França: extrema-direita sofre derrotas, mas se mantém forte para 2027

Eleições municipais mostram país dividido

França: extrema-direita sofre derrotas, mas se mantém forte para 2027

A França realizou neste domingo (22/03) o segundo turno das eleições municipais e, embora os resultados de disputas locais nem sempre ofereçam uma prévia confiável do pleito nacional, a votação forneceu um retrato do clima político no país.

A um ano das eleições presidenciais, a esquerda manteve as três maiores cidades do país, incluindo Paris. A extrema direita, na liderança das intenções de voto para a sucessão do presidente Emmanuel Macron em 2027, conseguir conquistar a prefeitura em várias cidades de médio porte, como Castres ou Carcassonne, mas não obteve grandes vitórias como em Toulon, Nîmes ou Marselha.

A maioria dos cerca de 35 mil municípios da França elegeu os representantes no primeiro turno em 15 de março, mas em cerca de 1.500 cidades houve um segundo turno. A votação, tradicionalmente mobilizadora, foi marcada por uma participação historicamente baixa de cerca de 57% dos eleitores, segundo sondagens.

Em Paris, o socialista Emmanuel Grégoire, de 48 anos, obteve 50,52% dos votos. Ele sucede Anne Hidalgo, da qual era vice, e é o terceiro prefeito socialista consecutivo da capital francesa desde 2001.

O novo prefeito de Paris transformou a vitória num símbolo a um ano das eleições presidenciais. “A batalha pela França será violenta”, previu, afirmando que “Paris será o coração da resistência” à união da direita e da extrema direita.

Confira cinco conclusões sobre o pleito, que foi considerado um termômetro para a disputa presidencial de 2027, prevista para abril e maio do próximo ano:

Marcha do RN não é imparável

O partido de extrema direita de Marine Le Pen, Reunião Nacional (RN), aparece com chances inéditas de chegar ao poder no pleito de 2027. No entanto, o fracasso da legenda em conquistar a prefeitura de Marselha, somado à derrota na vizinha Toulon, enfraqueceu a sensação de que a sigla avança rumo ao poder de forma inevitável.

A suposição dominante antes da corrida presidencial era que Jordan Bardella, líder do RN, era o claro favorito, após dois mandatos impopulares de Macron terem enfraquecido o campo centrista.

Os resultados locais, porém, complicam esse cenário. Eles sugerem que partidos tradicionais, quando organizados, ainda conseguem barrar o RN, especialmente em grandes cidades onde a legenda enfrenta a resistência de parte do eleitorado.

No entanto, o avanço do RN não estagnou com um todo. Na fortemente conservadora Nice, o aliado do RN Eric Ciotti derrotou um candidato apoiado por Macron. O partido também conquistou cidades menores como Carcassonne e multiplicou por treze o número de seus vereadores.

Desta maneira, o RN continua sendo o favorito para 2027 no papel, mas a sensação de que nenhuma legenda pode freá-lo perdeu força, e seu teto eleitoral nas grandes cidades ainda parece bastante real.

Centro supera as baixas expectativas

O centro teve um desempenho melhor do que o esperado, apesar da impopularidade de Macron. O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe foi reeleito prefeito de Le Havre, contrariando as pesquisas e reforçando seu status como o centrista mais bem posicionado para enfrentar o RN em 2027.

“Há motivos para ter esperança quando todos aqueles de boa vontade se unem num discurso de verdade e afastam os extremos e a sua facilidade”, declarou Philippe perante os seus apoiantes.

Candidatos macronistas também conquistaram vitórias inesperadas em Bordeaux e Annecy, além de ampliarem sua influência por meio de alianças em Toulouse, Angers e Limoges. O cenário, no entanto, permanece misto. Candidatos apoiados por Macron perderam em Lyon, Nice e Pau.

Dessa forma, as eleições municipais mostram que Philippe emergiu como o nome mais forte do campo centrista, mas sem uma unidade em torno dele, o bloco ainda corre o risco de ficar fora do segundo turno presidencial.

Alianças continuam sendo um risco para a esquerda

As eleições municipais enviaram um sinal claro para a esquerda tradicional: ela tem um desempenho melhor sem fazer alianças com o partido de extrema esquerda França Insubmissa (LFI). A legenda radical tem sido prejudicada por uma série de controvérsias, desde as repercussões da morte de um ativista de extrema direita em Lyon até novas acusações de antissemitismo relacionadas a declarações de seu líder, Jean-Luc Mélenchon.

Em Paris, o socialista Emmanuel Grégoire venceu após recusar uma aliança com o LFI. Em Marselha, o socialista Benoît Payan derrotou o RN mantendo distância da legenda de extrema direita, cujo candidato desistiu da disputa.

Já as alianças entre socialistas e LFI foram derrotadas em cidades como Toulouse, Limoges e Clermont-Ferrand. O LFI ainda obteve vitórias simbólicas em Saint-Denis e Roubaix, mostrando que mantém uma base mobilizada, mas de alcance limitado.

Tudo indica que a esquerda caminha para um acerto de contas estratégico em 2027, com a eleição presidencial provavelmente colocando duas visões concorrentes da esquerda em confronto.

Lyon e o enfraquecimento dos Verdes

O Partido Verde, que conquistou grandes cidades em 2020, não conseguiu repetir o sucesso daquele ano. Após a crise do custo de vida e a instabilidade geopolítica, as questões ambientais parecem ter caído na lista de prioridades dos eleitores. Prefeitos verdes foram derrotados em Estrasburgo, Bordeaux e Poitiers.

Em Lyon, o prefeito verde que buscava a reeleição conseguiu se manter no cargo por uma margem apertada, destacando o quão frágeis se tornaram os redutos urbanos do partido.

O recuo do Partido Verde reflete uma reação contra prioridades e mensagens que tiveram dificuldade em ressoar além de sua base eleitoral, levantando dúvidas sobre sua influência em 2027.

Força local dos conservadores tem limites

O partido conservador Republicanos (LR) não conseguiu conquistar Paris – uma derrota simbólica atribuída ao perfil polarizador da candidata Rachida Dati e seu suposto envolvimento em um caso de corrupção. Em outras regiões, o partido destacou sua resiliência, se mantendo como a maior força local da França.

Os republicanos possuem uma base eleitoral sólida, mas ainda precisam decidir se preferem continuar como uma minoria bem apoiada ou se devem se unir ao centro para enfrentar os partidos mais extremos da esquerda e da direita.