[Coluna] Fazendo retrospectiva de um país complicado

[Coluna] Fazendo retrospectiva de um país complicado

"TuristasNa sua última coluna, colunista olha para trás e relembra seu tempo no Brasil, esse país que não é para iniciantes. Por seus textos, ele recebeu muito apoio – mas também foi xingado.Esta é a minha última coluna para a Deutsche Welle Brasil. Por causa de cortes impostos pelo governo alemão à DW, minha contribuição mensal foi encerrada.

Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.

De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.

Cliques e comentários disparavam com Bolsonaro

Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.

Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.

Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.

Protestos que se tornaram pedido de golpe

Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.

Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.

Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.

Caixa de Pandora

No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.

O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.

Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.

Amazônia em chamas

Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.

Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.

Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.

País que gira em círculos

Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.

Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.

A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.

Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.

Pouco apreço pelo espaço público

Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.

Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.

Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.

Criatividade, resiliência, gentileza

E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.

É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.

E com isso, me despeço.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha, Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

Esta é a última edição da coluna Cartas do Rio, que Philipp Lichterbeck publica mensalmente desde 2018. A DW Brasil deixará de publicar colunas a partir de abril de 2026.