Ciro ‘colocou PT no poder e agora quer apoio do PL’, diz Girão sobre governo do Ceará

Em entrevista à IstoÉ, senador afirmou ser único representante da direita na disputa e chamou candidatura do ex-ministro de 'volta ao passado'

Ciro Gomes
Ciro Gomes retornou ao PSDB e se aproximou do PL por disputa ao governo do Ceará Foto: Cristiano Mariz

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) afirmou que o PL cometerá um “erro histórico” se concretizar a negociação para apoiar Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará, visto que o ex-presidenciável “sempre se considerou de esquerda”.

“É como jogar uma pá de cal em todo o movimento histórico [da direita local]. Quem colocou o PT no poder no Ceará são esses que, hoje, querem apoio do PL para projetos pessoais, familiares”, declarou Girão ao programa IstoÉ Entrevista, exibido no canal de YouTube da IstoÉ. O parlamentar encerra seu mandato em Brasília neste ano e é pré-candidato ao governo do estado.

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Ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula (PT), Ciro concorreu quatro vezes à Presidência da República no campo da centro-esquerda e foi aliado do ministro Camilo Santana (PT), antecessor do atual governador, Elmano de Freitas (PT), até romper com o petismo cearense.

Nos últimos anos, endureceu as críticas ao partido, se aproximou de lideranças da direita local, como o deputado André Fernandes (PL-CE) e filiou-se ao PSDB em vista de disputar o governo do estado em outubro, contra Elmano.

Como a IstoÉ mostrou, a negociação com o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou mais fôlego após a menção do senador Flávio Bolsonaro (RJ) ao ex-ministro em manuscrito sobre as alianças que fará na eleição presidencial. Flávio defende que seu grupo “tape o nariz” e esqueça as rusgas com Ciro para derrotar o PT no estado.

Em paralelo, Girão manteve a pré-candidatura e recebeu apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), provocando um racha no bolsonarismo. O parlamentar defende-se como “único conservador” na disputa e aposta numa repetição de 2018, quando adotou uma plataforma bolsonarista e, de forma surpreendente, derrotou o ex-presidente do Senado Eunício Oliveira (MDB), para atrair a direita a seu palanque.

Ainda acredito na capacidade de reflexão de algumas lideranças jovens do PL“, afirmou à IstoÉ. “Não tem nenhuma lógica, nenhuma coerência, se o partido apoiar Ciro“.

Eduardo Girão (Novo-CE), senador da República, à IstoÉ: 'Espero que PL não cometa erro histórico de apoiar Ciro Gomes'

Eduardo Girão (Novo-CE), senador da República, à IstoÉ: ‘Espero que PL não cometa erro histórico de apoiar Ciro Gomes’

Leia a íntegra

IstoÉ As suspeitas de ligação ao caso do Banco Master renderam um novo pedido de impeachment de Alexandre de Moraes, o que nunca foi adiante até então. Há chances reais do processo avançar neste momento?

Eduardo Girão A atmosfera hoje é outra. Desde 2019, quando cheguei ao Senado, batemos nessa tecla [da conduta de Moraes]. Estamos vendo um Poder esmagar os demais, especialmente o Congresso Nacional, com ativismo ideológico e escancarado em temas como aborto, drogas. O Supremo se mete em temas do Congresso. Nós fomos eleitos para representar os valores dos brasileiros, o que eles pensam, e o Supremo tem feito uma verdadeira devassa na nossa Constituição, como ficou claro no caso do 8 de janeiro.

Não concordo com nenhum tipo de golpe, mas houve [na invasão às sedes dos Três Poderes] uma farsa montada pelo governo Lula e por alguns ministros do STF, que blindaram as imagens [das câmeras de segurança] para que a população não visse. Quem quebrou, se evadiu; as prisões aconteceram por posições políticas, pessoas que se protegeram das bombas no Congresso Nacional pegaram 15, 17 anos de prisão.

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Alexandre de Moraes foi [neste caso] vítima, investigador e delegado. Isso não existe no nosso ordenamento jurídico. Nós batemos nessa tecla desde 2019, ano do Inquérito das Fake News, mas parece que agora o ambiente está diferente, porque furou a bolha e a imprensa vem percebendo isso.

O escândalo do INSS [Instituto Nacional de Seguridade Social] e a maior fraude do sistema financeiro, do Banco Master, revelam relações promíscuas e injustificáveis [dos ministros do Supremo] sem contraprestação aceitável.

O contrato de R$ 129 milhões da esposa de Moraes, justificado de forma completamente esdrúxula — várias pessoas me relataram que um contrato dessa monta não existe nem em negociações bilionárias de fusão de bancos –, a troca de mensagens que o ministro negou, mas a imprensa brasileira mostrou que foi periciada pela Polícia Federal, enfim, isso dá uma ideia muito clara. É muito difícil não achar que ali houve corrupção, indícios de corrupção.

Além disso, Moraes é o campeão de pedidos de impeachment. Foram várias violações e crimes de responsabilidade, hoje nós temos 129 milhões de razões [para a instauração do processo] e a população está cobrando [apoio] dos parlamentares. Como a maior parte deles está indo atrás de votos para se reeleger, é hora da população, sendo de esquerda ou direita, cobrá-los em relação a essa questão.

Esta inércia do Davi Alcolumbre, como foi do Rodrigo Pacheco, que só engaveta os pedidos e chega ao ponto de dizer que, mesmo se houvesse 81 assinaturas em apoio, ele não daria sequência, é um deboche não só com o Parlamento, mas com o Brasil. Nós pedimos ao Conselho de Ética que afaste o Alcolumbre por essa inércia.

“Alcolumbre debocha não só do Parlamento, mas do Brasil“.

IstoÉ O senhor pediu o impeachment do ministro Dias Toffoli pelo mesmo caso. Como está o clima para este processo?

Eduardo Girão Acho que os dois [Toffoli e Moraes] deveriam ir juntos. Chegou a hora do Senado se levantar, porque a casa revisora da República respira pos aparelhos, precisa acordar deste sono profundo e se debruçar sobre esses pedidos.

Eu colocaria outro [impeachment], que é o de Gilmar Mendes, que também apresentei e foi assinado por outros colegas, com relação à liminar concedida pelo ministro para manter um presidente corrupto no comando da CBF, que por sua vez tinha feito um contrato de R$ 10 milhões com o IDP [instituto de ensino ligado ao magistrado].

O que nós estamos vendo é uma blindagem geral. O próprio Gilmar Mendes blindou Toffoli [ao anular] na quebra de sigilo da Maridt [empresa que teve Toffoli no quadro societário e vendeu sua participação no resort Tayayá a um fundo ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e também preso pela Polícia Federal], em uma decisão completamente tresloucada.

Agora, [para afastar os magistrados] a gente precisa ter o povo brasileiro do lado, trocar a maioria dos senadores e exercer a pedagogia do impeachment. Esse processo poderá restablecer a separação entre os Poderes e permitir que cada um deles trabalhe de forma independente, respeitando a Constituição, porque o que existe hoje é uma ditadura pura e escancarada do Judiciário. Só o Senado pode reagir a isso, e nós precisamos de alguém com coragem e sustentação moral [na presidência da Casa] para pautar o impeachment dos ministros.

Senador Eduardo Girão (Novo-CE) durante participação no programa IstoÉ Entrevista

Senador Eduardo Girão (Novo-CE) durante participação no programa IstoÉ Entrevista

IstoÉ O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu a abertura de uma CPI específica para investigar as condutas de Moraes e Toffoli no caso Master. Por que não há maior mobilização, mesmo no setor mais crítico ao Supremo, por essa investigação?

Eduardo Girão Essa é uma CPI bem-vinda, fui um dos primeiros a assinar, mas acredito que o escândalo do Master é tão gigante que não deve se restringir à investigação de dois ministros. Essa CPI deveria acontecer após a CPI do Banco Master, que Alcolumbre não pautou, mesmo com apoio da maioria esmagadora — 51 dos 81 senadores. Defendo que ele deveria pedir para sair, já que não quer fazer nada com relação a isso.

Tem políticos envolvidos no escândalo do Master, e o brasileiro tem direito de saber quem são esses políticos. Houve emenda parlamentar que beneficiaria o banco, do senador Ciro Nogueira [PP-PI], chamado por Vorcaro de “grande amigo da vida” [em mensagens obtidas pela Polícia Federal], enfim, há muito mais gente que precisa se justificar. O STF foi acionado para determinar a abertura dessa CPI, situação que tem precedente, com a CPI da Covid-19. Será que a corte terá dois pesos e duas medidas?

IstoÉ Além de fiscalizar o Supremo, o Senado é responsável por sabatinar e votar nos indicados pelo presidente da República à corte. O senhor se arrepende de algum de seus votos? Como pretende se posicionar quanto à indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, pelo presidente Lula?

Eduardo Girão Todos os meus votos são abertos e declarados aos candidatos, olho no olho. Votei contra a indicação do ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro, porque vi as digitais do “centrão” na escolha. Votei a favor do ministro André Mendonça, porque percebi que ele era um homem de valores, que entendia a chegada ao STF como uma missão — e é o que está fazendo. Foi meu único voto favorável no mandato.

Votei contra o ministro Cristiano Zanin, por ser amigo pessoal de Lula, e o ministro Flávio Dino, que é Lula até a medula e os resultados estão aparecendo agora, com a blindagem ao filho do presidente [Fábio Luís da Silva] na CPMI do INSS. Quanto ao Jorge Messias, vou votar contra a indicação. Ele é o maior militante pró-censura do Brasil e não tem condição, no meu entendimento, de ser ministro do STF.

“Vou votar contra a indicação de Jorge Messias ao STF”.

IstoÉ O senhor é pré-candidato ao Ceará e está no campo da direeita, mas uma negociação em curso deve levar o PL a apoiar Ciro Gomes ao cargo. Sem o partido de Bolsonaro no palanque, sua candidatura perde força?

Eduardo Girão Cheguei ao Senado Federal, em 2018, de forma milagrosa. Nunca havia sido político e disputei contra o ex-presidente do Congresso, Eunício Oliveira [MDB], e Cid Gomes [PSB], que governou o estado duas vezes com alta popularidade. A fatura estava liquidada, mas nós ganhamos, mesmo sem estrutura, viajando de carro enquanto meus concorrentes viajavam de avião e visitando apenas 60 das 184 cidades do estado.

O povo do Ceará não aceita imposição de cima para baixo. Acredito, ainda, na capacidade de reflexão das pessoas, e espero que o PL, algumas lideranças jovens do partido no Ceará, não cometam esse erro histórico [de apoiar Ciro Gomes], porque a única candidatura conservadora posta é a minha. É a nossa.

Eu jogo junto aqui [no Senado] com o PL. O Partido Novo e o PL, nós temos um bloco no Senado, em que estão os dois partidos juntos. Me relaciono muito bem com os senadores do PL, votamos quase sempre da mesma forma. Não tem nenhuma lógica, zero de coerência, se o PL quiser apoiar o Ciro Gomes, que sempre se considerou de esquerda.

É como jogar uma pá de cal em todo o movimento histórico que foi feito, das pessoas que defenderam a vida desde a concepção, contra o aborto, que defenderam a luta contra as drogas e a liberação da maconha, contra a ideologia de gênero nas escolas, contra a jogatina, as Bets. Nós, conservadores, somos contra isso, e essa turma não está nem aí para isso. Quem colocou o PT no poder no Ceará são esses que, hoje, querem apoio do PL, para projetos pessoais, familiares, dentro de uma chapa. No meu modo de ver, os fins não justificam os meios, jamais.

“Não tem lógica o PL apoiar Ciro Gomes, que sempre foi de esquerda”.

IstoÉ Esse movimento de divisão não aumenta as chances de reeleição do governador Elmano de Freitas, do PT?

Eduardo Girão [A candidatura de Ciro] é uma volta ao passado, uma troca de seis por meia dúzia. O grande desafio é que eles [eleitores] saibam que há uma candidatura que quebra a manutenção do sistema. Uma proposta de modelo verdadeiramente novo, que deu certo em Minas Gerais, com o governador Romeu Zema [colega do senador no Novo], que pegou terra arrasada do PT e cortou todas as mordomias.

Este é um exemplo que dou no Senado, com zero orçamento secreto e votos contrários às emendas parlamentares, o que nenhum parlamentar faz. É humanamente impossível vir alguém de fora [para o Congresso], e nós lutamos contra isso. É o nosso trabalho, como Zema faz em Minas, e gostaria de poder fazer isso no governo do Ceará.

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IstoÉ O senhor citou Romeu Zema, pré-candidato a presidente pelo seu partido, mas tem boas relações com o bolsonarismo, que tem Flávio Bolsonaro como presidenciável. Qual dos dois subirá no seu palanque na eleição?

Eduardo Girão Está muito cedo para prospectar esse tipo de situação, porque ela não está definida. Estamos no período de janela partidária [em que deputados federais podem trocar de legenda sem perder o mandato], quando muitas mudanças acontecem.

O Novo tem o compromisso de fazer uma política diferente para o Brasil, mas também precisa sobreviver, com uma base boa na Câmara, então está voltado para essa estratégia com o Zema como candidato à Presidência. O governador é do diálogo e acredito que muita água vai rolar embaixo dessa ponte, portanto, não posso me precipitar.

A coerência, para mim, é fundamental. Se houver uma porta larga com a possibilidade de ganhar, mas para isso tiver de abrir mão da coerência, e outra estreita, com maior possibilidade de perder, mas com dignidade, valores e princípios, prefiro esta segunda, para que as pessoas possam se ver representadas. Mas estou com muita esperança de que nós vamos ganhar.