[Coluna] "Looksmaxxing": machosfera é risco também para garotos

A cultura dos "red pills" pode ter outro efeito colateral: meninos colocando sua aparência em risco em nome de um ideal de masculinidade.O britânico Harrison Sullivan, de 24 anos, é um influenciador da chamada "machosfera", aqueles canais que pregam ódio contra as mulheres, objetificação e submissão. Sullivan tem milhares de seguidores nas redes sociais, onde exibe uma vida de luxo e seu corpo forte e malhado. Ele é um dos personagens do documentário Por dentro da machosfera, que estreou esse mês na Netflix.

Assim como outros influenciadores do "nicho", ele exibe um corpo sarado, forte, e que é considerado por eles o "ideal do corpo macho". Esses sujeitos, que têm milhares de seguidores, difundem ideias erradas para homens e produzem um conteúdo que é considerado perigoso por todos que estudam o tema, por mostrar mulheres como objeto e uma hipermasculinidade misógina, que traz muitos riscos.

Os influenciadores da "machosfera" são um dos responsáveis por uma nova mania perigosa para os meninos: o "looksmaxxing", uma tendência das redes sociais que se espalha também pela vida real. Os adeptos, homens jovens, tentam "maximizar" sua aparência para torná-la mais atraente com base em alguns critérios. Isso significa não só fazer exercícios, mas também ser adepto de práticas perigosas, como a ingestão abusiva de testosterona e outros hormônios.

Alguns deles são mais radicais e adotam o ato bizarro de bater na própria cara para deixar a pele melhor e também se submetem a cirurgias para aumento da mandíbula, o que, segundo o grupo, daria uma aparência "mais masculina".

Todos esses sacrifícios e loucuras são feitos para que eles cheguem perto de um suposto ideal de masculinidade. E, com isso, eles teriam mais poder de atração: de mulheres bonitas e de dinheiro, o sonho e objetivo dos seguidores da machosfera. Isso é uma ilusão, claro. E também um perigo.

Geralmente, as maiores vítimas da pressão estética são as meninas e mulheres, que fazem cerca de 85% dos procedimentos estéticos do mundo, segundo dados do Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Mas os meninos não estão imunes. Nunca estiveram.

Agora, a cultura dos red pills pode ter esse outro efeito colateral: meninos jovens colocando sua aparência em risco em nome de um ideal de masculinidade.

Dismorfia corporal

Essa nova tendência apenas escancara o óbvio, a chamada machosfera, com seus influenciadores misóginos, é um risco não só para as mulheres, mas também para os meninos. A adolescência é uma época em que todos se sentem inseguros com o próprio corpo, isso é normal. Fica fácil cair no papo de que "seguindo as práticas do influenciador X, você terá o corpo ideal" (uma expressão que geralmente é usada para mulheres) e assim vai "conquistar o mundo".

Entrar no mundo dessa tendência no TikTok é chocante. Ali, encontramos milhares de vídeos de "antes e depois", onde meninos mostram como eram antes de se "maximizar". Um garoto com cara de nerd, normal, com as espinhas comuns da idade, mostra que, antes, tinha espinhas, não tinha mandíbula, a sobrancelha era caída. Depois, ele parece uma outra pessoa, mais parecido com um boneco de ação. O vídeo do antes e depois tem mais de 304 mil likes.

Muitos deles mostram suas rotinas fazendo o "protocolo do looksmaxxing", o que significa diversos exercícios e puxadas na pele do rosto (incluindo os tais tapas), suplementos não confiáveis e dietas.

É claro que tudo isso pode levar a distúrbios de imagens, um problema sério. A dismorfia corporal, por exemplo, é um transtorno caracterizado pela preocupação excessiva com a aparência e que faz com que o adoecido veja defeitos em si que são imperceptíveis. Essa sensação de "nunca estar bem" pode levar a abusos de cirurgias plásticas e também a doenças sérias como a anorexia e a bulimia.

Sim, não são só as meninas que estão em risco diante da disseminação dos conteúdos de red pills e similares. Os meninos também são prejudicados e correm riscos. Combater a proliferação de conteúdos da machosfera é, portanto, dever de todos nós. Só quem lucra com isso são os influenciadores e as big techs onde eles exibem esse tipo de conteúdo. O resto da sociedade só perde.

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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo "02 Neurônio". Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.