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Cientistas chilenos identificam bactérias hiperresistentes na Antártida

Cientistas chilenos identificam bactérias hiperresistentes na Antártida

Nesta foto divulgada pela Universidade do Chile, os cientistas chilenos Alexis Gaete (E) e Macarena Varas trabalham na Antártida, em 5 de fevereiro de 2019 - Universidad de Chile/AFP

Um grupo de cientistas chilenos descobriu na Antártida cerca de 20 espécies desconhecidas de bactérias hiperresistentes aos antibióticos, que podem transferir sua capacidade de resistência a outros micro-organismos e com isso provocar um risco para a saúde global.

O professor assistente do departamento de Biologia da Universidade do Chile, Andrés Marcoleta, juntamente com a pesquisadora Macarena Varas e seu assistente, Alexis Gaete, fizeram duas expedições à península antártica e às Ilhas Shetland do Sul entre 2017 e 2019.


Com pás, recipientes estéreis e um equipamento moderno para medir parâmetros ambientais, eles tentavam determinar quão resistentes os micro-organismos que habitavam ali eram em relação a bactérias de outros ambientes.

Após coletar centenas de bactérias endêmicas, eles descobriram que cerca de 20 eram totalmente desconhecidas e com características de “hiperresistência”, explicou Marcoleta à AFP.

Para determinar seu incrível poder de resistência, os cientistas cultivaram 12 amostras e as expuseram a diferentes tipos de antibióticos usados para tratar doenças infecciosas e metais que têm propriedades bactericidas, como o cobre, o arsênico ou o cádmio.

“Praticamente nenhum antibiótico causou efeito nestas bactérias. Têm muitas propriedades de resistência. Talvez esta resistência sirva em seu ambiente natural para resistir a outros compostos tóxicos”, disse Marcoleta.

“Muitas delas (bactérias) são multirresistentes a antibióticos clássicos ou têm produção de algum metabolito que estamos em processo de caracterização, que tem atividade antibiótica sobre algumas bactérias que têm interesse clínico”, acrescentou a doutora Varas.

Os cientistas se preocuparam com esta nova descoberta, pois “cada vez detectamos com maior frequência infecções por bactérias que são muito resistentes às substâncias que hoje em dia estão disponíveis para tratar estas infecções”, acrescentou Marcoleta.

As infecções por ‘superbactérias’ mataram 1,2 milhão de pessoas em 2019, segundo um estudo publicado em janeiro na prestigiosa revista médica britânica The Lancet.

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde declarou uma crise sanitária mundial diante da resistência aos antimicrobianos e criou um grupo de trabalho para estudar tratamentos alternativos.

“Estas capacidades de resistência das bactérias antárticas poderiam ser adquiridas por bactérias patógenas (que causam doenças), uma situação que provocaria sérios problemas sanitários em nível global”, indica o estudo a respeito desta pesquisa publicada na revista Science of the Total Environment.

– As Pseudomonas –

Marcoleta detalha que entre as bactérias encontradas que causaram especial interesse estão as Pseudomonas, predominantes no solo da Península Antártica e parentes de outras que vivem em áreas urbanas, responsáveis por doenças graves como a fibrose cística.

Mas, como estas bactérias poderiam prejudicar o ser humano?

“Felizmente, tudo indica que as ditas Pseudomonas antárticas não são patógenas, mas sim, poderiam atuar como fonte de genes de resistência e ser transferidas com relativa facilidade a Pseudomonas patogênicas”, acrescenta o estudo.

Neste caso, adverte, “teríamos um problema sanitário porque haveria novos genes de resistência que estariam contribuindo para esta crise de resistência aos antimicrobianos”.

Especialistas afirmam que saber detalhes sobre os genes destas bactérias presentes na Antártida também ajudariam no desenho de possíveis novos antibióticos.

– Bactérias e mudanças climáticas –

Os cientistas começaram um novo estudo no qual buscam determinar como estas bactérias poderiam ser transportadas da Antártida para o resto do mundo.

“A península antártica, onde continuaremos pesquisando, é uma das áreas mais afetadas pelo degelo provocado pelas mudanças climáticas”, afirma Marcoleta.

Ano a ano e em um ritmo intenso, solos estão descongelando e deixando expostos reservatórios de genes de resistência.

Os pesquisadores pretendem determinar como esta situação impacta as bactérias e se sua informação genética poderia se disseminar por plantas ou animais que estejam ali.