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A incrível história do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello estreia em 17 de abril na Netflix. Wagner Moura interpreta o negociador habilidoso e apaixonado que atuou em perigosas missões da ONU e morreu em um atentado no Iraque em 2003

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LANÇAMENTO Wagner Moura e Ana de Armas: o brasileiro e a cubana atuam na nova produção multicultural (Crédito: Divulgação)

A sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, abriga os dois enormes painéis “Guerra e Paz”, do brasileiro Cândido Portinari. A posição deles é estratégica: ficam em paredes opostas no salão de acesso à Assembleia Geral, onde os líderes dos 193 países membros se reúnem anualmente. Quando chegam à ONU, dão de cara com o painel “Guerra”; quando saem, passam em frente ao mural “Paz”. É uma metáfora – os chefes de estado podem chegar querendo o conflito, mas deixam o local com uma promessa de pacificação.

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“Sergio era um idealista  que acreditava em um mundo mais fraterno.  Para mim, empatia era  sua característica principal.  Esse filme, no fim das  contas, é sobre isso” Wagner Moura, que interpreta Sergio Vieira de Mello. Ator buscava papéis de líderes latinos

Enquanto Portinari brilhava nas paredes da ONU, outro brasileiro passava a vida viajando para resolver pessoalmente os grandes problemas do mundo. Seu nome era Sergio Vieira de Mello. Quem conhece a vida do diplomata brasileiro não tem dúvidas de que ela daria um belo filme. E deu: “Sergio”, dirigido pelo americano Greg Barker e estrelado por Wagner Moura, estreia na Netflix em 17 de abril. O filme é baseado na biografia “O Homem que Queria Salvar o Mundo”, de Samantha Power. Barker, que faz seu primeiro trabalho de ficção, já havia dirigido um documentário homônimo sobre o brasileiro em 2009.

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Apesar de ser uma grande produção, com cenas filmadas no Rio de Janeiro, Jordânia e Tailândia, seria impossível reproduzir a carreira do diplomata em apenas duas horas. Durante 34 anos, Sergio atuou em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique, Líbano, Camboja, Bósnia, Ruanda, Kosovo, Timor Leste, Iraque. Em todos eles, usou sua empatia e carisma como principal arma para negociar acordos de paz e planos de repatriação de refugiados. De jovens funcionárias da ONU a genocidas, ninguém resistia ao sorriso de Sergio Vieira de Mello.

“Sergio” foi filmado no Rio de Janeiro, Tailândia e Jordânia. Refugiados do Iraque e da Síria atuaram como figurantes

O filme se passa em dois desses países: no Timor Leste, onde ele negociou a independência do país, e no Iraque, onde morreu, vítima de um atentado terrorista em 19 de agosto de 2003. Nas cenas no Timor Leste, o filme mostra pouco as negociações que libertaram a pequena ilha da ocupação da Indonésia e levaram o revolucionário Xanana Gusmão a se tornar seu primeiro presidente. O foco maior é na relação apaixonada entre Sergio e Carolina Larriera. A jovem economista argentina é interpretada por Ana de Armas, atriz cubana indicada ao Globo de Ouro por “Entre Facas e Segredos”.

O roteirista Craig Borten, indicado ao Oscar por “Clube de Compras Dallas”, incorporou diálogos e trechos da biografia de Samantha Power. Em um deles, Sergio pergunta a uma refugiada: “Do que a senhora mais sente falta? O que a senhora quer?” A mulher responde: “Quero subir ao céu e virar nuvem. Depois quero viajar até minha casa e, ao ver minha terra, quero me transformar em chuva, e cair do céu, aterrissando no solo para permanecer para sempre no lugar ao qual pertenço”. É a cena mais bonita do filme.

Apesar do relacionamento com Carolina, Sergio ainda era casado com a francesa Annie Personnaz. O homem que negociava com criminosos de guerra e ditadores sanguinários não conseguia manter uma boa relação com a mulher, de quem se separou litigiosamente, nem com os dois filhos, Laurent e Adrien. Em 2001, após a separação, oficializou o namoro com Carolina – chegaram a trocar alianças.

A união civil, porém, só foi reconhecida mais tarde, graças ao apoio da mãe de Sergio, Gilda.

Netflix

Um ator global

“Sergio” é mais um grande papel de Wagner Moura. Depois de atuar como o colombiano Pablo Escobar na série “Narcos” , interpretação que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro, ele consolida a carreira internacional. Wagner dá show: atua em inglês, português, espanhol e francês.

“Tenho feito muitos trabalhos inspirados em personagens reais”, afirma Wagner. “Gosto de buscar um exemplo iluminador através da trajetória de pessoas que deixaram uma marca.” Moura admite que ainda acha difícil atuar em outra língua que não seja o português, mas confirma que vai seguir a carreira internacional. “Esse filme faz parte de um projeto mais ambicioso de produzir conteúdo nos Estados Unidos sobre personagens latinos que não reforcem estereótipos.” A história de amor vivida no Timor Leste termina com uma linda cena de Sergio e Carolina correndo pela orla na noite em que foi decretada a independência do país. A cena é real: Sergio deu um cano na festa de gala organizada pelo então presidente Bill Clinton e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, seu chefe, porque preferiu sair para correr com a namorada.

DIPLOMACIA Sorrisos e simpatia: Sergio com Xanana Gusmão, primeiro presidente do Timor Leste (Crédito:Divulgação)

O filme não segue uma ordem cronológica. O enredo alterna passagens da vida do diplomata e cenas de seu resgate no Iraque, após o escritório da ONU ter sido atingido por um caminhão-bomba. O episódio insinua que os americanos não se esforçaram para salvar Sergio, que permaneceu horas em meio aos escombros e contou apenas com um resgate amador, tosco. As circunstâncias da morte de Sergio permitem essa interpretação. Antes de morrer, ele informou ao interventor americano Paul Bremmer que apresentaria um relatório responsabilizando os Estados Unidos por maus tratos em prisões iraquianas, como Abu Ghraib. “Acho difícil pensar que alguém tinha o poder de enviar equipamentos de resgate e não o fez deliberadamente”, afirma Moura. “Mas o amadorismo do resgate é outro ponto crítico dessa tragédia.” A história de Sergio, um dos maiores heróis brasileiros de todos os tempos, não teve final feliz. Para Moura, porém, sua vida foi um exemplo para o mundo inteiro. “‘É importante sobretudo para nós, brasileiros, que a trajetória de um homem que dedicou a vida a valores como direitos humanos e a paz mundial seja conhecida.”

Entrevista exclusiva com o diretor Greg Barker
“O Diplomata era brasileiro, mas sua história é universal”

HUMANIDADE
Elogios a Wagner Moura: “ele trouxe a mesma empatia de Sergio pela condição humana”

Você dirigiu o documentário “Sergio” e a ficção. Qual a diferença?
No filme pude mostrar um lado mais emocional de Sergio, que sempre me intrigou. Apesar de ser minha estreia na ficção, foi natural trabalhar com atores. Eu já conhecia bem a história.

Você tem uma vasta experiência internacional. Houve uma identificação pessoal?
Sim, senti uma conexão. Meu pai era da Marinha e viajei o mundo inteiro. Sergio não era maniqueísta, não achava que o mundo era uma luta do bem contra o mal. Ele compreendia as áreas cinzentas da geopolítica como ninguém. Olhando para o cenário político atual, sua história é mais relevante do que nunca.

Como foi trabalhar com o ator brasileiro Wagner Moura?
Houve uma conexão imediata quando o conheci. Além de ser um ator incrível, ele trouxe uma grande empatia pela condição humana, algo que Sergio também tinha.

Houve negligência por parte dos EUA no resgate de Sergio? Ele ficou horas preso nos escombros.
Acho que foi resultado da falta de planejamento. Ninguém imaginava que um atentando como aquele podia acontecer, não havia sequer protocolos para o resgate. Foi mais um capítulo caótico da ocupação americana no Iraque.

SamantHa power: uma mulher poderosa

ONU Jornalista e embaixadora: biógrafa de Sergio revela bastidores da diplomacia mundial (Crédito:Divulgação)

“Sergio” é baseado na biografia “O Homem que Queria Salvar o Mundo”, de Samantha Power, jornalista, diplomata e professora de Harvard. Lançado em 2008, é um relato envolvente não apenas pela pesquisa minuciosa, mas pela constatação de que o brasileiro participou da maioria dos fatos relevantes da geopolítica mundial desde 1969, quando ingressou no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Do Camboja ao Kosovo, do Zaire ao Iraque, onde havia um conflito, lá estava Sergio.

Apesar de ser uma cinebiografia ficcional, muitos diálogos foram reproduzidos ipsis litteris a partir do livro de Samantha. Há passagens que revelam bem o seu pragmatismo – característica que o levou a ser criticado pela condescendência com que tratava ditadores e genocidas. “Ah, as coisas que tenho que fazer a serviço da humanidade”, dizia, em tom jocoso. Eleita uma das “100 pessoas mais influentes do mundo” pela revista Time, Samantha cobriu guerras na Bósnia, Ruanda e Sudão. Em 2003, ganhou o Pulitzer, o maior prêmio do jornalismo, com “Genocídio: A Retórica Americana em Questão”. Em 2013, foi indicada pelo presidente Barack Obama para ser embaixadora dos Estados Unidos na ONU, cargo que ocupou até 2017.

 

Wagner Moura: “O coronavírus escancarou o despreparo de lideranças mundo afora”

Istoé – Você já interpretou diversos papeis inspirados em personagens da vida real, de Juscelino Kubitschek a Pablo Escobar, dirigiu o filme sobre Marighella e, agora, interpreta o diplomata Sergio Vieira de Mello. O que eles têm em comum que te atrai?

Wagner Moura – Coincidentemente eu tenho feito muitos trabalhos baseados em personagens reais, embora eu não possa dizer que essa seja uma predileção. Acho que gosto mais de não ter responsabilidade com a história de alguém. Mas gosto da ideia de buscar um exemplo iluminador ou a reavaliação de um contexto histórico através da trajetória de pessoas que, de alguma maneira, deixarem uma marca.

Você se inspirou no Sergio Vieira de Mello real, do documentário de Greg Barker? Sua atuação traz muitos trejeitos físicos dele, como distribuir sorrisos em momentos de tensão ou falar com olhos bem abertos para dar ênfase a alguma declaração. Você achou que era importante trazer esses elementos da personalidade física dele para a ficção?

O que eu procuro fazer com todos esses personagens reais é me abastecer ao máximo de toda informação que existe sobre eles, para depois criar minha própria versão dessas pessoas. Ou seja, eu leio e vejo o máximo que posso e, quando sinto que conheço o personagem, “esqueço” tudo que aprendi e entramos, eu e ele, numa espécie de simbiose. Assim o trabalho não passa pela imitação, essas características vêm naturalmente porque nós dois já estamos meio que misturados.

O filme “Sergio” é uma ficção, mas muitos diálogos foram tirados do livro de Samantha Power. Você sentiu que era um filme 100% ou pareceu uma refilmagem com atores do documentário?

Para nós sempre foi muito importante que o filme funcionasse como ficção, embora tenha uma estrutura narrativa parecida com a do documentário do Greg. Mesmo por isso, o próprio Greg sempre esteve muito atento à importância de diferenciar os gêneros.

O documentário aborda de maneira sutil que os Estados Unidos estavam incomodados com a postura de Sergio no Iraque. No filme, porém, isso é escancarado. Se Sergio é o herói do filme, quem é o vilão? Os terroristas que o mataram? Ou os americanos, representados pelo interventor Paul Bremmer?

A ONU foi publicamente contra a invasão do Iraque e Sergio pessoalmente se opunha à presença americana. Esse é um dado que enfatiza ainda mais a tragédia do atentado. Sergio era Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos e estava claro que os americanos estavam usando a tortura como método. O conflito com Paul Bremmer, que não tinha um plano pós-invasão definido, era inevitável. O atentado ao Hotel Canal foi o primeiro ataque terrorista em que a ONU foi um alvo central. Isso tem a ver tanto com a ideia equivocada de que as Nações Unidas estavam ali para servir à coalizão, quanto ao fato de Sergio ter participado da independência do Timor Leste da Indonésia, o maior país muçulmano do mundo.

Não é a primeira vez que você atua em outro idioma, mas desta vez você fala inglês, português, espanhol e até francês. Atuar em outras línguas já é algo natural para você? Qual é a dificuldade? A participação nesse filme é um passo natural para a sua carreira no exterior?

Eu acho muito mais difícil atuar em outra língua que não seja português. Esse filme faz parte de um projeto mais ambicioso de produzir conteúdo nos EUA sobre personagens latinos que não reforcem estereótipos.

Lendo o livro da Samantha Power, imagina-se que um filme baseado nele seria um thriller político, não uma história de amor. O que achou dessa opção do diretor Greg Barker, até porque é um jornalista acostumado a dirigir documentários politicamente contundentes?

Acho que Greg quis, através da história de amor entre Sergio e Carolina, trazer para o filme o espectador menos interessado em dramas políticos. Eu acho uma estratégia válida na medida em que a história de amor é real. Sergio estava mesmo apaixonado e a ponto de casar-se com Carolina quando morreu.

Do ponto de vista pessoal, você acredita que os EUA não se empenharam deliberadamente no resgate de Sergio? Ele ficou horas sob os escombros e o resgate foi feito de maneira totalmente amadora. Acha que seria a mesma coisa se um diplomata americano estivesse sob os escombros?

 

Acho difícil pensar que alguém tinha o poder de enviar equipamentos de resgate e não o fez deliberadamente. Mas o amadorismo do resgate é outro ponto crítico dessa tragédia.

O Brasil é um país com personagens importantes localmente, mas de pouca repercussão global. Sergio pode ser considerado um dos grandes heróis brasileiro no contexto mundial?

É um brasileiro muito importante para a história de uma instituição pela qual eu tenho muito interesse. A história da ONU está dividida entre antes e depois de Sergio Vieira. Muitos o apontavam como nome certo para substituir Kofi Annan como Secretário-Geral. Acho importante que o mundo – e, sobretudo nós, brasileiros –, conheçamos a história de um homem que dedicou sua vida a valores elevados como os direitos humanos, a paz mundial e a mitigação de efeitos de guerras e catástrofes na vida dos mais vulneráveis.

No momento em que o Brasil vive uma escassez de líderes, qual é a importância de contar uma história como a de Sergio?

Sergio era um homem com muitas qualidades que faltam à maioria dos líderes mundiais. O coronavírus escancarou o despreparo de lideranças mundo afora. Sergio era um intelectual da Sorbonne e ao mesmo tempo um homem de ação, formado nos campos de refugiados apoiados pela Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), um especialista em geopolítica, um negociador pragmático, mas também um idealista que acreditava num mundo mais fraterno. Para mim, empatia era a característica principal de Sergio. Esse filme, no fim das contas é sobre isso.

 

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