite ou se afaste da negritude é um tiro no pé. Negros não são todos iguais. Pardos também não. Mas não se enganem: estão todos no mesmo barco.Recentemente, a questão do pardo voltou a dar o que falar. E não é para menos. Se temos uma questão a ser densamente debatida é essa. O estopim do último debate público mais acalorado se deu por conta do desligamento de uma aluna de pós-graduação de uma universidade pública de respeito.

De acordo com a aluna, seu desligamento seria uma espécie de perseguição por conta dos pressupostos ideológicos da sua pesquisa. Uma denúncia que foi um prato cheio para determinados veículos de comunicação brasileiros, que não perdem a oportunidade de falar mal das universidades públicas do país — com averiguações tendenciosas e muitas vezes mal feita dos fatos.

Não vou entrar nos pormenores do episódio em si. Em primeiro lugar, porque o programa de pós-graduação em questão optou, de forma ética, por não expor integralmente os elementos envolvidos no caso. Em segundo lugar, porque a forma como a denúncia veio a público tem um quê de oportunismo. Coincidentemente — ou talvez não —, a divulgação do desligamento ocorreu exatamente na mesma semana em que a agora ex-aluna do programa lançava um livro diretamente relacionado ao tema de sua pesquisa.

O que de fato me interessa são as questões que o episódio provocou. Impressiona a intensidade com que muitos se engajaram no debate — especialmente nas redes sociais, que vêm se consolidando como uma das arenas mais centrais, e ao mesmo tempo mais perigosas, do debate público no Brasil. A exaltação — por vezes agressiva — com que a discussão sobre a categoria "pardo" vem à tona revela o quanto ela toca em um ponto nevrálgico: a identidade das pessoas. Na verdade, a identidade do maior contingente da população brasileira.

Então, de antemão já digo que não são meia dúzia de artigos, 47 tuites, ou 78 posts que irão resolver essa questão. É preciso ir fundo. Compreender as raízes históricas, e as dinâmicas familiares, sociológicas, psicológicas, econômicas e políticas da questão. Tudo isso em meio às vicissitudes que marcam as experiências individuais e plurais dos pardos brasileiros.

Ainda que a miscigenação no Brasil tenha sua origem na violência racial e de gênero constitutiva do nosso passado escravista e colonial — violências essas que forjaram a ferro e fogo a identidade nacional brasileira —, não podemos resumir a questão do pardo ao estupro de mulheres negras e indígenas nos séculos 16 e 17.

E talvez esse seja nosso grande desafio, sobretudo em tempos no qual o debate se dá entre 250 e 800 caracteres: não dá para resumir a questão do pardo em umas poucas linhas, ou páginas. Trata-se de um tema crucial, denso e multifacetado de um país com dimensões continentais, no qual a própria ideia de quem é pardo não é una, mas territorialmente e temporalmente situada.

No entanto, o debate — e esse mergulho na complexidade da questão parda, ainda que possa ser vivido de forma individual —, não deve ficar restrito a uma coletânea de experiências de pessoas pardas nesse vasto Brasil varonil.

E esse é o X da questão.

Porque se o pardo é e pode ser muitas coisas, tem algo que ele não é, porque a estrutura racista brasileira não permite: pardos não são pessoas brancas. Ao longo da nossa história, a presença de traços associados à população negra e indígena nas pessoas miscigenadas foi lida como defeito de cor. Um estigma que colocava todas essas pessoas sob o rótulo de "gente de cor": classificação complexa — e profundamente hierarquizada — na qual o chamado "defeito de cor" se agravava à medida que a pele se tornava mais escura.

Como já mencionei, a percepção de que essa "gente de cor" formava um amplo grupo racializado foi uma das estratégias mais eficazes dos movimentos negros brasileiros. Essa articulação permitiu a construção política da categoria "negro", fundamental na luta por melhores condições de vida para a maioria da população — que, não por acaso, era (e continua sendo) o segmento mais explorado do país

Sendo assim, digo e repito que qualquer debate sobre a questão do pardo que rejeite ou se afaste da negritude é um tiro no pé, e um belo exemplo de negacionismo histórico. Isso, por sua vez, não significa homogeneizar toda a população classificada como negra pelo IBGE. Negros não são todos iguais. Pardos também não. Mas não se enganem: estão todos no mesmo barco. E a travessia segue sendo turbulenta.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.