Cultura

Cia Mungunzá quer revitalizar a Luz

Num dia de novembro, uma fila de caminhões se fez na Rua dos Gusmões, 43, na Santa Ifigênia. De cima deles, dez contêineres foram descarregados e, depois, empilhados no terreno abandonado de 1 mil m². Nesta semana, o clima de tardes com sol e noites de baixas temperaturas não incomodou a horta hidropônica montada ao lado do Teatro de Contêiner, novíssimo espaço cultural em São Paulo, criado pela Cia Mungunzá de Teatro, em parceria com a subprefeitura da Sé. O local está situado numa rua tranquila da região, com um posto da Guarda Civil bem em frente do terreno.

Mas o projeto que vai ser inaugurado em março de 2017 não foi concebido assim tão de supetão, conta o ator Lucas Beda. “Nós pesquisamos diversos lugares que estavam ociosos pela cidade.” Quando encontraram o endereço – a três minutos de caminhada da Estação da Luz -, o terreno acumulava entulho, tinha parte das cercas destruídas e servia de estacionamento para o comando geral da Guarda Civil Metropolitana.

Por meio de um termo de cooperação, a companhia será responsável por zelar pelo local durante três anos – que ainda aguarda confirmação. Até o momento, a Mungunzá já investiu cerca de R$ 200 mil, em serviços como limpeza do terreno, terraplenagem e instalação elétrica e dos contêineres. Até o fim do período, o total aplicado será de R$ 2,1 milhões, vindos de um caixa próprio acumulado desde 2008, ano de fundação da companhia sediada no Bom Retiro.

Em virtude do tamanho da empreitada, o grupo gastou tempo criando um projeto arquitetônico que refletisse o tipo de relação que os artistas gostariam de estabelecer com o local, ressalta Beda. O que resultou nos contêineres empilhados. Juntos vão abrigar banheiros, camarim, escritório e um espaço com lotação de 80 pessoas. Do lado externo, existe a horta criada por um morador do bairro e, no gramado, um playground feito com tambores de aço reutilizados, desenvolvido pelo grupo espanhol Basurama. Na lateral superior da edificação, a pintura branca vai servir como tela de cinema para projeções ao ar livre. “O objetivo não era levantar mais um prédio, mas o desejo de que as características da construção chamassem as pessoas à convivência”, explica o ator.

E esse convite também se reflete nos portões abertos. “Não queremos entrar, fazer mais uma peça, trancar tudo e ir embora.” Vez ou outra, a conversa era interrompida por um morador de rua que perguntava se poderia apanhar alguns materiais descartados. “Aqui continua sendo um espaço público e queremos construir essa relação”, reforça Beda.

Entre as atividades que a companhia do premiado Luis Antonio – Gabriela deseja realizar está abrigar espetáculos de dança, shows de pequeno porte, oficinas e exposições. Tudo isso pautado por uma curadoria que será formada em 2017. Para a data de inauguração, ainda não divulgada, o grupo planeja ocupar o novo palco com o espetáculo de 2011, dirigido por Nelson Baskerville. A montagem documenta a história de Gabriela, uma travesti de meia-idade que deixou a família e foi morar na Espanha. “Achamos que seria muito bonito fazê-lo aqui. Um espetáculo que, de certa forma, nos obrigou a entender a força do teatro”, conta o ator.

Questionado sobre o que ocorrerá ao fim do período de três anos, o ator disse que a companhia espera entregar um projeto que valorize o espaço urbano. “E que isso seja mais um motivo para continuarmos lá.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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