O sucesso recente do cinema nacional nas premiações internacionais reacendeu um questionamento recorrente no imaginário do público: o que determina a chegada de um filme brasileiro ao Oscar? Após a repercussão de Ainda Estou Aqui na última temporada e o atual protagonismo de O Agente Secreto — que em 2026 disputa categorias centrais como Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco —, fica evidente que o prestígio artístico é apenas o ponto de partida de uma engrenagem complexa de marketing, diplomacia e alto investimento.
A campanha para o Oscar é dividida em três fases estratégicas: elegibilidade, shortlist e indicação final.
Filmes de ficção dependem da escolha da Academia Brasileira de Cinema, enquanto documentários e curtas utilizam festivais qualificadores.
O custo de uma campanha de grande porte pode superar o orçamento total da produção original.
Fatores geopolíticos e o engajamento digital são variáveis decisivas para atrair o voto dos membros da Academia.
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A estratégia das três fases
A corrida pelo ouro de Hollywood não se inicia no tapete vermelho, mas meses antes, no que especialistas definem como um processo de posicionamento de marca. De acordo com Juliana Sakae, especialista em campanhas de premiação e internacionalização, o ciclo é dividido em três etapas rigorosas. A primeira fase foca na elegibilidade, buscando colocar a obra no radar dos votantes.
A segunda etapa ocorre entre a divulgação da shortlist (lista de pré-indicados) e a indicação oficial. Este é o período de maior intensidade, concentrado entre o fim de dezembro e o mês de janeiro. “É um lugar em que está todo mundo trabalhando muito intensamente, durante as festas de fim de ano”, explica Sakae. A terceira e última fase é a consagração, onde o foco se torna a logística da cerimônia e o lobby final para garantir a vitória.
Portas de entrada: do festival à indicação oficial
O acesso ao Oscar ocorre por dois caminhos distintos. Para a categoria de Melhor Filme Internacional, a responsabilidade recai sobre a Academia Brasileira de Cinema, que seleciona um único representante por ano. Já para categorias como Documentário, Curta-Metragem e Animação, o caminho é via festivais qualificadores.
No Brasil, os eventos que garantem elegibilidade automática aos vencedores são o É Tudo Verdade e o Curta Cinema, no Rio de Janeiro. O Anima Mundi, tradicional qualificador de animações, enfrenta um hiato de três anos em suas operações. Contudo, muitos cineastas brasileiros alcançam a vaga por meio de premiações internacionais inesperadas. “A maior parte dos meus clientes qualificou no susto, ganhando um prêmio em um festival internacional e descobrindo a elegibilidade no dia seguinte”, revela a especialista.
“Uma campanha de Oscar exige posicionar a estratégia de festivais para ter visibilidade, organizar exibições em polos como Los Angeles e Londres, e garantir a presença ativa de diretores e protagonistas.”
Juliana Sakae
O fator humano e o ‘efeito Fernanda Torres’
A presença física do elenco e da direção em painéis de debate (Q&As) é um pilar insubstituível. O caso de Fernanda Torres, em sua trajetória por festivais internacionais, tornou-se um case de sucesso. A atriz, ao contextualizar a importância histórica de suas obras com fluência e elegância, humaniza o projeto perante o votante. Essa conexão direta, aliada a críticas positivas na imprensa especializada — como Variety e The Hollywood Reporter —, cria a reverberação necessária para que o filme não seja apenas visto, mas lembrado no momento da votação.
A economia do Oscar: custos e coproduções
O prestígio de Hollywood tem um preço elevado. Em produções internacionais, não é raro que o custo da campanha supere o de produção. O longa Anora, vencedor de cinco estatuetas recentemente, investiu cerca de US$ 6 milhões em marketing — um montante expressivo diante de seu orçamento de produção.
Para o cinema brasileiro, a solução frequente reside nas coproduções internacionais. Estúdios estrangeiros possuem departamentos de premiação estabelecidos e orçamentos em dólar, facilitando a compra de anúncios e a organização de eventos de gala. No entanto, Sakae ressalta que o dinheiro não é garantia de êxito. O cinema brasileiro é reconhecido pela criatividade em executar campanhas eficazes com orçamentos consideravelmente menores que os de seus concorrentes europeus ou asiáticos.
Geopolítica e engajamento
Por fim, o contexto político nos Estados Unidos exerce uma influência silenciosa, mas poderosa. O sucesso de Democracia em Vertigem em 2020, por exemplo, deveu-se em parte à forma como o tema da polarização ressoou com o eleitorado americano da época.
Atualmente, obras que abordam o período da ditadura militar, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, encontram eco em debates globais sobre democracia. Somado a isso, o poder de engajamento do público brasileiro nas redes sociais tornou-se uma ferramenta de pressão cultural que a Academia não pode mais ignorar. O discurso no palco é o ápice de um trabalho que envolve centenas de profissionais e uma estratégia de influência que começa muito antes das câmeras serem ligadas.