Cultura

Claudia Abeling: “Cartões-postais do casal Hampel contra Hitler se parecem com disparos do Whattsapp”

A tradutora do romance “Morrer Sozinho em Berlim” compara a mídia social digital com os métodos subversivos contra o nazismo

Crédito: Divulgação

O lançamento do romance no Brasil “Morrer Sozinho em Berlim”, Estação Liberdade, 640 págs., R$ 84,00), do escritor alemão Hans Fallada, pseudônimo de Rudolf Ditzen (1893-1947), é um acontecimento literário, mesmo que a tradução tenha chegado dez anos mais tarde que o resto do mundo. Em 2009, esse livro alemão oriental quase ignorado ganhou versão para o inglês e se tornou estimado globalmente.

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A razão da fama está na força de uma história tirada da vida real: entre 1940 e 1942 o casal de operários, Otto e Elise Hampel, distribuiu cartões-postais criticando Adolf Hitler e seus associados nazistas pela cidade de Berlim. A iniciativa foi individual e sem ligações políticas. Na verdade, suas mensagens jogadas ao léu eram manifestações indignadas, quase apolíticas. Essa modalidade de panfletagem anônima e solitária é precursora da militância digital das redes sociais.

Aos poucos, as mensagens do casal – que poderiam ser descritas hoje como espécies de tuítes de cartolina – chegaram às pessoas que eles pretendiam atingir, mas também foram denunciadas à Gestapo, a polícia secreta nacional socialista. Otto e Elise foram executados em segredo em 1943.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o governo da República Democrática Alemã passou a levantar histórias sobre a resistência ao nazismo e se deparou com o caso Hampel. Convidou então o popular Hans Fallada, que se recuperava de um tratamento de desintoxicação (era viciado em morfina), para escrever um romance baseado nas ações dos Hampels. Fallada levou menos de um mês para reescrever a história ficcionalmente, trocando naturalmente os nomes. Nascia “Morrer Sozinho em Berlim” (Jeder Stirbt für sich in Berlin, literalmente “Cada um morre por si”), livro que seria publicado em meados de 1947, dois meses após a morte de seu autor.

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A abordagem de Fallada se aproxima da trama de suspense, com ação e diálogos aparentemente espontâneos. Uma narrativa magnífica e visionária. Curiosamente, o romance “E Agora, seu Moço”, de Fallada, foi publicado no Brasil pela editora Globo de Porto Alegre em 1934. Trata-se de um relato sobre os tempos de crise econômica e social da República de Weimber. A repercussão da edição de “Morrer Sozinho em Berlim” tem sido positiva e a Estação Liberdade pretende lançar o romance “O Bebedor” (Der Trinker), de Fallada, até o fim de 2019.

A tradutora Claudia Abeling, em entrevista à ISTOÉ, conta como tomou contato com a obra de Fallada realizou a tradução do alemão para o português.

Como você descreve o estilo de Fallada? Há particularidades de vocabulário, por exemplo?

Creio que ele escreve com um sentido de urgência que o tema e o tempo lhe impõem: a questão é candente, sensível e ainda perigosa; ainda por cima, Fallada está com a saúde muito fragilizada. Sabendo que o romance (extenso) foi escrito em quatro semanas, me parece natural abdicar de maiores pretensões estilísticas e partir para um registro mais direto. Sobre particularidades de vocabulário, o autor reproduziu nas falas dos oficiais nazistas algo do que Viktor Klemperer estudou e chamou de “LTI” (língua tertii imperii) – há tradução brasileira do livro de Klemperer, pela editora Contraponto –, uma espécie de jargão do nazismo. Na tradução, tentei aludir a essa linguagem, embora estivesse mais preocupada com a dinâmica dos diálogos em si.

Você buscou manter o tom coloquial do original?

Do ponto de vista da língua, o original é bastante tranquilo. Não tem aquela sucessão de adjetivos duplos tão comum no alemão nem as frases todas invertidas. Minha maior preocupação foi tentar encontrar um tom para os oficiais nazistas, que notadamente falavam de um jeito muito brusco. Lembrei da tradução da Miriam Oelsner da LTI: a linguagem do Terceiro Reich,2 de autoria de Victor Klemperer, que foi lançada pela Contraponto. Tentei entender melhor o que era essa linguagem, sua importância, para calibrar melhor as falas – e as broncas dos oficiais. Outro ponto sempre muito trabalhoso em livros dessa época é a hierarquia nazista, com seus inúmeros cargos e postos, divisões da SS e da SA. Numa primeira versão, eu havia deixado esses cargos, principalmente se eram quase palavrões, como DzObersturmbannführerdz, assim mesmo, em alemão, pois me soa muito aterrador. Numa última revisão, a editora pediu para eu repensar e acabei fazendo equivalências aproximadas (general, tenente etc.) –graças a Deus, uma equivalência exata não existe.

A que você atribui o fato de as obras de Fallada não terem sido lançadas em traduções no Brasil?

Hans Fallada também também estava esquecido na Alemanha; foi “descoberto” nos Estados Unidos há alguns anos — Morrer sozinho em Berlim foi muito festejado por lá –, e a Alemanha acordou para esse autor também. Tenho a impressão de que a distância temporal dos fatos reais, com uma perspectiva mais objetiva (analítica e crítica) dos horrores da época, contribuiu para que o valor da obra fosse devidamente enxergado. Em seguida a essa redescoberta, as traduções não se fazem esperar muito. A Alemanha fez seu papel, o livro teve sua tradução fomentada pelo Goethe-Institut. O fato de o mercado editorial brasileiro estar sempre correndo atrás do que acontece lá fora são outros quinhentos, outra excelente matéria…

Existem pontos em comum entre o esquema de distribuição de mensagem do casal Hampel e o mecanismo das redes sociais contemporâneas?

Ótima pergunta essa do ponto em comum entre a distribuição das mensagens do casal Hampel e o mecanismo das redes sociais. Os cartões-postais deles guardam semelhanças com nossos disparos de whattsapps e memes, claro: são pensados para atingir um determinado público, confeccionados de maneira “artística”, se mantêm anônimos… Seu ponto fraco é a produção artesanal e sua distribuição. Nenhum (ou pouquíssimos) postais foram lidos por mais de uma pessoa, eles não tiveram o alcance pretendido pelo casal Hampel. Acho que contribui também o fato de sua produção, distribuição e posse ser absolutamente criminosa para o regime da época; nossas mensagens não são efetivamente combatidas quando é o caso (refiro-me às fake news, claro).

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