Cultura

Cidadão Welles

Gênio ou louco? A conturbada carreira de Orson Welles o coloca em algum lugar entre esses dois extremos. Trinta e cinco anos após a sua morte, o fantasma do criador de Rosebud ainda atormenta Hollywood ao servir de inspiração para “Mank”, produção da Netflix sobre os bastidores de seu filme mais famoso, o imortal “Cidadão Kane”

Crédito: Divulgação

MESTRE DO CAOS Orson Welles: carreira irregular começou com o ápice logo na estreia, aos 25 anos (Crédito: Divulgação)

Imagine o roteiro: jovem de 24 anos, celebrado por suas adaptações de Shakespeare na Broadway, recebe milhões de dólares para dirigir uma superprodução de Hollywood. Agora pense que o resultado é aclamado como o melhor filme de todos os tempos. Como seguir em frente? O que fazer depois de alcançar o ápice da carreira já no primeiro projeto?

A vida e a carreira de Orson Welles se entrelaçam de uma maneira que ele jamais poderia prever. Sua mãe morreu quando tinha nove anos, no dia de seu aniversário; o pai se suicidou bebendo até morrer, quando ele fez quinze. Aos 20, assombrou a todos com “A Guerra dos Mundos”, programa de rádio produzido por sua trupe, a Mercury Theatre. Sua narração da invasão de marcianos ao planeta Terra foi tão convincente que o pânico se espalhou pelas ruas das grandes cidades americanas. Nascia o mito.

REBELDE COM CAUSA Em cena de “Kane”, de 1941, e no carnaval carioca (abaixo) no ano seguinte: o grande provocador do cinema (Crédito:Divulgação)

O próximo passo foi um convite dos estúdios RKO para atuar e dirigir “Cidadão Kane”, história sobre o magnata da mídia, Charles Foster Kane, inspirada em um figura real, William Randolph Hearst. Welles sabia atuar e dirigir, mas precisava de um roteirista. Chamou Herman Mankiewicz, considerado “o homem mais engraçado de Nova York”. Mank, como era chamado, era um alcoolista autodestrutivo, mas um escritor excepcional. Escreveu “O Mágico de Oz” e dezenas de roteiros não-creditados, muitos graças ao veto de Joeseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, que proibiu que filmes feitos por Mank fossem exibidos na Alemanha nazista.

Mank e Orson Welles assinaram o roteiro de “Kane”, e levaram um Oscar em 1942. Mas a história não foi bem assim, segundo o artigo “Raising Kane”, da lendária crítica Pauline Kael. Mank teria sido o único autor do filme, mas Welles teria imposto a co-autoria. A teoria é a base do recém-lançado “Mank”, produção da Netflix e cotado para levar as principais categorias no Oscar 2021. Com atuação memorável de Gary Oldman, o filme mostra um autor sensível a ponto de captar a essência de William Randolph Hearst, de quem era amigo – a amizade só durou até o filme ser lançado. A crítica ao egocentrismo do protagonista – órfão e obcecado pelo sucesso, como o próprio Welles – afastou os dois e levou Mank ao ostracismo.

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Bastidores

“Mank” não vale apenas por contar os bastidores de um filme essencial para a história do cinema. A direção precisa de David Fincher, famoso por “Seven – Os Sete Crimes Capitais”, “Clube da Luta” e “A Rede Social”, além das séries “House of Cards” e “Mindhunter”, é uma reverência emocionante à “velha Hollywood”, glamouroso universo que não existe mais. Filmado em preto e branco, tem o clima “noir” dos fillmes dos anos 1940. É possível ver como Welles era um estranho naquele mundo, regido então pelos executivos dos grandes estúdios.


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MANK Gary Oldman como o roteirista Herman Mankiewicz: verdadeiro autor de “Cidadão Kane” (Crédito:NETFLIX)

O diretor era um ícone do cinema de “auteur” muito antes do termo surgir para designar os franceses do movimento Nouvelle Vague.

A busca pelo controle total foi sua glória e sua ruína. Depois de “Kane”, ainda dirigiu bons filmes, como “A Dama de Xangai” (1947), e as adaptações de Shakespeare “Macbeth” (1948) e “Otelo” (1952). Mas sua carreira ficou marcada pelas atuações erráticas em filmes que não tinham o seu nível, além de produções em que, por uma razão ou outra — geralmente problemas de financiamento – ficaram paralisadas. Para os brasileiros, a melhor história é a de sua visita ao País, em 1942, logo após o lançamento de “Kane”. Obrigado pelo governo americano a vir filmar na América Latina, em uma jogada política para convencer o presidente Getúlio Vargas a ingressar na Segunda Guerra contra os nazistas, Welles chegou ao Rio de Janeiro e ficou deslumbrado. Tinha 26 anos. Em vez de filmar o carnaval carioca, preferiu aproveitar a festa: exagerou na cachaça ao lado de Grande Otelo e da cantora Emilinha Borba, de quem foi amante.

“It’s All True” (É Tudo Verdade) abordaria ainda a história real de um grupo de pescadores que saiu de Fortaleza em direção ao Rio para pedir a Getúlio melhores condições de trabalho. Na filmagem, o barco virou e um dos jangadeiros, Manuel Olímpio Meira, o Jacaré, faleceu. Em meio a todas essas tragédias, Welles voltou para os EUA — com um prejuízo milionário e sem o filme, que nunca seria finalizado. Uma metáfora para a decadência que o acompanharia pelo resto da vida, até 10 de outubro de 1985, quando saiu de cena definitivamente, aos 70 anos, na mesma Hollywood que o havia rejeitado tantas vezes.

Três clássicos sobre o cinema

 

 

 

 

“Me sinto em casa na velha Hollywood”, diz a atriz Lilly Collins

Quais as diferenças e semelhanças entre a velha Hollywood e hoje em dia?
Havia mistério e cenas mais lentas. Hoje se exige grande velocidade para as pessoas não perderem o interesse. Em “Mank”, as interpretações permitem momentos de reação, não apenas ação. A indústria do cinema era mais influenciada pela política, as decisões eram tomadas sempre a portas fechadas. Agora há mais transparência.

Quais são seus filmes clássicos favoritos?
Amo “Intriga Internacional”, “Cinderela em Paris” e “A Princesa e o Plebeu”, com Audrey Hepburn. Gosto de Marilyn Monroe e das comédias dos irmãos Marx. Cresci vendo filmes em preto e branco. Me sinto em casa na velha Hollywood.

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“Cidadão Kane” é inspirado em um magnata da mídia. Como celebridade, como você vê esse poder hoje?
As redes sociais têm um lado interessante porque você pode controlar sua própria história, projetar a imagem que quiser. Por outro lado, permitem que outras pessoas espalhem de maneira muito rápida fatos falsos sobre a sua vida. É bom equilibrar.

Você é filha de Phil Collins. Por que escolheu ser atriz e não cantora?
Amo cantar, algum dia gostaria de unir os mundos e atuar em um musical. Mas, por enquanto, vou deixando a música só para ele.

Pronta para a temporada nova de “Emily in Paris’ ?
Sim. É bom alternar entre um drama e uma comédia leve. As pessoas precisam sorrir.

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