[Coluna] Merz culpa imigrantes por violência contra mulheres

[Coluna] Merz culpa imigrantes por violência contra mulheres

"MerzÉ um truque baixo usar abusos contra mulheres para justificar ideias racistas e xenófobas, como faz o chanceler federal alemão."Não são todos os homens, mas é sempre um homem.” A frase, cantada em alemão, viralizou na Alemanha na voz das cantoras Ebow e Mary Bu e virou trilha sonora de protestos recentes pelo fim da violência contra mulher que acontecem em todo o país.

Essas manifestações são motivadas pelo caso da atriz e apresentadora Collien Fernandes, que acusa o marido, o também ator e apresentador de TV Christian Ulmen, de disseminar vídeos "deepfake” pornográficos dela em diversos sites. Ulmen é alemão. Não que isso faça diferença, claro. A nacionalidade de alguém não torna a pessoa mais ou menos perigosa para mulheres. A violência contra mulher, seja online, nas ruas ou em casa, vem de homens. Sejam eles nascidos no Brasil, na Síria ou na Alemanha.

Eu nem mencionaria a nacionalidade do acusado porque realmente isso não faz diferença. O faço porque, na semana passada, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, ao ser questionado sobre a crescente onda de violência contra mulheres na Alemanha, afirmou: "Estamos vivenciando uma explosão de violência em nossa sociedade, tanto na esfera analógica quanto na digital". Em seguida, ele disse: "Também devemos abordar o fato de que uma parcela considerável dessa violência vem de grupos de imigrantes na República Federal da Alemanha”.

Culpa não está nos imigrantes

Como assim, chanceler? Que medo é esse de fazer com que os homens alemães se olhem no espelho e assumam sua parcela de responsabilidade na luta pela violência contra as mulheres? Não, a culpa do aumento da violência contra as mulheres na Alemanha (e também no mundo) não é dos imigrantes. É dos homens e também do momento horrível em que vivemos, onde coaches, red pills e outros tipos misóginos fazem sucesso na chamada machosfera.

O que tudo isso tem a ver com a presença de imigrantes na Alemanha? Absolutamente nada. E, repito: no momento, mulheres vão às ruas em toda Alemanha em solidariedade a uma mulher que sofreu violência por parte de um… alemão.

Os dados não provam que o aumento da violência tenha a ver com a presença de imigrantes na Alemanha.

Em reportagem publicada na DW, a criminologista alemã Kathrin Karstedt afirmou que em todo o mundoos jovens do sexo masculino são os mais violentos: "Quando se leva isso em consideração, a comparação (entre imigrantes e alemães) mostra que a extensão dos crimes violentos é relativamente idêntica."

Essa não é a primeira vez que Merz usa a causa das mulheres para justificar racismo. Em outubro do ano passado, ele foi criticado em toda a Alemanha, e também fora dela, por falar que o país tinha problemas na "paisagem urbana" (stadtbild), se referindo a imigrantes. Na ocasião, ele disse: "Mas é claro que ainda temos esse problema na paisagem urbana, e é por isso que o ministro do Interior está ocupado possibilitando deportações e realizando-as em larga escala". Depois de ser massivamente criticado, ele respondeu pedindo que os críticos perguntassem a "suas filhas" sobre a questão.

Isso gerou uma onda de protestos feministas. "Nós somos as filhas", gritavam as meninas alemãs em manifestações, e afirmavam que não só não tinham "medo" de imigrantes como defendiam a diversidade.

De quem mulheres têm medo?

A fala do chanceler não tem conexão com a realidade. Se uma mulher está andando sozinha na rua vazia e percebe um homem por perto, talvez ela acelere o passo. E isso independe da nacionalidade do sujeito. Isso é comum. Não acho que mulheres se sintam ameaçadas quando encontram uma mulher, seja ela imigrante ou não. Isso porque, repito, o problema está nos homens. Não no status migratório ou passaporte da pessoa.

É um truque baixo usar violência contra mulheres para justificar pensamentos racistas e xenófobos. Mas, infelizmente, isso acontece com certa frequência. A boa notícia é que as meninas não parecem dispostas a deixar que suas causas sejam manipuladas assim. Uma prova disso são as fortes críticas sofridas por Merz por parte das mulheres. Muitas delas reagiram à sua última fala absurda nas mídias sociais. Um dos posts dizia: "O problema não são os imigrantes, são os homens como você, chanceler".

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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo "02 Neurônio". Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

Esta é a última edição da coluna O Estado das Coisas, de Nina Lemos. A DW Brasil deixará de publicar colunas a partir de abril de 2026.