[Coluna] Hillary e as esposas que defendem homens acusados

[Coluna] Hillary e as esposas que defendem homens acusados

"HillaryA vida de alguns homens é mesmo fácil. Eles traem, mentem, ficam amigos de pedófilos, e têm suas esposas à disposição para defendê-los.Nas últimas semanas, Hillary Clinton, ex-primeira dama dos Estados Unidos, ex-secretária de Estado e também ex-candidata à presidente, veio a público várias vezes. Mas ela não tem dado entrevistas para falar sobre os seus projetos ou ambições políticas. Hillary tem, basicamente, defendido o marido, o ex-presidente Bill Clinton.

Ele é citado várias vezes nos documentos do caso Epstein. As milhares de páginas divulgadas pelo governo americano que mostram, entre outras coisas, trocas de mensagens entre personalidades e o magnata Jeffrey Epstein, que comandava uma rede de pedofilia e tráfico humano. Nos arquivos, há várias menções a Clinton, e também a Donald Trump.

Quem conhece um pouco do caso já sabia que Clinton era amigo de Epstein. O milionário esteve na Casa Branca quando Clinton era presidente, nos anos 1990, e o ex-presidente também admitiu ter pegado carona em um jatinho do milionário.

Mas o que Hillary Clinton tem a ver com o que o marido fez ou deixou de fazer? Na minha opinião, nada. Só que ela (ou serão os advogados da família?) insiste em tomar à frente a tarefa de defender o marido e o nome da família. Na semana passada, no Congresso, quando deu um depoimento sobre o caso, ela afirmou nunca ter encontrado o magnata. Acredito nela. Mas será que seu marido não pode se defender sozinho?

Essa não é a primeira vez que ela sai em defesa de Bill Clinton. Em 1998, quando o escândalo Monica Lewinsky (uma ex-estagiária da Casa Branca, com quem ele teria tido um caso) foi divulgado, ela fez o mesmo e disse que "tudo não passava de uma conspiração de direita".

Hillary não é a única a defender maridos que aparecem nos arquivos Epstein. Assim que foi divulgado que o linguista Noam Chomsky era conselheiro e amigo do magnata (um choque para todos os leitores do pensador de esquerda), sua esposa, Valéria Chomsky, veio a público pedir desculpas pelo marido. "Nós cometemos um grave erro", disse. Ela afirmou também que eles foram "negligentes" ao não pesquisarem a fundo o passado de Epstein. No longo comunicado que divulgou, ela afirmou que "Epstein os enganou".

Ela até pode ter sido enganada, mas não acredito que o mesmo tenha acontecido com o seu marido. Isso porque ele deu conselhos para o milionário depois que ele já havia sido condenado. Em uma das mensagens, ele diz, entre outras coisas, que existia "uma histeria em torno do abuso de mulheres, que chegou ao ponto em que até mesmo questionar uma acusação é um crime pior do que assassinato".

Privilégio é pouco

Já li que Chomsky, por conta da idade (97 anos), não estaria mais em condições de se defender. Ok. Mas essa defesa poderia ter sido feita, por exemplo, por um advogado, não? No caso de Hillary, tudo fica ainda mais triste, já que não é a primeira vez que ela se presta a esse papelão.

Os casos de Hillary Clinton e Valéria Chomsky provam, mais uma vez, que a vida de alguns homens é mesmo fácil. Eles traem, mentem, ficam amigos de pedófilos, e têm suas esposas à disposição para defendê-los. Privilégio é pouco.

Esse tipo de fenômeno não é novo e nem restrito ao caso Epstein. Mulheres falando em defesa de homens acusados de abuso contra mulheres, por exemplo, pegam bem. A fala delas é usada para "limpar" a imagem do sujeito. É melhor tentar convencer a opinião pública com a voz da esposa ou parceira do acusado. Os marketeiros, advogados e outros gerentes de crise certamente sabem disso e por isso "convocam" mulheres para essa defesa. Algumas, claro, devem agir por conta própria, o que é bem triste. Além de ir contra a voz de outras mulheres, elas, muitas vezes, se humilham.

"Ele só traiu"

No Brasil, em vários casos, mulheres já fizeram esse trabalho sujo de tentar "limpar" a imagem de seus parceiros que, muitas vezes, as traíram. Um exemplo clássico é o caso do jogador Robinho, que foi preso em 2024, por estupro. Em entrevista, Vivian Guglielmetti, disse perdoar a "traição" (que, na verdade, foi um estupro) e que "defenderia sua família". Ela afirmou saber da "inocência do marido". Fato: ele foi condenado em todas as instâncias pelo estupro coletivo de uma mulher na Itália e hoje cumpre pena em Tremembé.

Esse é um exemplo radical. Mas o fato é que, muitas vezes, homens podem pisar na bola e cometer crimes e, mesmo assim, saber que terão suas esposas para defendê-los. Será que o mesmo aconteceria com uma mulher acusada de abuso, estupro ou cumplicidade com um pedófilo? Duvido.

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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo "02 Neurônio". Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.