Cultura

Cinema de autor

“A Crônica Francesa”, do genial Wes Anderson, é uma homenagem aos cineastas da França e aos jornalistas da revista “The New Yorker”

Crédito: Twentieth Century Fox Film Corporation

IRONIA Sede da “Crônica Francesa”: Nova York virou a charmosa Ennui-sur-Blasé (Crédito: Twentieth Century Fox Film Corporation)

Não há no mundo outro cineasta como Wes Anderson. É possível que existam diretores melhores que ele — piores são muitos —, mas não se vê no cinema atual ninguém que tenha atingido um grau de sofisticação estilística tão grande a ponto de tornar possível reconhecer o autor do filme a partir de um único frame. Isso ocorre com Anderson e torna-se evidente com a estreia de “A Crônica Francesa”, tour-de-force primoroso de um profissional que sabe que está no auge.

O filme é uma homenagem ao jornalismo, em especial à revista americana “The New Yorker”, conhecida pelas crônicas de alta qualidade literária escritas há décadas por nomes que vão de J.D.Salinger e Vladimir Nabokov a Hannah Arendt. Na visão do irônico cineasta, porém, a metrópole que batiza a lendária publicação americana foi substituída pela pequena Ennui-sur-Blasé, uma charmosa e decadente cidadezinha francesa. Ali funciona a “A Crônica Francesa”, revista liderada pelo editor Arthur Howitzer Jr. (Bill Murray), personagem inspirado em Harold Ross, fundador da “The New Yorker”, e William Shawn, seu sucessor. Ambos eram do meio-oeste americano — outra brincadeira do diretor, que encarta a revista fictícia como um suplemento do Liberty Evening Sun, jornal publicado nos rincões do Kansas.

REDAÇÃO Bill Murray (à esq.) no papel de editor: inspirado em gênios do jornalismo (Crédito:Divulgação)

Como o próprio Anderson indica, seu novo filme tem três fontes: “é uma coleção de contos, algo que sempre quis fazer. É também um filme inspirado na ‘The New Yorker’ e no tipo de repórter que trabalha lá. Tendo passado muito tempo na França ao longo dos anos, sempre quis fazer um filme francês que fosse relacionado ao cinema daquele país”. O ator Owen Wilson, que dividiu um quarto com ele na universidade, lembra que o diretor estava sempre com a revista nas mãos. “Ele lia a “The New Yorker” o tempo todo, lembro que era algo bastante incomum. Acredito que não era assinante, porque isso estaria fora do seu alcance financeiro na época, mas ficava completamente absorvido. O filme é um presente a todos aqueles escritores”, diz Wilson.

Das páginas à tela

O filme é dividido em quatro histórias, como se cada jornalista estivesse apresentando seu artigo para o chefe da redação – tudo por meio de flashbacks, uma vez que ele morre logo na primeira cena. O primeiro caso é “Tour de Sazerac”, estrelado por Owen Wilson, uma reportagem sobre um passeio de bicicleta pelas ruas charmosas de Ennui-sur-Blasé. “Uma Obra-Prima Concreta”, com Benicio del Toro, Léa Seydoux, Adrien Brody e Tilda Swinton, conta o estranho caso de um pintor que está na prisão e usa sua carcereira como inspiração para criar uma valiosa obra de arte. Em “Revisões para um Manifesto”, Frances McDormand e Timothée Chalamet interpretam um casal que participa de uma disputa política entre professores e alunos de uma universidade. “A Sala de Jantar Privada do Policial” traz Jeffrey Wright, Eward Norton e Willem Dafoe no estranho caso de um garoto sequestrado que é salvo pelo chef de cozinha da polícia.

Nessa homenagem ao “cinema de autor” francês, como era chamada a geração de ouro da Nouvelle Vague, Anderson também assina o roteiro. “A Crônica Francesa” parece ter nascido a partir de quatro artigos independentes. Em termos visuais, porém, a produção apresenta uma estética única que tornou-se a marca registrada do diretor. Cores fortes, cenários surpreendentes, clima de fábula, sequências simétricas, animações, inesperados zooms de câmera: um filme de Wes Anderson é inconfundível.
Ennui-sur-Blasé é uma cidade fictícia, mas as cenas foram rodadas em um lugar real: Angoulême, no oeste da França. Ali, Anderson e o designer de produção, Adam Stockhausen, transformaram uma antiga fábrica em um estúdio de cinema em miniatura. Ao todo, a produção contou com 130 sets, número absurdo para as filmagens atuais, geralmente realizadas por meio de computação gráfica. Destaque no Festival de Cannes desse ano, “A Crônica Francesa” é um dos favoritos ao Oscar de Roteiro Original. Se for selecionado, virá a se somar a outras obras de Anderson indicadas pela Academia, como “Grande Hotel Budapeste”, “Os Excêntricos Tenebaums” e “Moonrise Kingdom”. Ele ainda não ganhou o Oscar como diretor, mas o prêmio de jornalista do ano já está merecidamente em suas mãos.

ENTREVISTA
Owen Wilson, ator

Como conheceu Wes Anderson?
Estudamos na mesma classe em Austin, na Universidade do Texas. É uma loucura, porque estamos com 50 anos e me lembro claramente desses momentos. Algo que aconteceu na semana passada parece bem mais distante. A relação com o tempo torna-se surreal quando você se depara com pessoas na vida com as quais se conecta. Eu e Wes Anderson nos conectamos.

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Já estava familiarizado com esse mundo do jornalismo?
Wes disse que meu personagem foi um pouco inspirado por Bill Cunningham, do jornal “The New York Times”. Mas foi só isso, eu realmente não fiz nenhuma preparação especial. Apenas pedalei: se havia um ator pronto para fazer um repórter que anda de bicicleta, acho que era eu.

O que achou da sua atuação?
Normalmente fico desconfortável me vendo, não gosto de assistir a filmes em que estou. Mas esse eu vi uma vez e com certeza vou assistir de novo. Wes cria todo um universo, muita coisa acontece. E algumas histórias se dão rapidamente, há sempre coisas novas para se descobrir.